====== 0 Alma ====== //FERRARIS, Maurizio. Anima e Ipad. Parma: Ugo Guanda Editore, 2011// **«aquilo que chamamos a alma»** 1. O essencial da reflexão sobre a alma está contido no poema Entrevista com um suicida, de Vittorio Sereni, que narra um encontro imaginário com um suicida no dia de seu funeral em Luino e fala de remorsos, restos, vestígios e do complicado fenômeno da sobrevivência, temas a articular em seis capítulos em torno de quatro palavras-chave, alma, iPad, intencionalidade e documentalidade. 2. A alma é uma palavra conhecida por todos, mas é controverso o que seja e até se existe, e os versos de Sereni sugerem algo a respeito ao abrirem com a definição estranha e verdadeira da alma como uma pontada de remorso e ao fecharem com um forte apelo à letra, pois tudo o que resta de um homem numa cidade são poucas letras depositadas num arquivo, e além disso nada sobrevive, como nada resta das infinitas gerações sem vestígios nem nomes. 3. O iPad também é conhecido pela maioria e sua existência é indubitável, embora, quase como no caso da alma, seja controverso o que ele seja, certamente não uma pontada de remorso, que as máquinas por ora não sentem, embora provoquem, e diferentemente da palavra alma é recentíssima e pode logo tornar-se arcaica, de modo que alma e autômato diria o mesmo sem datar o livro, ao custo de perder um efeito de época que importa preservar. 4. A intencionalidade, que na linguagem comum e jurídica indica a vontade consciente de realizar uma ação, significa na linguagem filosófica, retomada da escolástica medieval, o fato de haver representações na mente, condição prévia da intenção em sentido usual, e Searle fundou sua ontologia social na hipótese de que, além da intencionalidade individual, exista uma intencionalidade coletiva que guiaria a construção da realidade social, segundo a qual objetos sociais como uma conferência, um palestrante e seus ouvintes existem apenas porque os presentes creem que existem, ao passo que para um castor que entrasse na sala nada disso existiria. 5. A documentalidade, neologismo cunhado há alguns anos e a menos conhecida dessas palavras, permite sustentar que aquilo que Searle interpreta como intencionalidade coletiva, fundando a sociedade numa qualidade oculta, deve ser lido como um componente inteiramente manifesto do mundo social, a existência de textos, documentos compartilhados e práticas tradicionais equivalentes a textos, das boas maneiras à mesa aos livros sagrados, códigos, contratos, promessas e avisos de tinta fresca, inscrições internas ou externas que condicionam o comportamento e produzem a convergência de intencionalidades individuais, de modo que a intencionalidade coletiva está nos textos muito antes de se depositar nas cabeças. 6. A defesa da documentalidade assenta numa tese geral e simples, fio condutor de todo o livro, segundo a qual é um erro pressupor um espírito por trás das letras que tecem a realidade social e institucional, pois promessas, casamentos, parlamentos, impostos e bolsa crescem e se autoalimentam num sistema de inscrições que fixa os atos públicos e cria significados e vínculos sociais, sendo improvável que um ser sem linguagem, hábitos nem memória cultivasse intenções e aspirações sociais, já que a mimese gera pouco a pouco o comportamento aparentemente espontâneo, a consciência e os significados, e por isso há uma prioridade da letra sobre o espírito, que é modificação e derivação da letra, como o pensamento é efeito colateral da memória. 7. À objeção legítima de que dar voz e sentido aos documentos exigiria uma alma e de que há uma diferença entre a alma e o iPad, já que vendedores de tablets vendem dispositivos e não almas, cabe responder que isso não autoriza conceber a alma como um espírito ou homúnculo que sopra sobre as letras e as vivifica, pois também no recesso da alma há algo como um documento, uma inscrição, uma tábua na qual se formam pensamentos, intenções e consciência, da qual derivam as estruturas sociais, os documentos manifestos, os ritos e as tradições, isto é, a intencionalidade coletiva. 8. Para enfrentar o emaranhado da consciência, da sociedade e daquilo que se chama alma, recorre-se ao iPad à luz da intuição de Jünger de que a técnica traz continuamente à cena, como num cortejo, uma multidão de coisas antiquíssimas, o que indica que a técnica e seus aparatos não são desvio da natureza humana, mas sua amplificação, estilização e manifestação eminente, e permite inverter a perspectiva e olhar o humano com os olhos da técnica, sem supor uma diferença essencial entre ambos, reconhecendo, como numa anamorfose, diante do iPad ou de seu ancestral, a tábua de cera de gregos e romanos, que a mente é em última análise um aparato de escrita. 9. Em vez de louvar ou censurar os progressos da técnica ou de insistir apenas nas transformações que acarretam, convém sublinhar sua capacidade de revelação do que existe, para o bem e para o mal, de modo que a ontologia da atualidade deve ser antes uma ontologia através da atualidade, consciente de que na transformação se manifesta a essência, num percurso que retoma as Meditações metafísicas de Descartes, por tratar dos mesmos temas de alma, máquinas e comunicação entre matéria e espírito, mas que melhor se chamaria revelações filosóficas, mediúnicas sem serem esotéricas, por virem do médium que é a técnica. 10. A primeira revelação, Psique, articula uma tese que pode ser considerada um pedaço de arqueologia, a de que a letra é a condição de possibilidade do espírito, concebido não como algo volátil e separado da matéria, mas como resultado de inscrições e registros dentro e fora de cada um, segundo um hilemorfismo no qual matéria e forma são inseparáveis. 11. A segunda revelação, Tabula, apresenta-se como fisiologia por oferecer uma teoria da mente que reconhece sua natureza plástica, como sustentam as neurociências contemporâneas, concepção já presente na imagem da mente como tábua de cera, e afirma que a tábua é a condição de possibilidade do pensamento. 12. A terceira revelação, Iter, defende que a iteração e o registro que a torna possível são a essência da técnica, a qual aparece assim acima da distinção entre mecânico e orgânico, já que também no orgânico há iterações, registros e automatismos, como mostra a memória, orgânica mas representável mecanicamente como tábua e sobretudo técnica, mãe de todas as técnicas se o registro é a condição de possibilidade da técnica. 13. A quarta revelação, .doc, trata de sociologia em sentido etimológico e mostra que a invasão dessa extensão nas vidas nas últimas duas décadas não foi irrupção de alienígenas, mas manifestação de um requisito essencial sempre presente no centro do mundo social, a existência de registros, inscrições e documentos sem os quais não há sociedade, donde a tese de que a documentalidade é a condição de possibilidade da intencionalidade coletiva. 14. A quinta revelação, Autômato, a mais cartesiana, trata da psicologia como doutrina da alma e substitui o dualismo de alma e corpo por um monismo que vê no vestígio, nas impressões que o próprio Descartes reconhecia como características da mente, não o suporte de um espírito situado alhures, mas a base do raciocínio e da consciência, sustentando que os seres humanos são autômatos espirituais mas livres, autômatos tão complicados que não sabem que o são. 15. A sexta revelação, Corpus, trata da escatologia, isto é, do fim e da finalidade da alma e de sua eventual sobrevivência, sustentando, em confronto com a ressurreição cristã e a mumificação egípcia, que concebem a sobrevivência como carne, que o espírito sobrevive como letra, na forma dos vestígios deixados, de modo que o título designa tanto o corpo carnal quanto o corpo literal de registros e documentos que se leva consigo, até no iPad, e que ao mesmo tempo arruínam a vida, a tornam possível e a protegem um pouco de sua evanescência. {{tag>Ferraris realismo-especulativo alma técnica}}