====== Inevidências do eu ====== Segundo o velho e sempre bom preceito de Hughlings Jackson, apreendem-se melhor as estruturas estudando a destruturação. Por isso nos dirigimos a Sá de Miranda, que nos fornecerá uma prova pela negativa: a sua experiência é a de uma inevidência do eu em todos os aspectos referidos []. Ela assenta numa des-regulação fundamental da relação ao tempo. Dissemos que o eu é uma forma activa transportando-se entre o passado e o futuro — mas teríamos podido deduzir da própria acção a outra série do tempo: o fazer produz a temporalidade do antes e do depois pois a acção decompõe-se numa sequência de momentos (também aqui seríamos fiéis a Fichte). Uma breve esparsa de Sá de Miranda indica a união íntima — a relação que o poeta perdeu — entre identidade: Não vejo o rosto a ninguém; \\ cuidais que são e não são e a inscrição do agir no tempo. O agir é aparência, a sua projecção num futuro, também. Sá de Miranda continua: homens, que não vão nem vêm, \\ parece que avante vão; Resulta daí confusão e doença — a doença do eu. antre o doente o são \\ mente cad’hora a espia; (A espia é a haste do relógio solar.) E os últimos dois versos apresentam a temporalidade como uma confusão entre o antes e o depois. Vemos ao meio-dia as constelações do crepúsculo, na meta do meo-dia \\ andais entre Lobo e Cão Trata-se de coisa mais profunda que o topos do tempus fugit. Outros poemas de Sá de Miranda exploram as implicações da incerteza quanto ao presente e ao futuro, e também ao passado. Têm por efeito a perda de confiança. Ó cousas, todas vãs, todas mudaves, \\ qual é tal coração qu’em vós confia? Sá de Miranda já não confia nem crê, di-lo noutro lugar. Mas ao deixar as esperanças que erradamente alimentou, logo se pergunta: Que vida há-de ser a minha, \\ por tempos, nem por mudanças, \\ que possam vir? Que não tinha \\ mais bem que estas esperanças. \\ Agora, às desconfianças \\ e suspeitas que farei? A confiança é o único bem que possuímos, uma vez que significa a esperança da realização do desejo, num futuro. O poeta desenganado — suspeitoso, desconfiado — perdeu esse bem que é tudo. O tempo que a confiança desertou será tempo desocupado, vacante, exterior à existência do eu, tempo lançado a longe e não vivido Não viver o tempo é ausentar-se de si, esquecer a sua identidade, ir-se assim de dia em dia. Ou, ainda, não saber quando é de noite ou quando é dia, até à loucura, em que a consciência de si se apaga definitivamente — e a loucura comparece ameaçadoramente em diferentes poemas. As dúvidas sobre a identidade desdobram-se numa dúvida sobre a primeira pessoa. Que é isto? Onde me lançou \\ esta tempestade má? \\ Q’é de mi, se não sou lá \\ e cá comigo não vou? A despossessão de si é o sentido — o sem sentido — da experiência interior de Sá de Miranda. Ela contamina toda a subjectividade: Ando em busca de mim, não sei por onde, \\ enquanto esta alma tresvalia e sonha \\ ................................... \\ Sigo umas sombras que nunca aferro O sentimento de despossessão abrange a vontade. Sá de Miranda é arrastado por uma vontade inexorável, que não é sua (tão inimiga minha): aquela cega vontade \\ que tão cegamente guia \\ ....................... \\ entretanto esta vontade, \\ assi cega, guia, guia A própria consciência do agir se esbate. Vários poemas descrevem uma existência sonambúlica, intervalar, crepuscular, voyme así devaneando \\ entrela muerte y la vida Um cansaço irremediável é a sua expressão, Sá de Miranda está cansado nos próprios descansos. A resultante final não pode senão ser desafecção por si, de que se não pode libertar. Comigo me desavim, \\ sou posto em todo perigo; \\ não posso viver comigo \\ nem posso fugir de mim \\ ......................... \\ pois que trago a mim comigo \\ tamanho imigo de mim Esta hostilidade desemboca na tentação do suicídio que transparece na poesia de Sá de Miranda, e inquina também a relação com o outro. Pois, quién osará ser amigo \\ del enemigo de si? {{tag>"Fernando Gil" eu}}