====== Ferraris ====== **Maurizio Ferraris (1956–)** Filósofo, ensaísta e teórico cultural italiano, professor ordinário de Filosofia Teorética na Università degli Studi di Torino e presidente do LabOnt (Laboratorio di Ontologia), Maurizio Ferraris é o principal proponente e articulador internacional do Novo Realismo (Nuovo Realismo). Formado pela Universidade de Turim sob a orientação de Gianni Vattimo, realizou estudos de pós-graduação e pesquisa em Heidelberg com Hans-Georg Gadamer e em Paris sob a égide de Jacques Derrida na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Ao longo de mais de três décadas de magistério e intervenção pública, operou uma inflexão teórica profunda: partindo da hermenêutica do pensamento fraco (pensiero debole) e da desconstrução, Ferraris rompeu publicamente na virada do milênio com o relativismo pós-moderno, o construcionismo social radical e o textualismo nietzschiano-derridiano ("nada existe fora do texto"). O seu projeto filosófico notabilizou-se pela reabilitação ontológica do princípio de realidade através do conceito de inemendabilidade (inamendabilità), pela fundação de uma ontologia social centrada nos documentos e na escrita (documentalidade) e pela teorização do novo mundo digital e da plataformização contemporânea sob a chave da documedialidade e da tecnologia da memória. **1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)** * FERRARIS, Maurizio. Storia dell'ermeneutica. Milão: Bompiani, 1988. * Foco: Tratado de história da filosofia e teoria da interpretação; reconstrução sistemática das linhagens da hermenêutica desde as origens teológicas e jurídicas bíblicas, passando por Schleiermacher, Dilthey e Heidegger, até as formulações contemporâneas de Gadamer, Ricoeur e Derrida. Obra de referência erudita que traça os limites e as aporias da hipertrofia interpretativa no pensamento ocidental. * FERRARIS, Maurizio. L'ermeneutica. Roma-Bari: Laterza, 1998. * Foco: Ensaio de síntese crítica e balanço epistemológico. O autor expõe a transformação da hermenêutica de método filológico de leitura em uma metafísica dogmática do relativismo generalizado, apontando o risco de colapso da verdade e a necessidade imperiosa de reintroduzir critérios objetivos de resistência do real perante o arbítrio das narrativas subjetivas. * FERRARIS, Maurizio. Dove sei? Ontologia del telefonino. Milão: Bompiani, 2005. * Foco: Ontologia da técnica e filosofia dos meios de comunicação; investigação fenomenológica do impacto do telefone celular e dos aparelhos móveis na sociedade contemporânea. Ferraris demonstra que a revolução dos dispositivos móveis não é primordialmente comunicativa ou oral, mas escritural e documental: o aparelho opera como uma prótese ontológica de registro e inscrição contínua da existência, reconfigurando os limites entre espaço público e privado, trabalho e ócio, e instituindo a obrigação permanente da rastreabilidade individual. * FERRARIS, Maurizio. Documentalità: Perché è importante lasciare tracce. Roma-Bari: Laterza, 2009. * Foco: Obra maior de ontologia social; formulação do tratado sistemático sobre a gênese e a estrutura dos objetos sociais. Ferraris parte da constatação de que o mundo social não repousa em meros acordos coletivos abstratos (crítica à teoria dos atos de fala de John Searle), mas em atos inscritos em suportes materiais ou digitais. A regra ontológica fundamental do mundo social é fixada na fórmula: Objeto Social = Ato Inscrito (registrado na memória, no papel ou na rede magnética). Sem documentos, contratos, certidões e arquivos, a realidade social pura e simplesmente desmorona. * FERRARIS, Maurizio. Manifesto del nuovo realismo. Roma-Bari: Laterza, 2012. * Foco: Manifesto de intervenção pública e polêmica filosófica de impacto transnacional. Ferraris diagnostica o esgotamento do pós-modernismo e a perversão política de seus dogmas: a ideia de que "não há fatos, apenas interpretações" deixou de ser uma ferramenta emancipatória de crítica das ideologias para se converter na arma do populismo midiático, da desinformação deliberada e do negacionismo político. O manifesto reivindica o retorno inegociável à realidade factual, alicerçado na distinção conceitual estrita entre ontologia (aquilo que existe, independente do sujeito) e epistemologia (aquilo que sabemos sobre o que existe). * FERRARIS, Maurizio. Realismo Positivo. Turim: Rosenberg & Sellier, 2013. * Foco: Tratado teórico que consolida e aprofunda os alicerces teóricos do Manifesto. O pensador estrutura o realismo positivo em três etapas dialéticas sucessivas: a ontologia (a inemendabilidade das coisas reais), a crítica (a desmistificação dos preconceitos epistêmicos) e a proposição positiva (a reconstrução dos saberes, do direito e da moral a partir do solo factual incontroverso). * FERRARIS, Maurizio. Postverità e altri enigmi. Bolonha: Il Mulino, 2017. * Foco: Epistemologia política e análise da era da pós-verdade. O autor disseca as raízes teóricas das notícias falsas (fake news) e dos regimes de opinião emocional, demonstrando como a fragmentação algorítmica da internet realizou a utopia distópica pós-moderna, na qual cada grupo social reivindica a sua própria verdade privada contra a autoridade do mundo comum. * FERRARIS, Maurizio. Documanità: Filosofia del nuovo mondo. Roma-Bari: Laterza, 2021. * Foco: Antropologia filosófica e economia política digital; teoria da documedialidade. Ferraris analisa a transição do trabalho fabril mecânico para a mobilização documental contínua no capitalismo de dados. Na economia contemporânea das grandes plataformas digitais, os seres humanos não são alienados como operários fordistas clássicos, mas trabalham voluntariamente como produtores perpétuos de registros e dados existenciais através do uso de smartphones e redes, convertendo o registro da vida humana na principal fonte de valor econômico e de poder soberano planetário. **2. Contexto Institucional, o LabOnt e a Revista Rivista di Estetica** * Liderança Acadêmica na Università di Torino e Fundação do LabOnt: * Na cátedra de Turim, Ferraris criou o Laboratorio di Ontologia (LabOnt), centro internacional de referência que reuniu pesquisadores da tradição continental e da filosofia analítica da mente e da linguagem, coordenando conferências, redes transnacionais de ontologia aplicada e colaborações com departamentos de ciência da computação, engenharia de sistemas e direito. * Direção da Rivista di Estetica e Interlocuções Internacionais: * Diretor da prestigiosa Rivista di Estetica, transformou o periódico em arena de confronto sobre a teoria da percepção, a ontologia dos artefatos e a crítica estética. Manteve diálogos contínuos com Markus Gabriel na Alemanha (com quem organizou congressos fundacionais do Novo Realismo), com John Searle em Berkeley e participou dos debates do Collège International de Philosophie em Paris. * O Debate Público nos Jornais Italianos: * Atuando como colunista assíduo de cultura e ensaísmo nos periódicos la Repubblica e Il Sole 24 Ore, Ferraris notabilizou-se como um intelectual público combativo, levando a discussão filosófica sobre o realismo, a televisão berlusconiana e a ética digital para fora dos muros estritamente universitários. **3. Recepção Acadêmica e Eixos de Circulação** * A Polemica do Novo Realismo na Europa e nas Américas: * A publicação do Manifesto del nuovo realismo em 2012 deflagrou um dos debates mais apaixonados e divisivos da filosofia continental europeia das últimas décadas, mobilizando réplicas imediatas de Gianni Vattimo, Umberto Eco e defensores da desconstrução na França, Espanha, Alemanha e América Latina. Enquanto críticos o acusavam de simplificar a sofisticação da hermenêutica histórica, seus defensores saudavam a obra como um sopro necessário de lucidez ética e sobriedade científica contra o niilismo estético. * Circulação no Espaço Lusófono: * Obras fundamentais de Maurizio Ferraris foram traduzidas no Brasil e em Portugal (com destaque para o Manifesto do Novo Realismo pela editora Martins Fontes, Onde Estás? Ontologia do Celular pela Record, História da Hermenêutica pela Vozes e Documentalidade). A sua ontologia dos objetos sociais e a teoria dos documentos digitais constituem temas permanentes de pesquisa e teses em faculdades de Filosofia, Direito, Ciência da Informação e Comunicação Social (notadamente na USP, PUC-Rio, UFRGS, UERJ, UFMG e nas universidades de Lisboa e Coimbra). **4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica** * A Inemendabilidade e a Cisão entre Ontologia e Epistemologia: A tese arquitetônica fulcral do Novo Realismo formulada por Ferraris assenta-se no conceito de inemendabilidade (inamendabilità). A realidade exterior possui uma resistência intrínseca que não se curva aos conceitos, desejos ou esquemas linguísticos do sujeito: se vejo um precipício à minha frente, não posso simplesmente interpretá-lo como um tapete macio e caminhar no ar sem despencar; o fogo queima independentemente de eu professar uma teoria aristotélica, mecanicista ou quântica sobre a combustão. A grande confusão da filosofia moderna desde Kant — radicalizada pelo pós-modernismo — consistiu no erro falacioso de subsumir a ontologia (aquilo que as coisas são em si) à epistemologia (aquilo que nós sabemos ou dizemos sobre as coisas). As coisas do mundo natural existem e mantêm as suas propriedades físicas quer o homem as conheça, quer não. * A Teoria dos Três Mundos Ontológicos: Para evitar a ingenuidade de um naturalismo mecanicista cego, Ferraris estabelece uma tripartição ontológica rigorosa da realidade: 1. Objetos Naturais: Existem no espaço e no tempo físicos e são inteiramente independentes dos sujeitos humanos (árvores, montanhas, elétrons, vírus). Se a humanidade desaparecesse amanhã, esses objetos continuariam a existir imutáveis em sua legalidade própria. 2. Objetos Ideais: São atemporais, aespaciais e universais, independentes das mentes individuais (números, formas geométricas, leis lógicas formais). O teorema de Pitágoras continuaria verdadeiro mesmo se nenhuma mente o estivesse concebendo. 3. Objetos Sociais: Dependem estritamente da existência de sujeitos humanos reunidos em comunidade (dinheiro, casamentos, governos, dívidas, tratados, leis, propriedades). Todavia, esses objetos sociais não são puras fantasias subjetivas etéreas; eles possuem densidade objetiva e força normativa porque se materializam através da escrita e do registro factual. * A Documentalidade e a Primazia da Inscrição: Contra John Searle, que baseia a criação da realidade social na intencionalidade coletiva abstrata expressa em declarações linguísticas instantâneas, Ferraris sustenta a primazia material do Documento. Uma promessa dita oralmente sem rastro esvai-se no ar; um compromisso torna-se uma instituição jurídica real apenas quando é registrado numa base material durável: na tábua de argila antiga, no pergaminho, no papel assinado ou nos servidores digitais criptografados da rede. A escrita não é a representação secundária e degradada da fala viva (como pretendia a metafísica fonocêntrica clássica denunciada por Derrida), mas a condição originária e constitutiva de toda a civilização, de todo o direito e de toda a sociedade humana. * A Documedialidade e a Mobilização Total do Humano: No estágio avançado do capitalismo contemporâneo, a convergência entre os dispositivos de comunicação (a mídia) e os sistemas de arquivamento (os documentos) instaurou a Documedialidade. A técnica digital superou a separação tradicional entre o tempo de trabalho e o tempo de repouso: ao interagirem continuamente com telas, mensagens e aplicativos, os seres humanos realizam uma automobilização total. Cada curtida, busca, deslocamento geográfico ou transação comercial gera uma inscrição perene, alimentando os arquivos massivos de dados que movimentam a economia algorítmica do século XXI. Pensar criticamente o presente exige, portanto, compreender a natureza inescapável dessa imensa maquinaria documental que nos governa e redefine a própria essência do humano. {{tag>Ferraris realismo-especulativo}}