====== 3A ONTOLOGIA ORIENTADA-AO-OBJETO ====== **Ontologia Orientada a Objetos (OOO)** 1. A expressão filosofia orientada a objetos parece datar de anotações de 1997, mas a pré-história dessa abordagem remonta a 1991 e 1992, nos esforços de um estudante de pós-graduação para compreender a famosa análise heideggeriana da ferramenta, o que a distingue das demais vertentes do Realismo Especulativo, nenhuma das quais deve muito a Heidegger ou à fenomenologia, pois a OOO toma Husserl e Heidegger, e não Derrida, Deleuze ou Badiou, como os grandes filósofos mais recentes com quem é preciso acertar contas, somando-se depois as influências de Whitehead, Xavier Zubiri e, a partir de 1998, da teoria ator-rede de Latour, embora suas verdadeiras raízes estejam em Husserl e Heidegger. **A OOO na Goldsmiths** 1. A apresentação na Goldsmiths aborda três dos quatro pontos centrais da OOO, o papel de Heidegger, o papel de Husserl e a necessidade de uma teoria da causalidade vicária, deixando de lado o quarto, a grande ênfase na experiência estética, pois, se a ciência natural é o modo exemplar de acesso à realidade para Brassier e a matemática para Meillassoux, para a OOO a experiência estética, não só nas artes mas também na filosofia, é a forma mais importante de cognição. 2. Na véspera do workshop, a Goldsmiths sediou uma conferência sobre a ficção de horror de H. P. Lovecraft, organizada por Mark Fisher, e os quatro realistas especulativos, sem nenhum herói filosófico comum, revelaram-se admiradores de Lovecraft, cuja ficção estranha prepara um gênero filosófico inteiro, o de um realismo sempre estranho, voltado à estranheza que existe na realidade sem ser projetada sobre ela, um realismo sem senso comum, oposto ao realismo filosófico habitual a serviço do senso comum ou da ciência natural e ao realismo decepcionante de Kripke, cuja teoria da referência começa designando rigidamente as coisas além de toda descrição, mas termina afirmando que a essência do ouro é ter setenta e nove prótons, caso de subminação, isto é, de substituição de uma coisa por seus elementos causais, materiais ou composicionais, de modo que, sendo toda entidade mais que seus componentes e um excedente mais profundo que todos os seus efeitos sobreminados, o realismo que não é estranho é mera capitulação, servidão ao senso comum ou à ciência natural, enquanto a estranheza capta o hiato entre a realidade e suas manifestações explícitas, presente em Lovecraft, Macbeth, Paraíso perdido, Amada e quase tudo de Poe. 3. A OOO nasceu de uma interpretação de Heidegger, o principal filósofo do século XX, segundo a qual todo o seu pensamento se reduz a uma única oposição recorrente, uma inversão constante e monótona entre o ocultamento das coisas e sua presença visível, exposta na análise da ferramenta de Ser e tempo e já em seu primeiro curso universitário, que mostra, contra Husserl, que a aparição é rara na experiência humana, pois em geral se conta com as entidades sem notá-las até que se quebrem, daí a distinção entre o utensílio à mão e o ente simplesmente dado, quase sempre mal interpretada, talvez pelo próprio Heidegger, como prioridade da prática sobre a teoria, quando na verdade nem a prática nem a teoria esgotam o ser do objeto, já que sentar numa cadeira não a esgota mais que contemplá-la, e ambas permanecem do mesmo lado, o da superfície das coisas, diante dos próprios objetos. 4. Um segundo equívoco, produzido pelo próprio Heidegger, é que, embora um ente passe de utensílio à mão a ente dado, como o martelo usado inconscientemente que se quebra e se torna objeto explícito de atenção, Heidegger associa o utensílio a um sistema total de relações e o ente dado ao isolamento e hierarquiza o relacional como primário, quando o ente dado nada tem de não relacional, pois o martelo quebrado só surpreende alguém, de modo que ambos os modos existem apenas em relação ao ser humano, e a lição verdadeira da análise é que os objetos são mais profundos que todas as suas relações com os humanos, como mostra a própria possibilidade da quebra, impossível se a ferramenta fosse apenas suas relações funcionais, já que quebrar exige um excedente teimoso sob os efeitos atuais que um dia irrompe como sintoma. 5. A leitura orientada a objetos de Heidegger estabelece que teoria e prática não formam uma grande oposição, mas são modos igualmente insuficientes de lidar com as coisas, traduções que nunca desdobram toda a realidade de uma árvore, e que o par utensílio à mão e ente dado não equivale ao par relacional e não relacional, pois ambos existem em relação aos humanos e as ferramentas só se relacionam por terem antes um ser não relacional, e acrescenta uma virada que sai do quadro pós-kantiano, pois a coisa em si escapa não porque os humanos pensam, mas porque são entidades que se relacionam, como o fogo com o algodão ou a chuva com o telhado de zinco, de modo que a finitude kantiana da cognição humana deve estender-se à finitude do fogo que queima o algodão sem interagir com todas as suas propriedades, e a distinção moderna entre pensamento e mundo deve ser substituída pela distinção entre objetos e relações, traço não moderno que suscita em modernos e pós-modernos a aversão visceral ao que erroneamente tomam por personificação bizarra da matéria inanimada. 6. No modelo básico da OOO, o cosmos está repleto de objetos que se retraem uns dos outros e não podem se tocar diretamente, o que não nega as interações calculadas pela ciência, mas afirma que elas são indiretas, como na colisão de duas bolas de bilhar, em que cada uma interage apenas com os traços mais superficiais da outra, traduzida no mundo empobrecido da primeira, numa causalidade vicária cujo problema foi levado a sério pelos ash'aritas de Basra, para quem Deus era o único agente causal, e depois pelo ocasionalismo europeu, de Descartes, que invocava Deus para a interação entre mente e matéria, a Malebranche, que o estendia às interações entre corpos, a Espinosa, Leibniz, com suas mônadas sem janelas coordenadas por Deus, e Berkeley, para quem imagens coordenadas por Deus dão a impressão de leis naturais confiáveis. 7. Uma variante desse ocasionalismo aparece em Hume e Kant, que, sem recorrer a Deus, enraízam toda causalidade em outra entidade privilegiada, a experiência humana, pois para Hume causa e efeito são apenas a conjunção habitual de experiências, como o alimento que sacia a fome, e para Kant a causalidade é uma categoria do entendimento, mas é inteiramente arbitrário escolher uma superentidade mágica, Deus ou a mente humana, capaz de criar vínculos causais que nenhum outro objeto pode criar, o que exige outra solução. 8. A solução vem da fenomenologia de Husserl, que, ao contrário do que afirmam seus aliados, não conhecia o retraimento das coisas, pois julgava absurdo que algo existisse sem ser em princípio objeto de uma consciência e tomava a coisa em si kantiana por contraditória, alinhando-se aos idealistas alemães, enquanto Heidegger, embora realista inconsistente e exagerando o papel do Dasein, denunciou em seu livro sobre Kant a luta idealista contra a coisa em si como esquecimento do problema da finitude, mantendo-se mais próximo do realismo da OOO, sem que isso apague as peças do quebra-cabeça oferecidas por Husserl e invisíveis a Heidegger. 9. A primeira peça é a rejeição husserliana da tradição empirista, verdadeiro inimigo das Investigações lógicas depois da refutação do psicologismo, segundo a qual os objetos seriam feixes de qualidades reunidos pela mente, sem unidade própria, como se não houvesse um táxi descendo a rua, mas apenas cores e formas organizadas em coisa, ao passo que Husserl inverte esse preconceito, intuição central da fenomenologia mais que sua negação de uma realidade além da vida mental, ao mostrar que o objeto vem primeiro e permanece como unidade invariável enquanto suas qualidades mudam conforme ângulos e distâncias, de modo que a fenomenologia consiste em despojá-lo de seus perfis cambiantes para chegar à sua essência. 10. Esse objeto husserliano permanece imanente à consciência e não se confunde com o objeto real que se quebra ou surpreende na análise heideggeriana, sendo chamado pela OOO de objeto sensual em vez de intencional, o que produz a dualidade entre objetos reais e sensuais, acompanhada pela dualidade entre qualidades reais e sensuais, e quatro pares possíveis de objeto e qualidade, raiz do tempo, do espaço, da essência e do eidos segundo O objeto quádruplo, de 2011, além de indicar a solução do problema da causalidade vicária, pois, assim como dois polos iguais de ímãs se repelem mas basta inverter um deles para que se toquem, dois objetos reais não se tocam, mas um objeto real toca sem dificuldade um sensual, como o fogo que queima o algodão sensual sem jamais alcançar o algodão real, do qual também o agricultor está excluído. 11. A segunda peça, ainda mais estranha, é a descoberta husserliana, raramente comentada, de que um objeto contém outros, a saber, a consciência, pois a intencionalidade é ao mesmo tempo dois e um, já que o eu real se apoia na mesa sensual, ou a mesa real reage à pressão do eu sensual, e ao mesmo tempo a relação intencional é numericamente una, podendo ser analisada retroativamente por muitos sem jamais se esgotar, o que basta para fazer dela um objeto, e um objeto real, por existir quer se preste atenção a ele ou não, de modo que objetos reais e sensuais só se encontram no interior de um terceiro objeto e a causalidade ocorre apenas no domínio mental, entendido como esfera dos objetos sensuais em geral e não apenas dos cérebros animais, generalização segundo a qual as relações causais ocorrem sempre no interior de uma terceira entidade e a relação é contenção. 12. As divergências com Brassier dizem respeito, primeiro, à exigência de que o realismo elimine não seres óbvios como hobbits e a Fada do Dente, ao passo que a OOO prefere a inclusividade e a planura, já que até eles têm algum estatuto ontológico, como também objeta Markus Gabriel, e segundo, à diferença ontológica heideggeriana entre ser e ente, que Brassier, mais enamorado das ciências, rejeita, enquanto a OOO a entende como diferença entre a coisa mesma e sua relação com qualquer outra, sendo o ser de um objeto sua realidade não relacional, distinção ausente em Brassier, que adota a distinção de Sellars entre imagem manifesta e imagem científica e corre o risco do realismo decepcionante de Kripke e de um cientificismo, termo exato para quem concede autoridade máxima à ciência, quando ambas são imagens e eliminar as manifestas oferecendo apenas outra imagem ou um horizonte de nulidade não explica a diferença entre uma entidade e sua imagem científica. 13. A diferença evidente entre a OOO e Grant é se as entidades individuais são o material primário da filosofia ou derivam de uma força mais profunda, já que Grant rejeita o somatismo e vê nos corpos emergências de uma força pré-individual, ao passo que para a OOO só há objetos e nenhum fluxo dinâmico pré-individual, divergência talvez ligada ao apreço de Grant por Deleuze e seus fluxos e linhas de fuga, e que se estende a Aristóteles, posto por Grant do lado de Kant, com Platão do lado realista, e à defesa, pela OOO, do produto contra a produtividade e o processo, pois muito do processo se perde quando o produto surge e não é preciso conhecê-lo. 14. A principal diferença entre a OOO e Meillassoux é que para ele as qualidades primárias das coisas são as matematizáveis, enquanto para a OOO não há acesso direto a elas pela matemática nem por nada, mas na Goldsmiths destacou-se outro ponto, equivocado por razões interessantes, o de que Meillassoux se oporia à causalidade em geral e seria um hiperocasionalista, para quem tudo estaria isolado de tudo, quando ele respondeu que as leis existem e são estáveis, apenas sendo realmente possível que deixem de funcionar, o que revela um dualismo entre contingência e necessidade, pois as leis da natureza podem mudar a qualquer momento sem razão, no célebre hipercaos, mas enquanto vigoram governam rigorosamente tudo o que regem, de modo que o caos está no tempo e não no momento presente. 15. O debate após a apresentação incluiu objeções de Toscano sobre a possibilidade de totalizar a realidade, de Daniel Miller sobre a diferença kantiana entre moedas reais e imaginárias e de Peter Hallward sobre a conveniência de retirar as relações da ontologia, mas a objeção mais reveladora foi a de Robin Mackay, da Urbanomic, que exprime a reserva de muitos recém-chegados à OOO, ao afirmar que a física já liberta a realidade de seu aprisionamento na relação humana à custa da noção de senso comum de objeto, que a OOO pareceria transpor para outro domínio, e que a profundidade realista de Lovecraft está em que, atravessados os portões, a realidade revelada é um caos completo impossível de objetificar. 16. A objeção de Mackay contém duas teses, a de que a física elimina, e deve eliminar, a noção de senso comum de objeto, e a de que além dos portões, da ficção de horror ou da ciência, não há objetos, mas um caos completo, e quanto a esta, a teoria quântica, embora descreva um mundo diverso do macromundo cotidiano, não é um caos, já que um caos irrestrito não permitiria que fosse a ciência mais precisa jamais desenvolvida, base de lasers e fibras ópticas, e sua própria base, a realidade em pacotes discretos e não em contínuos, soa orientada a objetos, de modo que a ciência natural é o último lugar onde buscar um mundo de caos completo, e o horror de Lovecraft também é povoado de objetos no sentido da OOO, impossíveis de perceber ou descrever com os mecanismos normais da inteligência humana. 17. Quanto à primeira tese, Lovecraft, ao falar do que borbulha e blasfema no centro de toda criação ou de uma cor que só por analogia era cor, despoja o sentido confortável de objeto sem eliminar os objetos, pois para a OOO objeto é apenas uma coisa unificada irredutível a seus componentes ou a seus efeitos, e é falso que a OOO projete objetos do senso comum sobre o mundo pré-perceptivo, já que seus objetos reais não têm nenhum traço de senso comum, sendo talvez a noção mais lovecraftiana de objeto da filosofia ocidental, enquanto seus objetos sensuais, muitas vezes de senso comum, merecem ser preservados na ontologia, que deve dar conta de hobbits e da Fada do Dente tanto quanto de quarks, e a tese de Kant ou de Badiou, para quem antes da contagem só há um múltiplo inconsistente, supõe falsamente só haver duas opções, olhar o mundo e marcá-lo com a própria cognição ou não olhar e nada saber, reduzindo as alternativas a sabedoria ou nada e excluindo o amor socrático à sabedoria, pois a filosofia não é ciência nem conhecimento, mas aborda a realidade por insinuações e alusões, à maneira das artes. 18. A objeção de Mackay, frequentemente ouvida depois, reduz-se à ideia de que o mundo cotidiano parece consistir de objetos, mas a realidade em si não teria objetos, de modo que a OOO projetaria ilegitimamente uma visão de senso comum sobre a realidade, o que não corresponde ao que a OOO faz. 19. Em primeiro lugar, ao contrário de Brassier e Metzinger, a OOO reconhece com Husserl que a esfera sensual é feita de objetos e não de feixes soltos de qualidades, e responde à proposta de confiar mais na ciência que na experiência fenomenológica que os experimentos de Metzinger para encontrar os correlatos neurais mínimos dos objetos intencionais pressupõem a própria distinção entre objetos e qualidades, já que ele precisa identificar seus dados como os mesmos sob diferentes ângulos e disposições, de modo que nenhum acesso científico à realidade salta além da cisão fundamental entre objetos e suas qualidades cambiantes. 20. Em segundo lugar, o argumento de que o mundo real também se articula em objetos não consiste em transpor a experiência vivida para a realidade, mas em mostrar o impasse de toda teoria dualista em que o mundo não se articula em objetos e a experiência humana sim, impasse presente nos teóricos pré-socráticos do apeiron, como Anaximandro, Pitágoras e Anaxágoras, e em Parmênides, incapazes de explicar como um bloco único de realidade se divide em partes, e persistente no il y a de Levinas, fragmentado apenas pela mente humana, em Ladyman e Ross, para quem os objetos surgem com o encontro humano, e em Karen Barad, para quem os relata não precedem as relações, falhas das quais se deduz que o mundo é múltiplo antes de qualquer encontro com a experiência comum, enquanto o caos de Mackay ou é uno, e então se trata de mais um monismo pré-socrático, ou é múltiplo, e então já concede a posição orientada a objetos, sendo igualmente vãs as tentativas de Badiou, com sua multiplicidade inconsistente, e de Deleuze, com o virtual heterogêneo e contínuo atribuído a Bergson, de ter ao mesmo tempo o uno e o múltiplo sem pagar o preço. {{tag>Harman realismo-especulativo OOO}}