====== Do fundamento (Grund) ====== //JANKÉLÉVITCH, Vladimir. L’Odyssée de la conscience dans la dernière philosophie de Schelling. Paris: Felix Alcan, 1933.// * Distinção entre descontinuidade e incoerência no devir * A duração dramática do devir é marcada por negações energéticas e contradições agudas que instauram descontinuidades reais * Essa descontinuidade não implica incoerência nem caos arbitrário, pois o devir, ainda que renegue, não apaga integralmente o que foi * A consciência rompe com seu passado, mas o faz de modo organizado, conservando-o sob outra forma * Repressão do passado e sua não aniquilação * A consciência religiosa conjura os momentos ultrapassados de sua própria história como se realizasse um exorcismo * O passado reprimido não é reduzido ao não-ser, mas relegado a uma condição latente * O esquecimento suprime a presença ativa do passado sem eliminar sua existência ontológica * Função mediadora da teoria do fundamento * A teoria do Grund permite articular conjuntamente as revoluções do devir e a continuidade do devir * O passado deve ser suprimido enquanto forma vigente, mas deve sobreviver como base sustentadora * O fundamento explica como a negatividade do passado pode servir de condição positiva do presente * Metáfora da matéria transparente * O passado do devir assemelha-se à matéria invisível de um corpo transparente * Ele não aparece, mas sustenta a solidez do corpo * Negar o passado equivale a chocar-se contra uma resistência invisível que continua operando * Jogo semântico de zu Grunde gehen * Desaparecer não significa cair no nada, mas tornar-se fundamento * O tempo não destrói, mas torna invisível * O passado é confinado à inação, não ao não-ser * Dimensão mítica do passado como potência latente * A figura de Hades simboliza o passado tornado impotente, mas ainda temido * O passado subterrâneo conserva um poder destrutivo potencial * O equilíbrio do presente depende do recalcamento contínuo desse passado * Eutanásia do passado na mitologia grega * O passado grego morre suavemente e deixa atrás de si figuras ainda vivas * A mitologia não renega brutalmente suas fases anteriores * Essa continuidade explica sua vitalidade, variedade e vigor duradouros * Conversão simbólica do princípio resistente na mitologia egípcia * O princípio real não é eliminado, mas interiorizado * Typhon não é destruído, mas transformado em potencialidade * A força hostil é convertida em harmonia e música * Patologia da descontinuidade radical * Onde o princípio antigo é expulso sem conversão, o devir torna-se anormalmente descontínuo * A mitologia hindu ilustra essa ruptura excessiva * A eliminação do fundamento conduz à inconsistência simbólica * Existência do passado para ser superado * O passado existe para ser vencido, não para permanecer soberano * Sua função é fornecer assento e suporte ao processo ulterior * Ele não é anulado, mas rebaixado à função de base * Definição do passado como Grund * O passado é o fundamento do presente * A teoria do fundamento é um caso particular da teoria do devir * Cada momento vencido torna-se condição do momento vencedor * Distinção boehmiana entre Grund e Wesen * O Grund corresponde à natureza antes da existência * O Wesen corresponde à existência manifestada * O fundamento é princípio do começo e não forma acabada do ser * Relatividade e recorrência do sacrifício do fundamento * O sacrifício do fundamento não ocorre uma única vez * Ele se renova a cada instante da duração * Cada progresso exige a supressão de um fundamento anterior * O sacrifício como motor do devir * O sacrifício contínuo permite ao devir avançar * O sacrifício inicial do fundamento desencadeia a criação * O progresso repete estruturalmente o gesto originário * Rejeição do fundamento como causa eminente * O Grund não é causa eficiente no sentido clássico * Ele é germe, base humilde, suporte do desenvolvimento * A causa não é superior ao efeito em dignidade ontológica * Inversão da explicação descendente * A explicação racionalista que concentra a perfeição no início é rejeitada * A explicação verdadeira é ascensional * A revelação progride do inferior ao superior * Princípio em baixo e não em cima * O fundamento é inferior e primeiro no tempo * Ele torna-se matéria, órgão e condição das formas superiores * O princípio é vítima do desenvolvimento que inaugura * Oposição a Jacobi e ao emanatismo * A dedução do todo à parte elimina o devir real * O racionalismo esvazia a significação do desenvolvimento * A filosofia do devir pensa a geração efetiva dos seres * Realismo do nascimento do ser * A vida nasce pequena, obscura e concentrada * O desenvolvimento é uma expansão progressiva * A existência se elabora sempre na obscuridade * Preformação e novidade * O fundamento contém tudo de forma comprimida * O adulto não acrescenta conteúdos, mas muda o regime de manifestação * O real difere do possível por uma distância ontológica decisiva * Ambiguidade constitutiva do Grund * O Grund é simultaneamente menos e mais que a existência desenvolvida * Ele é semente e obstáculo * Ele prepara o futuro e resiste à sua realização * O Grund como laboratório obscuro do ser * É no fundamento que se engendram as existências * O princípio tenso se transmuta em luz desde o interior * O devir é sustentado continuamente, não apenas iniciado * Negação como condição do movimento * O repouso é o fundamento do movimento * O ponto é a negação da linha * Toda positividade nasce de uma supressão prévia * Estrutura sacrificial do progresso * O devir exige vítimas * A vida nasce de vitórias sobre a morte * Cada nova forma se ergue sobre a ruína da anterior * O passado como resistência ativa * O fundamento vencido continua resistindo * Ele retarda o avanço do novo * O progresso engendra seu próprio freio * Conservação subterrânea do passado * O passado subsiste como socle e tuf do presente * Ele reaparece nos momentos decisivos da liberdade * O esquecimento suprime a presença, não a eficácia * Multiplicidade e relatividade dos fundamentos * Todo momento passado é fundamento do seguinte * Cada fundamento nasce para sucumbir * A série dos sacrifícios estrutura a duração * Ambivalência dos momentos do devir * Cada momento é positivo em si * Ele é negativo em relação ao futuro * Ele se afirma recusando sua própria sucessão * Realismo trágico da filosofia schellinguiana * O fundamento sobrevivente lembra a fragilidade do presente * O passado atua como reproche silencioso * O espírito permanece ameaçado por forças arcaicas * Permanência do princípio noturno * A necessidade subsiste na liberdade * A natureza subsiste no espírito * O não-eu subsiste no eu * Limite interno da racionalização do real * O real não é totalmente convertível em conceitos * O princípio noturno resiste à disciplina lógica * A filosofia última reconhece essa contingência íntima {{tag>Schelling Jankélévitch grund}}