====== 1.2 Fenomenologia ====== //GABORIAU, Florent. La nouvelle initiation philosophique. 4 volumes. Paris: Casterman, 1962–1965. I L'entrée en métaphysique.// **2. O que é a fenomenologia?** 1. A fenomenologia pode ser entendida como ciência dos fenômenos, mas a ambiguidade de seus termos permite conceber o fenômeno tanto como manifestação de uma essência que também pode permanecer encoberta quanto, no limite do fenomenalismo, como síntese subjetiva de dados sensíveis reunidos em um objeto. 2. Em outra acepção, a fenomenologia consiste em deixar que se manifeste à razão o logos que permanece oculto nas dimensões aparentes das coisas. 3. A teoria das manifestações sensíveis de Lambert, integrada à crítica do conhecimento, e o percurso hegeliano da consciência até o saber absoluto antecipam, respectivamente, a investigação das aparências e a compreensão do fenômeno como mediação pela qual o espírito se manifesta. 4. Embora oscile entre essas duas acepções, a fenomenologia moderna nasce da recusa do idealismo especulativo e assume a forma de um empirismo radical que exige a descrição precisa e completa do dado, suspende os pressupostos de sistema e se estende a diferentes ciências com uma orientação inicialmente antimetafísica. 5. Apesar da dificuldade do método husserliano, do caráter incompleto de sua exposição publicada e das divergências entre seus intérpretes, a evolução desse pensamento permite distinguir quatro estágios. 6. O percurso de Husserl vai da descrição dos fenômenos tal como aparecem à redução eidética de seus conteúdos essenciais, passa pelo retorno à subjetividade constituinte mediante a redução transcendental ou epoché e culmina na fenomenologia absoluta, em que a própria subjetividade é ultrapassada em direção à razão da qual procede a significação. 7. A fundamentação husserliana da matemática remonta dos números aos atos subjetivos que os constituem, como contar, compor e somar, tomando a evidência imediata e intuitiva desses atos como critério do retorno às fontes da teoria. 8. A exigência de uma lógica objetiva anterior às ciências decorre da validade incondicionada de suas normas, enquanto a redução eidética investiga o vínculo dessas formas com a subjetividade ao fazer variar livremente os fenômenos e apreender como essência o invariante de suas configurações possíveis. 9. Na passagem da análise eidética à investigação da intencionalidade, as essências são compreendidas como conteúdos de valor e significação dos atos de consciência, de modo que, na linha de Brentano e em convergência com a teoria do objeto de Meinong, os diferentes tipos de objeto correspondem aos atos pelos quais são apreendidos. 10. A redução eidética fornece os fios condutores transcendentais que permitem esclarecer a relação constitutiva entre sujeito e realidade, pois cada ato intencional se dirige a algo cujo sentido pode cumprir-se na experiência em virtude do horizonte de mundo que a subjetividade projeta de antemão. 11. Como o eu empírico integra o próprio mundo constituído, a epoché suspende a consideração da existência para apreender o dado como correlato noemático da subjetividade transcendental, na qual se oferecem de antemão os sentidos essenciais e estruturais das formas possíveis do ser. 12. A correlação entre mundo e pessoa assume em Scheler um fundamento afetivo, pois a intuição emocional do amor e do ódio precede tanto o conhecimento quanto o querer e permite investigar as leis da vida afetiva em fenômenos como a simpatia, o pudor e a humildade. 13. Na investigação scheleriana dos valores, o real se apresenta primeiro por suas qualidades de atração e apelo afetivo (Anmutungsqualitäten), pelas quais vale como um bem, e só em um segundo momento se constitui como objeto puro, abstraído de seu valor. 14. A rejeição heideggeriana da subjetividade absoluta de Husserl exige uma saída imediata do eu e parte de uma compreensão do Dasein (ser-aí) marcada pela atividade e pelo domínio do mundo, em que a realidade é admitida na medida da significação que o ser humano lhe atribui para si. 15. A virada de Heidegger aproxima a fenomenologia de uma investigação da essência (Wesensphänomenologie), na qual a aparência imediata (Schein) pode indicar algo encoberto, como o rubor indica a doença, e a exposição hermenêutica deixa que se mostre por si mesmo aquilo que nela se anuncia. 16. A exposição hermenêutica dos fenômenos desemboca em uma doutrina do ser na medida em que o logos traz à luz o que permanece velado no manifesto e o pensamento constitui o lugar em que esse desvelamento pode ocorrer. 17. Em Ser e tempo, a compreensão pré-ontológica do ser própria de cada Dasein (ser-aí) torna a análise da existência o caminho da ontologia fundamental, pois a investigação da angústia, do cuidado e da morte remonta às condições existenciais que os tornam possíveis e articula a descrição dos entes à questão do ser. 18. O Dasein (ser-aí) define-se como ser-no-mundo porque sua transcendência consiste em já ter projetado, para além dos entes, o mundo como horizonte no qual eles adquirem significação. 19. A análise heideggeriana retoma a articulação husserliana entre sensibilidade, ato noético e noema e a integra a uma estrutura reflexiva de matriz idealista, na qual reaparece a imagem cristã do ser humano chamado a tornar-se si mesmo. 20. Como o próprio ser está em jogo na existência do Dasein (ser-aí), o apelo de si a si e a experiência da angústia, que revela a contingência do mundo e sua relação com o nada, abrem a possibilidade de recuperar a própria singularidade diante da dispersão entre as coisas e do risco de alienação inscrito na convivência. 21. Os entes cujo modo de ser difere do Dasein (ser-aí) recebem sentido no conjunto de suas relações práticas, no qual aparecem como instrumentos à mão ou como materiais a trabalhar, mediando assim a relação do ser humano consigo mesmo. 22. Ao antecipar a morte como sua possibilidade extrema e irrecuperável, o Dasein (ser-aí) constitui-se a partir do futuro, retorna historicamente à sua situação e desoculta os entes no sentido que assumem em seu horizonte existencial, de modo que a verdade se compreende como alétheia (desocultação). 23. A insuficiência da metafísica que sustenta a primeira ontologia existencial de Heidegger motiva um projeto de superação da filosofia ocidental, enquanto a reflexão sobre os limites do subjetivismo conduz Husserl, Scheler e Heidegger a novas concepções do absoluto que evocam, respectivamente, Fichte, Schelling e Hegel. 24. A investigação husserliana da subjetividade transcendental conduz a uma vida absoluta que se concretiza nos sujeitos singulares e orienta a humanidade para um ideal situado no infinito, conferindo à fenomenologia a tarefa de manifestar o logos oculto nos fenômenos e encaminhar o pensamento em sua direção. 25. Na fenomenologia absoluta de Scheler, os fatores reais (Realfaktoren), como o sangue, a força e a economia, constituem uma energia tão originária quanto o espírito, que, ao encarnar-se no ser humano, assume essa força e participa da orientação do devir histórico. 26. Na retomada heideggeriana do pensamento grego originário, a ek-sistência humana encontra-se acolhida no ser que a excede e, como sua guardiã, deixa as coisas serem em seu poder de recolhê-lo, enquanto a palavra poética e o pensamento participam do desvelamento ao dizer o que nelas se manifesta. 27. O ser, apreensível por analogia com a Moira grega, constitui o envio histórico (geschichtliches Geschick) do Ocidente, no qual se desvela e se encobre desde a filosofia grega clássica, de modo que sua redescoberta reclama um pensamento rememorante (andenkendes Denken) próximo de uma nova mística. 28. A fenomenologia percorre o caminho que vai da exigência positiva de retorno às próprias coisas a uma orientação de feição religiosa, renova nas ciências e na filosofia a atenção ao objeto e tende a desembocar em uma ontologia que compromete a subjetividade moderna, como mostram as hesitações do pensamento francês contemporâneo diante da ontologia, da teologia e do marxismo. 29. A passagem da fenomenologia à ontologia deixa em aberto a questão dos problemas que a investigação do ser reúne e ainda precisa resolver. {{tag>Gaboriau fenomenologia}}