====== A substituição dos sonhos ====== //Hugo von Hofmannsthal// O que as pessoas buscam no cinema — dizia o meu amigo com quem discutia o tema —, o que a classe trabalhadora busca no cinema é a substituição dos sonhos. Estes desejam preencher sua fantasia com imagens — imagens vigorosas —, nas quais se sintetiza a essência da vida; as mesmas que, de certo modo, são criadas a partir do interior do espectador e lhe alcançam a alma. Pois a semelhantes imagens devem a vida. (Fala-se daqueles que vivem nas cidades ou nos grandes cinturões industriais do Distrito; não dos outros, os agricultores, os marinheiros, os lenhadores ou os montanheses). Suas mentes estão vazias, não por natureza, mas antes pela vida que a sociedade os obriga a levar. Ali estão essas aglomerações de centros industriais enegrecidas pelo carvão, com nada mais entre elas do que uma faixa de grama seca e crianças que ali crescem, das quais nem sequer uma em seis mil viu em sua vida uma coruja, ou um esquilo, ou um manancial. Aí estão nossas cidades, esse interminável entrecruzamento de fileiras de casas; casas que são idênticas, que possuem uma pequena porta e faixas de janelas uniformes; a seguir estão as lojas; nada dizem a quem passa diante delas, ou a quem busca uma residência: o único elemento que fala é o número. Assim é a fábrica, o local de trabalho, a máquina, a administração onde se pagam os impostos ou onde é necessário inscrever-se. Nada resta na memória exceto o número. Ali está a jornada laboral: a rotina da vida de fábrica ou os ganhos do ofício; um par de manobras, sempre as mesmas; o mesmo martelar ou agitar ou limar ou tornear; e o mesmo sucede na casa: o fogão a gás, a estufa de ferro, os escassos utensílios e as pequenas máquinas das quais se depende; seu uso contínuo realiza-se de tal maneira que, finalmente, quem o executa repetidamente termina por converter-se, ele próprio, em uma máquina, uma ferramenta entre ferramentas. Disso fogem centenas de milhares de pessoas, em direção às salas escuras de imagens em movimento. O fato de essas imagens serem mudas constitui um estímulo adicional; são mudas como os sonhos. E no mais profundo, sem sabê-lo, essas pessoas temem a linguagem; temem na linguagem o instrumento da sociedade. A sala de conferências está junto ao cinema, o local de reunião está na rua seguinte, mas não possuem esse incentivo instigador. A entrada do cinema, em contrapartida, atrai com força os passos das pessoas, como o aguardente das tabernas; mas, ainda assim, é algo distinto. Do dintel da sala de conferências pende escrito com letras douradas: saber é poder; mas o cinema chama com mais força: chama com imagens. O poder que o saber proporciona resulta-lhes pouco confiável, não totalmente convincente; quase suspeito. Sentem que o saber apenas submerge o indivíduo em uma profunda maquinação e que gradualmente o separa da vida autêntica, cujo sentido e mais profundo mistério — que a inspiração agita — lhes diz que o cinema é a vida autêntica. O saber, a educação, o conhecimento das relações, tudo isso talvez afrouxe a corrente que sentem atada em torno de suas mãos — talvez a afrouxe por um momento, aparentemente —, para depois talvez puxar ainda mais forte. Acaso tudo isso conduza finalmente a um novo encadeamento, a uma servidão inclusive mais profunda. (Não se afirma que digam isto; mas uma voz lhes diz de forma silenciosa). E o seu interior ficaria vazio para todos eles. (Isto também dizem a si mesmos, sem dizê-lo). O vazio singular e inexpressivo da realidade, a solidão do ser — da qual também brota o aguardente —, as poucas ideias que pendem do vazio, nada disso será realmente curado com o que oferece a sala de conferências. Nem os lemas dos partidos políticos, nem as seções dos jornais que aparecem cada dia — nada há ali — que possa superar realmente a solidão do ser. A linguagem — tanto falada quanto escrita — dos intelectuais ou a das pessoas não muito ilustradas é algo alheio. Franze o cenho, mas não desperta o que dormita no fundo. Há muito de álgebra nesta linguagem, cada letra cobre novamente uma cifra: a cifra é o encurtamento de uma realidade; de longe tudo isso alude a algo, e deste modo a um poder — um poder inclusive do qual se faz parte de alguma maneira —; mas tudo isso resulta demasiado indireto; os vínculos são demasiado absurdos; isto não eleva realmente o espírito, não o conduz a lugar algum. Tudo isso deixa, antes, um desalento — e novamente esse sentimento de impotência de ver-se reduzido a ser uma peça de uma máquina —, mas todos conhecem outro poder, o verdadeiro, o único verdadeiro: o dos sonhos. Foram crianças e então eram seres poderosos. Havia sonhos na noite, mas não estavam limitados à noite; também ocorriam no dia, estavam em toda parte: um canto escuro, um sopro de ar, o rosto de um animal, o ruído de um passo estranho era suficiente para fazer sentir sua permanente presença. Ali estava o obscuro espaço atrás da escada do porão, um velho barril no pátio, meio cheio de águas pluviais, uma caixa com aparatos; ali estava a porta de um armazém, o alçapão, a porta para o apartamento vizinho, pela qual alguém saía, diante do qual se inclina temeroso ao passar, ou uma bela criatura, a qual lançava profundamente o doce e indefinido estremecimento do desejo, na obscura e tenebrosa profundidade do coração, mas é apenas outra vez a caixa com encantadores aparatos que se abre: o cinema. Ali tudo fica exposto, tudo o que se oculta, como de costume, por trás das frias e opacas fachadas das infinitas casas; ali se abrem todas as portas, nos aposentos dos ricos, no quarto da jovem, nos vestíbulos dos hotéis, no esconderijo do ladrão, na oficina do alquimista. É o voo através do ar com o diabo Asmodeu, que destampa todos os telhados e deixa sair os segredos. Mas não se trata apenas do apaziguamento da atormentada e frequentemente defraudada curiosidade; como sucede com os que sonham, sua tranquilidade obedece aqui a um impulso mais secreto: os sonhos são fatos; um doce autoengano mescla-se de modo espontâneo com esse olhar ilimitado; é como dispor ao arbítrio dessas imagens mudas, solícitas e passageiras, como um dispor ao arbítrio a existência inteira. A paisagem, a casa e o parque, o bosque e o porto — que passam por trás dos personagens — revelam-se, ademais, como uma espécie de música surda — e sabe-se lá quais anseios e arrogâncias despertam na zona obscura —, no filme — onde não penetra palavra alguma, nem escrita nem falada —; entretanto, o filme voa sobre toda uma literatura, feita em farrapos, não, sobre toda uma trama de literaturas, sobre fragmentos de personagens de um milhar de dramas, romances, histórias policiais; anedotas históricas, alucinações de visionários, relatos de aventuras; mas ao mesmo tempo belas criaturas e nascimentos transparentes, gestos e olhares dos quais irrompe toda a alma. Vivem e sofrem, lutam e desfilam diante dos olhos do sonhador; e o sonhador sabe que está acordado; não necessita expressar nada. Com tudo o que carrega dentro de si — até a mais secreta dobra —, olha fixamente essa vibrante roda da vida que gira perpetuamente. É o homem todo que se entrega a esse espetáculo; não há um único sonho desde a idade da inocência que não se comova. Pois apenas em aparência esquecemos nossos sonhos. De cada um deles — inclusive daqueles que ao despertar acreditávamos ter esquecido —, resta algo em nós, uma suave mas decisiva matiz de nossos afetos; restam os costumes do sonho nos quais precisamente jaz o homem todo — além dos costumes da vida —, e todas as obsessões reprimidas nas quais a força e a singularidade do indivíduo sobressaem. Toda essa vegetação subterrânea estremece até a raiz mais profunda e obscura, enquanto os olhos leem na vibrante película a imagem polifacética da vida. Sim, essa raiz profunda e obscura que produz a vida, a região onde o indivíduo deixa de ser indivíduo, ali onde muito raramente chega uma palavra, acaso a palavra da oração ou o balbuceio do amor, essa raiz vibra com tudo isso. Dela provém o sentimento mais secreto e profundo da vida: a ideia de indestrutibilidade, a crença na necessidade e o menosprezo da crua realidade, daquilo que está ali apenas por acaso. Dela, quando vibra de repente, provém o que denominamos o poder da formação dos mitos. Diante desse obscuro olhar vindo da profundidade do ser produz-se fulminante o símbolo: a imagem física para a verdade espiritual, que é inalcançável para a razão. — Eu sei — concluiu o meu amigo —, que há diversos modos de considerar estas coisas. E sei que há outro modo de vê-las: é o legítimo, sob outro ponto de vista; e que não vê nada distinto em tudo isso senão uma lamentável confusão que tem origem em ganâncias industriais, no poder absoluto da técnica, na degradação do espírito e na insensível e sempre sedutora curiosidade. Mas parece-me a atmosfera do cinema a única atmosfera na qual os homens de nosso tempo — aqueles que formam parte da massa — acedem a uma grande herança de estranha vocação espiritual, em uma relação imediata e sem inibições, vida após vida, e a sala apinhada à meia-luz com imagens em movimento é para mim — não posso dizê-lo de outro modo —, quase venerável, como o local para onde as almas fogem, do algarismo à visão, em um obscuro instinto de autoconservação.