====== Girard ====== **René Girard (1923–2015)** Crítico literário, antropólogo filosófico e historiador francês, membro da prestigiosa Academia Francesa (//Académie française//) e professor emérito da Universidade de Stanford, René Girard notabilizou-se pela formulação da teoria mimética, uma das mais originais e abrangentes interpretações da cultura, da gênese da sociedade humana e do fenômeno da violência religiosa no século XX. Partindo da análise estrutural da grande literatura romanesca europeia, Girard identificou que o desejo humano não é autônomo nem linear, mas triangular e mimético (imitativo). A partir dessa descoberta, desenvolveu uma antropologia fundamental que elucida o mecanismo do bode expiatório (//bouc émissaire//) como matriz geradora dos mitos, ritos arcaicos e instituições sociais, culminando em uma releitura revolucionária dos textos bíblicos judaico-cristãos como a desconstrução e revelação definitiva da inocência das vítimas da violência coletiva. **1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais Francesas)** * GIRARD, René. Mensonge romantique et vérité romanesque. Paris: Grasset, 1961. * Foco: Ensaio fundacional de crítica literária e psicologia do desejo; através das obras de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Proust e Dostoiévski, Girard desmonta a ilusão da autonomia do sujeito desejante, demonstrando que o desejo é mediado por um modelo (desejo triangular) e gera necessariamente rivalidade, ciúme e conflito mimético. * GIRARD, René. Dostoïevski: du double à l'unité. Paris: Plon, 1963. * Foco: Monografia dedicada à trajetória intelectual e espiritual de Fiódor Dostoiévski; investiga a passagem da fascinação mimética e do ressentimento do "homem do subterrâneo" para a conversão romanesca e a reconciliação interior nos grandes romances tardios. * GIRARD, René. La violence et le sacré. Paris: Grasset, 1972. * Foco: Obra magna e tratado antropológico sistemático; estende a intuição do desejo mimético à gênese da ordem social arcaica. Analisa a crise sacrificial (perda das diferenças), a escalada da violência indiscriminada em todas as comunidades primitivas e a resolução catártica da crise por meio do linchamento unânime de uma vítima aleatória (mecanismo vitimário ou do bode expiatório), instituidor dos primeiros ritos, mitos e proibições. * GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978. * Foco: Suma epistemológica e diálogo interdisciplinar abrangente; divide-se em três partes: antropologia fundamental, antropologia bíblica e psicologia interindividual. Sustenta a tese de que o Novo Testamento opera a revelação radical que desmascara o caráter homicida dos mitos e dos fundamentos sagrados da cultura humana, inaugurando a compaixão pela vítima inocente. * GIRARD, René. Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982. * Foco: Exame metodológico dos textos de perseguição medieval e da mitologia comparada; demonstra os estereótipos universais da perseguição coletiva (crise indiferenciada, crimes atribuídos às vítimas e marcas de seleção vitimária), contrastando a leitura mítica com a revelação dos Evangelhos. * GIRARD, René. La route antique des hommes pervers. Paris: Grasset, 1985. * Foco: Comentário exegético e filosófico do Livro de Jó; interpreta o drama de Jó não como enigma metafísico do mal moral abstrato, mas como o confronto entre a vítima expiatória indefesa e o coro unânime de seus pretensos amigos, representantes da voz acusadora e da violência comunitária. * GIRARD, René. Shakespeare: les feux de l'envie. Paris: Grasset, 1990. * Foco: Tratado de crítica literária sobre a totalidade do cânone dramatúrgico e poético de William Shakespeare; elucidação minuciosa de como as peças exploram a dinâmica destrutiva da inveja mimética, da usurpação e das crises de desordem política e social. * GIRARD, René. Je vois Satan tomber comme l'éclair. Paris: Grasset, 1999. * Foco: Síntese madura e acessível da antropologia cristã de Girard; identifica "Satanás" com a própria estrutura mimética desintegradora (o modelo-obstáculo, o acusador e o instaurador da ordem violenta), demonstrando a vitória definitiva da Cruz pela recusa da represália vitimária. * GIRARD, René. Achever Clausewitz. Entretiens avec Benoît Chantre. Paris: Carnets Nord, 2007. * Foco: Diagnóstico geopolítico e escatológico da modernidade tardia; a partir do tratado da guerra de Carl von Clausewitz, analisa a subida aos extremos da violência globalizada, o esgotamento dos mecanismos tradicionais de contenção e o perigo do apocalipse ecológico e bélico no século XXI. **2. Antologias, Colóquios e Diálogos Filosóficos** * GIRARD, René. Quand ces choses commenceront... Entretiens avec Michel Treguer. Paris: Arléa, 1994. * Foco: Diálogo autobiográfico e conceitual detalhando a gênese pessoal da teoria mimética, a conversão religiosa do autor e a recusa dos dogmas estruturalistas e pós-modernos dominantes na universidade francesa da década de 1960. * GIRARD, René. Celui par qui le scandale arrive. Paris: Desclée de Brouwer, 2001. * Foco: Coletânea de ensaios e conferências breves abordando as noções de escândalo (//skandalon//), contágio violento, sacrifício e a pertinência da teoria mimética para as ciências cognitivas e a neurobiologia (neurônios-espelho). * OUGHOURLIAN, Jean-Michel. Un mime nommé désir: Hystérie, transe, possession, adorations et autres merveilles. Paris: Grasset, 1982. * Foco: Tratado psiquiátrico de psicologia mimética elaborado em cooperação teórica com Girard; investigação clínica de como o si psicológico é constituído pelo reflexo do desejo do outro, reformulando as bases da psicopatologia tradicional. **3. Principais Edições e Traduções em Língua Portuguesa** * GIRARD, René. Mentira romântica e verdade romanesca. Tradução de Lígia C. Vassallo. São Paulo: É Realizações, 2009. * Foco: Edição brasileira de //Mensonge romantique et vérité romanesque//; análise das ilusões da autenticidade autossuficiente e do orgulho individualista na modernidade. * GIRARD, René. A violência e o sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1990. (Reedição: São Paulo: Editora Unesp, 2008). * Foco: Tradução integral do clássico de 1972; texto de referência incontornável nos currículos de antropologia, sociologia e ciências da religião no Brasil. * GIRARD, René. Coisas ocultas desde a fundação do mundo. Tradução de Martha Conceição Gambini. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1989. * Foco: Edição em português de //Des choses cachées depuis la fondation du monde//, explicitando a passagem da crise hominizadora arcaica à superação ética proposta pela antropologia bíblica. * GIRARD, René. O bode expiatório. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Paulus, 2004. * Foco: Tradução brasileira examinando os mecanismos sociopsicológicos de perseguição de minorias e a estrutura do mito como narrativa contada a partir da perspectiva dos perseguidores. * GIRARD, René. Eu via Satanás cair como o relâmpago. Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. * Foco: Ensaio de síntese no qual o autor analisa a preocupação moderna sem precedentes com os direitos das vítimas como fruto direto e irreversível da revelação evangélica. * GIRARD, René. Rematar Clausewitz: além da guerra. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Lisboa: Guerra & Paz, 2009. (Edição brasileira: São Paulo: É Realizações, 2011). * Foco: Exame da militarização e da reciprocidade belicosa na política contemporânea, diagnosticando a perda das mediações institucionais de contenção da rivalidade entre as nações. **4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica** * O Desejo Mimético e a Mediação Triangular: O ser humano é biologicamente dotado de uma capacidade imitativa prodigiosa, essencial para o aprendizado e a cultura, mas essa imitação estende-se inevitavelmente à esfera dos desejos. O homem deseja não a partir de uma inclinação espontânea ou de qualidades intrínsecas ao objeto visado, mas porque o objeto é valorizado ou desejado por outrem (o mediador ou modelo). Quando o modelo pertence à mesma esfera social e existencial do sujeito (mediação interna), o modelo transforma-se rapidamente em rival: a imitação mútua intensifica a atração pelo mesmo objeto indissolúvel, culminando em conflito e violência mimética. * A Crise Indiferenciada e o Mecanismo do Bode Expiatório: À medida que a rivalidade mimética se propaga por contágio no interior de uma comunidade, as diferenças funcionais, hierárquicas e morais se dissolvem; todos passam a agir como "duplos" agressivos uns dos outros, precipitando uma crise extrema de desordem (a crise sacrificial). A violência só se aplaca quando o conflito difuso de "todos contra todos" se converte subitamente, através de uma polarização mimética unânime, na violência de "todos contra um". Uma vítima qualquer (o bode expiatório), eleita por carregar signos acidentais de vulnerabilidade ou marginalidade, é assassinada ou expulsa. Com a morte da vítima, a paz ressurge milagrosamente na comunidade; atribuindo a culpa do caos e o mérito da pacificação àquela mesma vítima, a comunidade a diviniza, fundando simultaneamente o sagrado arcaico, os ritos que encenam periodicamente o linchamento fundador e os tabus que proíbem a rivalidade mimética. * A Excepcionalidade dos Textos Bíblicos e a Desmistificação da Violência: Enquanto todos os mitos arcaicos da humanidade adotam cegamente a perspectiva dos linchadores (tomando a vítima sacrificada como realmente culpada pela desordem cósmica ou pelas pestes), as Escrituras judaico-cristãs operam uma inversão revolucionária e singularíssima na história da cultura. De Abel aos poemas do Servo Sofredor em Isaías, e consumando-se na Paixão de Cristo nos Evangelhos, a narrativa adota a perspectiva da vítima, desmascarando a unânimidade peribidora dos algozes e proclamando a inocência absoluta do crucificado. Ao privar o mecanismo expiatório de sua eficácia sacrificial e de sua sacralidade mística, o cristianismo legou à modernidade a incapacidade de crer na justiça das perseguições coletivas, deixando a humanidade diante do dilema histórico incontornável: renunciar à represália violenta pelo perdão ou sucumbir à escalada destruidora da rivalidade mimética desprovida de bodes expiatórios funcionais. {{tag>Girard violência sacrifício desejo}}