====== ESPINOSA (ÉTICA III, PROP. LV): MENTE IMPOTÊNCIA TRISTEZA ====== Proposição LV Quando a Mente imagina sua impotência, por isso mesmo se entristece. Demonstração A essência da Mente afirma apenas o que a Mente é e pode, ou seja, é da natureza da Mente imaginar unicamente o que põe sua potência de agir (pela [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#354|Prop. preced.]]). Assim, quando dizemos que a Mente, ao contemplar a si própria, imagina sua impotência, nada outro dizemos senão que a Mente, ao esforçar-se para imaginar algo que põe sua potência de agir, tem este seu esforço coibido, ou seja (pelo Esc. da [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#311|Prop. 11 desta parte]]), dizemos que ela se entristece. C. Q. D. Corolário Esta Tristeza é mais e mais fomentada se ela imagina ser vituperada por outros, o que se demonstra da mesma maneira que o Corol. da [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#353|Prop. 53 desta parte]]. E s c ó l i o Esta Tristeza conjuntamente à ideia de nossa debilidade é chamada Humildade; já a Alegria que se origina da contemplação de nós mesmos chama-se Amor-próprio ou Contentamento consigo mesmo. E como esta se repete tantas vezes quantas o homem contempla suas virtudes, ou seja, sua potência de agir, daí portanto também ocorre que cada um anseie por narrar seus feitos e exibir as forças tanto de seu corpo quanto de seu ânimo, e que os homens, por este motivo, sejam molestos uns aos outros. Disto segue, mais uma vez, que os homens são invejosos por natureza (ver Esc. da [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#324|Prop. 24]] e Esc. da [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#331|Prop. 31]] desta parte), ou seja, regozijam-se diante da debilidade de seus iguais e, inversamente, se entristecem por causa da virtude deles. Pois quantas vezes cada um imagina suas ações, tantas vezes é afetado de Alegria (pela [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#353|Prop. 53 desta parte]]), e tanto maior quanto mais perfeição imagina suas ações exprimirem e quanto mais distintamente as imagina, isto é (pelo dito no Esc. 1 da [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=2&lanid=0#240|Prop. 40 da parte II]]), quanto mais pode distingui-las das outras e contemplá-las como coisas singulares. Portanto, cada um se regozijará ao máximo com a contemplação de si quando contemplar em si algo que nega dos restantes. Mas se refere aquilo que afirma de si à ideia universal de homem ou de animal, não se regozijará tanto; inversamente, ele se entristecerá se imaginar suas ações serem mais débeis comparadas às dos outros, Tristeza que certamente (pela [[http://www.ethicadb.org/pars.php?parid=3&lanid=0#328|Prop. 28 desta parte]]) se esforçará para afastar interpretando erradamente as ações de seus iguais ou adornando, o quanto pode, as suas próprias. Revela-se então que os homens são por natureza inclinados ao Ódio e à Inveja, ao que se ajunta a própria educação. Pois os pais costumam incitar os filhos à virtude somente com o estímulo da Honra e da Inveja.