====== 3 Satanás ====== //GIRARD, René. Je vois Satan tomber comme l'éclair. Paris: Grasset, 1999.// 1. Para confirmar a presença nos Evangelhos do ciclo mimético, é preciso voltar-se para uma noção, ou antes uma personagem, muito desdenhada hoje até pelos cristãos, que os Evangelhos sinóticos chamam por seu nome hebraico, Satanás, e o Evangelho de João por um nome grego, o diabo. 2. Na época em que, guiados por Rudolf Bultmann, os teólogos em voga desmitologizavam as Escrituras a torto e a direito, nem sequer concediam ao príncipe deste mundo a honra de incluí-lo em seu programa, e apesar de seu papel considerável nos Evangelhos o cristianismo moderno quase não o leva em conta. 3. Examinadas à luz da teoria mimética, as proposições evangélicas sobre Satanás não merecem o esquecimento em que caíram. 4. Como Jesus, Satanás procura fazer-se imitar, mas não do mesmo modo nem pelas mesmas razões, pois quer primeiro seduzir, sendo o Satanás sedutor o único de que o mundo moderno se digna lembrar um pouco, para gracejar a seu respeito. 5. Satanás também se propõe como modelo dos desejos e é mais fácil de imitar que Cristo, pois aconselha a abandonar-se a todas as inclinações, com desprezo da moral e de suas proibições. 6. Quem ouve esse professor amabilíssimo e moderníssimo sente-se primeiro libertado, mas a impressão não dura, pois logo se é privado de tudo o que protege do mimetismo conflitual, já que, em vez de advertir das armadilhas, Satanás faz cair nelas, aplaudindo a ideia de que as proibições não servem para nada e de que sua transgressão não comporta perigo algum. 7. O caminho em que Satanás lança é largo e fácil, a grande autoestrada da crise mimética, mas de repente surge entre o desejante e o objeto de seu desejo um obstáculo inesperado, e, mistério dos mistérios, quando se julgava ter deixado Satanás para trás, é ele ou um de seus sequazes que barra o caminho. 8. Essa é a primeira das numerosas metamorfoses de Satanás, em que o sedutor do início se transforma num adversário intratável, obstáculo mais sério que todas as proibições ainda não transgredidas, e o segredo dessa metamorfose é que o segundo Satanás é a conversão do modelo mimético em obstáculo e rival, a gênese dos escândalos. 9. Por desejar ele mesmo o que leva a desejar, o modelo opõe-se ao desejo do imitador, de modo que além da transgressão ergue-se um obstáculo mais duro que todas as proibições, dissimulado de início pela própria proteção que estas oferecem enquanto são respeitadas. 10. A assimilação de Satanás aos escândalos é feita pelo próprio Jesus numa apóstrofe veemente a Pedro, mandando-o passar para trás dele, Satanás, por ser para ele um escândalo. 11. Pedro atrai essa reprimenda ao reagir negativamente ao primeiro anúncio da Paixão, pois, decepcionado com o que toma pela resignação excessiva de Jesus, procura insuflar-lhe seu próprio desejo e sua ambição mundana, convidando-o a tomá-lo por modelo, e se Jesus se desviasse do Pai para seguir Pedro, ambos cairiam logo na rivalidade mimética e a aventura do Reino de Deus desabaria em querelas irrisórias. 12. Pedro faz-se aqui semeador de escândalos, o Satanás que desvia os homens de Deus em proveito dos modelos rivais, pois Satanás semeia os escândalos e colhe a tempestade das crises miméticas, ocasião de mostrar do que é capaz, já que as grandes crises desembocam no verdadeiro mistério de Satanás, seu poder mais espantoso, o de expulsar a si mesmo e de restabelecer a ordem nas comunidades humanas. 13. O texto essencial sobre a expulsão satânica de Satanás é a resposta de Jesus aos que o acusam de expulsar Satanás por Belzebu, príncipe dos demônios, perguntando como Satanás pode expulsar Satanás e afirmando que um reino ou uma casa divididos contra si mesmos não podem subsistir, de modo que, se Satanás se lançou contra si mesmo e se dividiu, não pode manter-se e está acabado. 14. Acusar um exorcista rival de expulsar os demônios por intermédio de Satanás devia ser uma acusação banal na época, repetida maquinalmente, e Jesus quer fazer refletir sobre suas implicações, perguntando, se é verdade que Satanás expulsa Satanás, como realiza essa proeza. 15. Longe de negar a realidade da autoexpulsão satânica, o texto a afirma, e a prova de que Satanás possui esse poder é a afirmação frequentemente repetida de que ele chega ao fim, já que sua queda próxima, profetizada por Cristo, se identifica com o fim de seu poder de autoexpulsão. 16. Em Mateus como em Marcos, em vez de substituir o segundo Satanás por um pronome e perguntar como Satanás expulsa a si mesmo, Jesus repete o nome, e a proposição interrogativa de Marcos transforma-se em condicional sem mudar a fórmula, se Satanás expulsa Satanás. 17. A repetição do nome Satanás é mais eloquente que sua substituição por um pronome, mas não é inspirada pelo gosto do belo estilo, e sim pelo desejo de sublinhar o paradoxo fundamental de Satanás, que é princípio de ordem tanto quanto de desordem. 18. O Satanás expulso é o que fomenta e exaspera as rivalidades miméticas a ponto de transformar a comunidade numa fornalha de escândalos, e o Satanás que expulsa é essa mesma fornalha quando atinge incandescência suficiente para desencadear o mecanismo vitimário, de modo que, para impedir a destruição de seu reino, Satanás faz de sua própria desordem, em seu paroxismo, um meio de expulsar a si mesmo. 19. Esse poder extraordinário faz de Satanás o príncipe deste mundo, pois se não pudesse proteger seu domínio das empresas que ameaçam aniquilá-lo, essencialmente suas, não mereceria esse título que os Evangelhos não lhe conferem à toa, e se fosse puramente destruidor teria perdido seu domínio há muito, de modo que, para compreender o que faz dele senhor de todos os reinos deste mundo, é preciso tomar ao pé da letra a afirmação de Jesus de que a desordem expulsa a desordem, isto é, que Satanás expulsa realmente Satanás, proeza pela qual se tornou indispensável e mantém grande poder. 20. Essa ideia compreende-se voltando ao momento em que a comunidade dividida, no paroxismo do processo mimético, refaz sua unidade contra uma vítima única, que se torna o escândalo supremo porque todos, mimeticamente, a têm por culpada. 21. Satanás é o mimetismo que persuade a comunidade inteira e unânime de que essa culpa é real, arte de persuadir a que deve um de seus nomes mais antigos, o de acusador do herói no livro de Jó, junto a Deus e mais ainda junto ao povo, e ao transformar uma comunidade diferenciada numa multidão histérica engendra os mitos, sendo o princípio de acusação sistemática que brota do mimetismo exasperado pelos escândalos, de modo que, uma vez a vítima completamente isolada e privada de defensores, nada pode protegê-la da multidão desencadeada e todos podem encarniçar-se sobre ela sem temer represália. 22. A vítima única parece pouca coisa para todos os apetites de violência que convergem sobre ela, mas naquele instante a comunidade só aspira à sua destruição, de modo que ela substitui efetivamente todos os que se opunham uns aos outros pouco antes em mil escândalos dispersos e agora estão todos reunidos contra um alvo único. 23. Como ninguém na comunidade tem mais outro inimigo senão a vítima, uma vez expulsa ou aniquilada a multidão encontra-se vazia de hostilidade, privada de inimigo, e ao menos provisoriamente não sente mais ódio nem ressentimento contra ninguém, sentindo-se purificada de todas as suas tensões, divisões e fragmentações. 24. Os perseguidores não sabem que sua concórdia súbita, como sua discórdia anterior, é obra do mimetismo, e julgam lidar com um ser perigoso e maléfico de que importa livrar a comunidade, sendo seu ódio perfeitamente sincero. 25. O todos contra um mimético ou mecanismo vitimário tem assim a propriedade espantosa e espetacular, mas logicamente explicável, de devolver a calma a uma comunidade tão perturbada um instante antes que nada parecia capaz de apaziguá-la. 26. Apreender esse mecanismo como a coisa de Satanás é compreender que a fórmula de Jesus, Satanás expulsa Satanás, tem um sentido preciso e racionalmente explicável, definindo a eficácia do mecanismo vitimário, ao qual o sumo sacerdote Caifás alude ao dizer que é melhor que um só homem morra e que o povo não pereça inteiro. 27. Os quatro relatos da crucificação mostram o desenrolar de um mecanismo vitimário, sequência semelhante aos inumeráveis fenômenos análogos de que Satanás é o encenador. 28. A prova de que a Cruz e o mecanismo de Satanás são uma só coisa é dada pelo próprio Jesus ao dizer, pouco antes de sua prisão, que chegou a hora de Satanás, frase que não é fórmula retórica nem modo pitoresco de sugerir o caráter repreensível do que os homens farão a Jesus, mas que, como todas as frases evangélicas sobre Satanás, tem sentido preciso e quase técnico, designando na crucificação um mecanismo vitimário. 29. A crucificação é uma dessas horas em que Satanás restaura e consolida seu poder sobre os homens, pois a passagem do todos contra todos ao todos contra um mimético permite ao príncipe deste mundo prevenir a destruição total de seu reino, acalmando a cólera da multidão e restabelecendo a tranquilidade indispensável à sobrevivência de toda comunidade humana. 30. Satanás pode assim sempre restabelecer ordem suficiente no mundo para impedir a destruição total de seu bem sem privar-se por muito tempo de seu passatempo favorito, semear desordem, violência e desgraça entre seus súditos. 31. A morte de Jesus frustra o cálculo satânico, mas no imediato produz os efeitos esperados por quem a desencadeou, pois tem sobre a multidão o efeito tranquilizante que Pilatos, como Satanás, espera dela, apreciável do ponto de vista da pax romana de que Pilatos é guardião, já que o motim temido pelo procurador não ocorre graças à crucificação. 32. O suplício transforma a multidão ameaçadora num público de teatro antigo ou de cinema moderno, tão cativado pelo espetáculo sangrento quanto os contemporâneos pelos horrores hollywoodianos, e uma vez saciados dessa violência que Aristóteles qualifica de catártica, real ou imaginária, todos os espectadores voltam tranquilamente para casa para dormir o sono dos justos. 33. A palavra catarse designa primeiro a purificação proporcionada pelo sangue derramado nos sacrifícios rituais, que são a retomada deliberada do processo descrito na Paixão, isto é, do mecanismo satânico, e é de exorcismo que se trata no debate que dá a Jesus ocasião de interrogar a expulsão satânica de Satanás. 34. Os Evangelhos mostram que as comunidades humanas estão sujeitas a desordens periódicas que podem ser resolvidas por fenômenos de multidão unânime quando certas condições são preenchidas, resolução enraizada no desejo mimético e nos escândalos que sempre desregulam as comunidades. 35. O ciclo mimético começa com o desejo e as rivalidades, prossegue com a multiplicação dos escândalos e a crise mimética e resolve-se finalmente num mecanismo vitimário, que é a resposta à pergunta de Jesus sobre como Satanás expulsa Satanás. 36. Certas lendas medievais e contos tradicionais ecoam a concepção evangélica de Satanás, mostrando um homem do mundo amável e generoso, sempre pronto a cumular os homens de benefícios em troca de muito pouco, cuja única exigência é que lhe seja reservada uma alma e uma só, às vezes a filha do rei, mas frequentemente qualquer um, servindo o primeiro que aparece tão bem quanto a mais bela das princesas. 37. A exigência parece modesta diante dos benefícios prometidos, mas o misterioso cavalheiro não pode renunciar a ela, e se não for satisfeita todos os seus dons se desvanecem com ele, por ser ninguém menos que Satanás, que basta não ceder à chantagem para pôr em fuga, alusão clara à onipotência do mecanismo vitimário nas sociedades pagãs e à sua perpetuação sob formas veladas e atenuadas nas sociedades cristãs. 38. Há aqui uma antropologia do desejo mimético, das crises que dele resultam e dos fenômenos de multidão que lhes põem fim relançando um novo ciclo mimético, antropologia que se reencontra no Evangelho de João, onde Satanás é substituído pelo diabo. 39. Num dos discursos atribuídos a Jesus, João intercala uma pequena dissertação de uns quinze versículos que contém tudo o que se analisou nos sinóticos, mas de forma tão elíptica e condensada que suscita ainda mais incompreensão, sendo a doutrina joanina, apesar das diferenças de vocabulário que a fazem parecer mais dura, a mesma dos sinóticos. 40. O texto de João, frequentemente condenado pelos contemporâneos como supersticioso e vingativo, define mais uma vez, sem rodeios mas sem hostilidade, as consequências do mimetismo conflitual sobre os homens. 41. Nesse discurso Jesus dialoga com pessoas que ainda se julgam seus discípulos, mas logo o abandonarão por não compreender seu ensinamento, já escandalizadas como certos contemporâneos, dizendo-lhes que, se Deus fosse seu Pai, o amariam por vir de Deus e por ter sido enviado por ele, que não compreendem sua linguagem por não poderem ouvir sua palavra, que têm por pai o diabo e querem cumprir os desejos de seu pai, homicida desde o princípio, que não se manteve na verdade porque não há verdade nele e que, quando mente, tira a mentira de seu próprio fundo, por ser mentiroso e pai da mentira. 42. Aos que se definem como seus discípulos Jesus afirma que seu pai não é Abraão nem Deus, como pretendem, mas o diabo, pela razão clara de que querem cumprir os desejos do diabo e não os de Deus, tomando o diabo como modelo de seus desejos. 43. O desejo de que fala Jesus repousa na imitação do diabo ou de Deus, tratando-se do desejo mimético, e a noção de Pai identifica-se mais uma vez com o modelo de que o desejo humano, sem objeto que lhe seja próprio, não pode absolutamente prescindir. 44. Deus e Satanás são os dois arquimodelos cuja oposição corresponde à oposição entre os modelos que nunca se tornam obstáculos e rivais para seus discípulos, porque nada desejam de modo ávido e concorrente, e os modelos cuja avidez repercute imediatamente sobre seus imitadores, transformando-os em obstáculos diabólicos, de modo que os primeiros versículos do texto constituem uma definição explicitamente mimética do desejo e das opções que dela resultam para a humanidade. 45. Se os modelos escolhidos pelos homens não os orientam na direção boa, não conflitual, por intermédio de Cristo, expõem-nos a prazo mais ou menos longo à indiferenciação violenta e ao mecanismo da vítima única, e é isso o diabo no texto de João, sendo os filhos do diabo os seres que se deixam prender no círculo do desejo rival e, sem saber, tornam-se joguetes da violência mimética, não sabendo, como todas as vítimas desse processo, o que fazem. 46. Sem imitar Jesus, os modelos tornam-se para o imitador os obstáculos vivos que ele se torna para eles, descendo todos juntos a espiral infernal que conduz às crises miméticas generalizadas e, pouco a pouco, ao todos contra um mimético, consequência inexorável que explica a alusão súbita ao assassinato coletivo, de que o diabo foi homicida desde o princípio. 47. Sem identificar o ciclo mimético, o leitor não compreenderá e terá a impressão de uma ruptura arbitrária e inexplicável entre essa frase e as anteriores, quando na realidade a sucessão dos temas é perfeitamente lógica e corresponde às etapas do ciclo mimético. 48. João atribui ao diabo o todos contra um mimético porque já lhe atribui o desejo responsável pelos escândalos, podendo igualmente atribuir tudo isso aos homens, o que por vezes faz. 49. O texto de João é uma nova definição, ultrarrápida mas completa, do ciclo mimético, pois em cada um e ao redor de todos os escândalos proliferam e cedo ou tarde arrastam aos desencadeamentos miméticos e ao mecanismo vitimário, fazendo de cada um, sem que o saiba, cúmplice dos assassinatos unânimes, tanto mais enganado pelo diabo quanto essa cumplicidade lhe escapa e não tem consciência de si, imaginando-se virtuosamente alheio a toda violência. 50. De tempos em tempos os homens vão até o fim no cumprimento dos desejos de seu pai e recaem no todos contra um mimético, e no momento em que Jesus profere essas palavras o mecanismo que outrora mobilizou os cainitas contra Abel e depois milhares de multidões contra milhares de vítimas está prestes a reproduzir-se contra ele. 51. Logo após essas afirmações fundamentais o texto afirma que o diabo não se manteve na verdade, pois o que faz dele príncipe ou pai é a falsa acusação, a condenação injusta de uma vítima inocente, que nada tem de real ou objetivo, mas consegue fazer-se acreditar unanimemente em virtude do contágio violento, sendo o sentido primeiro de Satanás na Bíblia, no livro de Jó, o de acusador público, procurador num tribunal. 52. O diabo é necessariamente mentiroso porque, se os perseguidores apreendessem a verdade, a inocência de sua vítima, já não poderiam aliviar-se de sua violência à custa dela, de modo que o mecanismo vitimário só funciona em virtude da ignorância dos que o fazem funcionar, que se julgam na verdade quando estão na mentira. 53. O fundo próprio do diabo, de onde tira suas mentiras, é o mimetismo violento, que nada tem de substancial, de modo que o diabo não tem fundamento estável nem ser algum e, para dar-se aparência de ser, precisa parasitar as criaturas de Deus, sendo inteiramente mimético, o que equivale a inexistente. 54. O diabo é pai da mentira ou, segundo certos manuscritos, dos mentirosos, porque suas violências enganadoras repercutem de geração em geração nas culturas humanas, todas tributárias de algum assassinato fundador e dos ritos que o reproduzem. 55. O texto de João escandaliza os que não identificam a alternativa que ele supõe, como seus primeiros interlocutores, e muitos que se julgam fiéis a Jesus dirigem hoje aos Evangelhos censuras superficiais, mostrando que permanecem submetidos às rivalidades miméticas e às suas escaladas violentas, pois quem não vê que a escolha entre os dois arquimodelos, Deus e o diabo, é inevitável já escolheu o diabo, o mimetismo conflitual. 56. As virtuosas indignações modernas contra o Evangelho de João não têm objeto, pois Jesus diz a verdade a seus interlocutores, que escolheram o desejo rival com consequências desastrosas a longo prazo, e o fato de dirigir-se a judeus é muito menos importante do que imaginam os que só pensam em convencer os Evangelhos de antissemitismo, já que a paternidade diabólica no sentido de Jesus não pode ser monopólio de um povo particular. 57. Após sua definição mimética do desejo, o texto de João oferece uma definição fulgurante de suas consequências, o assassinato satânico, e a impressão de maldade que produz deve-se à incompreensão de seu conteúdo, que faz imaginar uma série de insultos gratuitos, efeito de uma ignorância frequentemente impregnada de hostilidade preconcebida à mensagem evangélica e de um ressentimento projetado sobre o cristianismo, quando, além dos interlocutores imediatos de Jesus, inevitavelmente judeus, é a humanidade inteira que é visada, como sempre nos Evangelhos. 58. O Satanás dos sinóticos e o diabo de João significam o mimetismo conflitual, mecanismo vitimário incluído, seja o processo inteiro, seja apenas um de seus momentos, e embora o termo dê aos exegetas modernos, cegos ao ciclo mimético, a impressão de significar tantas coisas diferentes que já não significa nada, essa impressão é enganosa, pois, retomadas uma a uma as proposições e comparado o Satanás sinótico ao diabo joanino, vê-se facilmente que a doutrina é coerente e que a passagem de um vocabulário a outro não a afeta. 59. Longe de ser absurdo demais para merecer atenção, o tema evangélico contém um saber incomparável sobre as relações entre os homens e as sociedades que delas resultam, em perfeito acordo com o que a análise dos escândalos permitira formular. 60. Quando a perturbação causada por Satanás se torna grande demais, Satanás, como o escândalo, torna-se seu próprio antídoto, suscitando o desencadeamento mimético e o todos contra um reconciliador, e a tranquilidade volta à comunidade. 61. A grande parábola dos vinhateiros homicidas evidencia o ciclo mimético ou satânico, pois cada vez que o proprietário da vinha envia um mensageiro aos vinhateiros, esse envio desencadeia entre eles uma crise que resolvem pondo-se todos de acordo contra o mensageiro unanimemente expulso, acordo unânime que é o desencadeamento mimético, de modo que cada expulsão violenta realiza um ciclo mimético, sendo o último mensageiro o Filho, expulso e assassinado como todos os enviados anteriores. 62. Essa parábola confirma que o suplício de Jesus é um exemplo entre tantos do mecanismo vitimário, e o que torna único o ciclo mimético de Jesus não é a violência, mas a identidade da vítima, o Filho de Deus, essencial do ponto de vista da redenção, embora negligenciar o alicerce antropológico da Paixão seja perder a verdadeira teologia da Encarnação, que precisa da antropologia evangélica para fundar-se. 63. As noções de ciclo mimético e de mecanismo vitimário dão conteúdo concreto à ideia de Simone Weil segundo a qual, antes de serem uma teoria de Deus, uma teologia, os Evangelhos são uma teoria do homem, uma antropologia. 64. Como o desencadeamento do mecanismo vitimário coincide com o auge da desordem, o Satanás que expulsa e restabelece a ordem é idêntico ao Satanás que fomenta a desordem, e por isso a fórmula de Jesus, Satanás expulsa Satanás, é insubstituível. 65. A receita suprema do príncipe deste mundo, seu principal truque, talvez seu único recurso, é o todos contra um mimético ou mecanismo vitimário, a unanimidade mimética que, no paroxismo da desordem, restabelece a ordem nas comunidades humanas. 66. Graças a esse truque, sempre dissimulado até a revelação judaica e cristã e em parte ainda dissimulado no seio de sua revelação por não ter sido assimilada, as comunidades humanas devem a Satanás a ordem muito relativa de que gozam, permanecendo sempre em dívida para com ele e incapazes de libertar-se por seus próprios meios. 67. Satanás imita o mesmo modelo que Jesus, o próprio Deus, mas num espírito de arrogância e rivalidade pelo poder, e conseguiu perpetuar seu reino durante a maior parte da história humana graças à paciência de Deus, cujo fim começa com a missão de Jesus, de modo que o reino de Satanás corresponde à parte da história humana que se estende atrás de Cristo, inteiramente governada pelo mecanismo vitimário e pelas falsas divindades. 68. A concepção mimética de Satanás permite ao Novo Testamento conferir ao mal um papel à altura de sua importância sem dar-lhe o peso ontológico que faria dessa personagem uma espécie de deus do mal. 69. Longe de criar o que quer que seja por seus próprios meios, Satanás só se perpetua parasitando o ser criado por Deus e imitando-o de modo invejoso, grotesco e perverso, tão contrário quanto possível à imitação reta e dócil de Jesus, sendo imitador no sentido rival, com um reino que é caricatura do reino de Deus, de modo que Satanás é o macaco de Deus. 70. Afirmar que Satanás não é e recusar-lhe o ser, como faz a teologia cristã, significa entre outras coisas que o cristianismo não obriga a ver nele um ser realmente existente, e a interpretação que reconhece em Satanás o mimetismo conflitual permite pela primeira vez não minimizar o príncipe deste mundo sem dotá-lo de um ser pessoal que a teologia tradicional com razão lhe recusa. 71. Nos Evangelhos os fenômenos miméticos e vitimários podem organizar-se a partir de duas noções diferentes, um princípio impessoal, o escândalo, e uma personagem misteriosa, que João chama de diabo e os sinóticos de Satanás. 72. Os Evangelhos sinóticos contêm um discurso de Jesus sobre o escândalo, mas nenhum sobre Satanás, ao passo que a literatura joanina não contém discurso algum sobre o escândalo, mas contém um sobre o diabo. 73. O escândalo e Satanás são fundamentalmente a mesma coisa, mas diferem pela distribuição do peso principal, pois no escândalo a ênfase recai sobre o processo conflitual em seus inícios e sobre as relações entre indivíduos mais do que sobre os fenômenos coletivos, embora estes não estejam ausentes, sendo o ciclo mimético apenas esboçado e não tão nitidamente desenhado quanto no Satanás sinótico e no diabo joanino, e o mecanismo vitimário sugerido, mas não realmente definido. 74. A partir apenas do escândalo seria difícil chegar a uma explicação completa do mecanismo vitimário e da significação antropológica da Cruz, e é no entanto o que faz Paulo ao definir a Cruz como o escândalo por excelência, palavra que, sem o recurso ao ciclo mimético, permanece parcialmente ininteligível. 75. Com a expulsão satânica de Satanás, ao contrário, o ciclo mimético é verdadeiramente fechado e o círculo completado, pois o mecanismo vitimário é explicitamente definido. 76. Satanás não se apresenta como princípio impessoal, à maneira dos escândalos, porque designa a principal consequência dos mecanismos vitimários, a emergência de uma falsa transcendência e das numerosas divindades que a representam, razão pela qual é sempre alguém. {{tag>Girard mal Satã diabo}}