====== Sloterdijk ====== //DUQUE, Félix. En torno al humanismo: Heidegger, Gadamer, Sloterdijk. Madrid: Ed. Tecnos, 2002.// 1. A conferência de Sloterdijk em Elmau (1999) gerou controvérsias na Alemanha, sendo interpretada por alguns como uma tentativa de destronar Habermas e a intelectualidade de esquerda, acusando Sloterdijk de racismo, seguidor de Heidegger e Nietzsche, e de promover a "criação" em vez de "educação". 2. A "má sorte" de Heidegger com a imprensa parece persistir com Sloterdijk, pois, após a polêmica Farías nos anos 1990, a aparição de Sloterdijk reavivou a "ferida Heidegger", sugerindo que ele é um intérprete que faz uma obra passada apelar ao presente, de acordo com a visão de Gadamer. ** 1. UM TIPO SUSPEITO, UM ENFANT TERRIBLE, UM ARRIBISTA DA DIREITA TECNOCRÁTICA? ** 3. Sloterdijk é acusado de anunciar uma mudança de princípios: criação em vez de educação, biologia em vez de política, raça em vez de classe, o que lhe rendeu a oposição de grupos religiosos, marxistas e bioéticos "politicamente corretos". ** 2. A MADEIRA TORTA DA ESPÉCIE HUMANA ** 4. Sloterdijk, ao contrário de Heidegger, é mais radical e pessimista, sendo visceralmente anti-rousseauniano e concordando com Kant que o homem é um animal que precisa de um amo, e que, até agora, um homem (ou poucos) é o "pastor" do rebanho humano. ** 3. DA IMPORTÂNCIA DE SABER LER E ESCREVER ** 5. Gadamer corrige Heidegger ao afirmar que o linguagem é a casa do homem, e Sloterdijk problematiza essa ideia, perguntando se os homens de hoje ainda habitam "casas" e se esta pode ser identificada com o linguagem. 6. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, a "casa" do homem, ou seja, sua domesticação, foi o linguagem, e o saber ler e escrever é considerado uma técnica antropógena, um procedimento para fazer de bestas homens, pelo menos para o anthropos ocidental. 7. O homo alphabeticus é considerado homem por seus pares, que estabelecem uma distinção entre as bestas sem linguagem escrita e os que a possuem, e a escrita é o instrumento do Amo para emitir ordens, conectar-se com o instrumentum vocale e formar "mundo". ** 3.1. DOMESTICANDO A FERA ** 8. A humanitas, embora primordialmente técnica (saber ler e escrever), desdobra-se econômica e politicamente, e o homo humanus, como "pastor do ser", realiza ações de conjunção e separação que são reinterpretadas por Sloterdijk em um sentido nietzscheano, lendo a diferença ontológica heideggeriana como a oposição entre o dionisíaco e o apolíneo. 9. Sloterdijk parece estabelecer uma distinção trivial entre o "bom" (técnicas domesticadoras) e o "mau" (bestialidade inata), distante das meditações heideggerianas, e a humanitas do humanismo teria sido acessada pelo exercício de técnicas domesticadoras (escrita e leitura), descartando práticas selvagens. 10. Sloterdijk não questiona se os elegantes leitores-escritores são os mesmos que ordenam e fomentam espetáculos para a plebe, e para ele não há diferença qualitativa entre a minoria de leitores-escritores e a massa, parecendo ser uma questão de escolha. ** 3.2. QUE DEPOIS DA GUERRA JÁ NÃO VALE A PENA ESCREVER CARTAS ** 11. A escolha entre escrever cartas ou ir ao circo já não é viável após 1945, e as soluções pós-guerra (marxismo, existencialismo, humanismo cristão) foram versões desatualizadas do humanismo, incapazes de explicar a crueldade que permitia a coexistência de livros de doutrinamento com ordens de deportação. 12. Sloterdijk propõe "traduzir" as noções heideggerianas de [[lx>termos:s:seinsfrage|Seinsfrage]] e [[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]] em uma História natural das técnicas antropógenas e uma História social das domesticações, vinculando "vir ao mundo" com "vir à linguagem" e escolhendo a "domesticidade" do habitar em casas como fio condutor para a Sozialgeschichte. 13. Tanto Gadamer quanto Habermas, apesar de suas diferenças, estão ligados ao ideal humanista da conjunção entre linguagem e casa, exemplificado pelo envio de "cartas" para formar uma comunidade de "letrados", cujo germe humanista remonta às epístolas de Paulo. 14. Sloterdijk situa o florescimento do humanismo entre 1789 e 1945, quando a "casa" se torna a nação e o "linguagem" o idioma patrio, e o humanismo nacional que se segue à Revolução Francesa se torna populista, substituindo a correspondência privada pela propaganda patriótica. 15. Após a Segunda Guerra, a televisão e, por volta de 2000, a Internet, teriam dado o golpe de graça ao humanismo epistolar, impossibilitando a síntese social com os velhos meios da Escritura, entrando em uma sociedade pós-literária e pós-humanista. ** 5. UMA PROVOCAÇÃO E UM MAL-ENTENDIDO: OS "CRIADORES" TECNÓCRATAS ** 16. Embora o diagnóstico de Sloterdijk sobre o fim da era do humanismo seja correto em linhas gerais, a reação a sua conferência focou menos no diagnóstico e mais na suspeita de que ele propõe uma "seleção" eugenésica, o que ele parece confirmar ao citar o Político de Platão e usar a terminologia de "criação de gado". 17. A polêmica se deve, em parte, à agressividade dos termos "ganaderos" usados por Sloterdijk, que na Alemanha evocam lembranças eugenésicas, e à coincidência temporal com a era da biotecnologia, levando a interpretações de que ele defende a "criação" de seres humanos. ** 5.1. A ANTROPOTÉCNICA, QUESTÃO DE BOA CRIAÇÃO ** 18. Sloterdijk se esquiva da utilização nazista de Nietzsche, extraindo a ideia de que as antropotécnicas são autorreferenciais, procedimentos usados pelos homens para "criar" outros homens e a si mesmos, e exige a formulação de um "código das antropotécnicas". 19. A definição "metafísica" de Sloterdijk no Menschenpark é provocativa: os homens são seres que se criam e se custodiam a si mesmos, gerando um espaço-parque ao redor, mas essa definição parece contraditória e exagerada, ocultando a diferença entre governantes e governados. 20. Sloterdijk parece encobrir a diferença infranqueável entre pastores e rebanho, afirmando que os homens se criam a si mesmos e são guardiões de si mesmos, mas a terminologia genérica "[[lx>termos:m:menschen|Menschen]]" e o prefixo reflexivo "selbst" escondem essa distinção. ** 5.2. QUEM VAI MANDAR, E EM NOME DE QUEM, SE OS HOMENS FICAM SÓS? ** 21. A distinção entre tirania e "criação" voluntariamente aceita, citada por Sloterdijk a partir de Platão, é insuficiente porque, com o fim da era dos deuses e dos sábios, o cuidado do homem pelo homem se torna uma "paixão inútil". 22. Sloterdijk reconhece, com Sartre, que os homens ficaram sozinhos, sem metarrelatos legitimadores, e que os antigos sábios se tornaram arquivistas, e o fim do humanismo não é o fim do mundo, mas o fim do mundo daqueles que cifraram a vida em ler e escrever. 23. A polêmica em torno da conferência se deve à agressividade dos termos "ganaderos" e à coincidência com a era da biotecnologia, e a conferência de Sloterdijk é lida como uma defesa da necessidade de amos e da "criação" como fator de coesão social, com o humanismo em crise irremediável. 24. A continuação do ensaio por jornalistas e adversários sugere que, com o fim do humanismo, a "criação" e domesticação da plebe se dariam pela indústria do espetáculo ou por procedimentos de intervenção radical na vida humana, como eugenia e eutanasia. ** 6. A ÉPOCA EM QUE OS HOMENS SE OPERAM A SI MESMOS ** 25. Sloterdijk, em "O homem auto-operável", celebra o triunfo planetário da técnica, especialmente em seu giro reflexivo, e a técnica, que começou como cibernética, evoluiu para tecnologia e, por fim, para biotecnologia, permitindo a modificação genética de seres vivos. 26. A técnica, em sua fase biotecnológica, permite a manipulação do genoma e a otimização genética, o que, para Sloterdijk, representa uma espécie de autoria e autocriação, onde o "pastor do ser" altera as possibilidades ab ovo e a redroitempo. ** 6.1. PRIMAZIA DA TÉCNICA ** 27. Sloterdijk celebra o triunfo tendencialmente planetário da técnica, que, no final da Segunda Guerra, começou como cibernética e evoluiu para a tecnologia, integrando o trabalho, a ciência e o linguagem, com a biotecnologia como sua ponta de lança, permitindo a modificação genética de estruturas, órgãos e funções dos seres vivos. 28. A técnica, em sua fase biotecnológica, permite a manipulação do genoma e a otimização genética, o que, para Sloterdijk, representa uma espécie de autoria e autocriação, onde o "pastor do ser" altera as possibilidades ab ovo e a redroitempo, tornando o horizonte fenomenológico uma ameba de prolongações e retrações. ** 6.2. QUANDO OS HOMENS FICAM SEM CASA ** 29. Sloterdijk entoa um lamento elegíaco pela perda do mundo sólido e habitável, citando Sartre sobre a habituação a situações apocalípticas, e argumenta que, com a perda da ilusão humanista, caem também as ilusões de "estar em casa" e de estar à vontade no mundo. 30. A perda da "casa" do homem deve-se ao fato de que os fundamentos da "coyunda de cultura escrita e formação humana" estão seriamente afetados, e a "casa" está sujeita a uma forte remodelação, que ameaça a própria ideia de "habitar" e "ser na terra". 31. A apatridia (Heimatlosigkeit) se torna um destino mundial, e Sloterdijk, citando Heidegger, afirma que é preciso pensar essa destinação de acordo com a história do ser, e que a técnica, em sua essência, é uma destinação da história do ser, fundada na história da metafísica. 32. Heidegger, no entanto, havia criticado a propaganda de guerra e relacionado o "destino mundial" à poesia de Hölderlin, e elogiado Marx por reconhecer a alienação como raiz da apatridia moderna, o que Sloterdijk omite em sua citação. 33. Os elos intermediários da argumentação de Heidegger, omitidos por Sloterdijk, são a alienação, o materialismo, o objetivismo e o subjetivismo, e a técnica, como figura da verdade, se funda na história da metafísica, o que coloca em xeque a posição otimista de Sloterdijk. ** 6.3. A TÉCNICA: O SER DE VERDADE, A VERDADE DO SER ** 34. Sloterdijk parece defender o contrário de Heidegger: a metafísica é um episódio da história da técnica, e a técnica seria a figura em que há, em que se dá a verdade, e a técnica como Diferenca primigenia é compreendida como o real e verdadeiro "ser do ente". 35. Sloterdijk oscila entre a técnica como autopraxis do homem, o que implicaria um hiperhumanismo exacerbado, e a crença de que a patencia absoluta da técnica acabará com as relações de poder, estabelecendo um diálogo livre de dominação, o que o aproxima de Habermas em um mesmo objetivo utópico. ** 6.4. É HOJE DE VERAS A TERRA A ESTRELA DA ERRÂNCIA? ** 36. Sloterdijk vincula verdade e destino na história, mas, ao contrário de Hegel e Heidegger, não vê a técnica como o "errar" ([[lx>termos:i:irre|Irre]]) da metafísica, mas como a figura em que a verdade se dá, cortando os laços com Heidegger. 37. Sloterdijk encontra em Günther a acusação de que a metafísica clássica usa uma ontologia monovalente e uma lógica bivalente, e estende essa acusação a Heidegger, afirmando que ele segue "parcialmente preso" dessa lógica, o que é uma interpretação forçada. 38. Sloterdijk quer acabar com o dualismo platônico-aristotélico, que está ligado ao programa humanista desde Descartes, porque vivemos em um mundo tendencialmente artificial, onde a lógica bivalente, pensada para "coisas" naturais, já não se aplica. 39. A lógica hegeliana, com sua base reflexiva móvel, é previa ao objeto e ao sujeito, e suas determinações podem ser aplicadas tanto ao natural quanto ao espiritual, mas Hegel não reconheceu que essa lógica era a abstração do desenvolvimento da técnica. ** 6.5. "HÁ" INFORMAÇÃO / "HÁ" GENES ** 40. Sloterdijk substitui o "há ser" heideggeriano por "há informação" e "há genes", estabelecendo uma ontologia baseada em artefatos, instrumentos, signos, obras de arte, máquinas, leis, costumes, livros e todos os demais artifícios, mas a dificuldade de pensar esse fundo produtor é evidente quando ele agrupa tudo sob o rótulo de "fenômenos culturais". 41. A técnica não é um montão de instrumentos, mas uma organização móvel de regras, plasmada em ordenadores e no genoma, uma ontotecnologia que decide o que é real, e Sloterdijk, ao substituir "há ser" por "há informação", desafia Heidegger, para quem a informação é o aparato semiótico do pensar calculador e do Gestell. 42. Para Heidegger, a informação é um sedativo que assegura os atos da vida humana e a agosta em sua raiz, mas Sloterdijk parece entender Information como o "ser" do âmbito cultural, o que restabelece o dualismo ao formular também o princípio "há genes" para a esfera da natureza. ** 6.5.1. Mutações, medos e promessas: sobre os limites da tecnologia genética ** 43. Sloterdijk aponta para alterações na tonalidade afetiva anímica (Umstimmung) por meio de substâncias psicotrópicas e para a possibilidade futura de induzir conteúdos de ideias, mas Heidegger se indignaria com essas ideias, pois via na biofísica um perigo maior que a bomba atômica. 44. A premonição de Heidegger sobre a manipulação genética advirta de um duplo perigo: para o gênero humano e para as posições de Sloterdijk, pois, se o ser se retrai e o homem nunca pode chegar plenamente a si, a criação de "homens completos" ad libitum é impossível. 45. Mesmo no nível microscópico dos genes, mostra-se com força a retração ([[lx>termos:e:entzug|Entzug]]), o "resto" que nunca pode sair à luz, o que Schelling chamava de "natureza em Deus", e a preocupação com a manipulação genética não é o medo de que o "eu" se perca na cosidade, mas a questão de quem tem o poder para manipular e clonar. ** 6.5.2. Sobre as possibilidades humanas de despejar e recolher ** 46. Sloterdijk, otimista, prevê o fim de toda servidão humana com a técnica, mas a definição de "domínio" como redução do outro a algo material e disponível é superada pelo advento das novas tecnologias, que levariam ao ocaso do esquema ancestral. 47. Sloterdijk recorre às noções heideggerianas de [[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]] (despejamento) e [[lx>termos:s:sammlung|Sammlung]] (recolhimento) para afirmar que o homem é uma possibilidade regional de despejamento e uma possibilidade local de recolhimento, uma "nobre debilidade" e uma "força poética local", escapando dos extremos do antihumanismo e do humanismo piedoso. 48. Heidegger corria o perigo de passar do homem como "pastor do ser" ao homem como condutor dos demais, e Gadamer, por sua vez, dissolve o problema do domínio com uma visão democrática e inane, onde o homem é um tradutor que nunca começa nem termina nada. 49. Sloterdijk, por outro lado, oscila entre o primitivismo nietzscheano-platônico dos condutores de gado e o cyborg livre de domínio, e a teoria do "homem" em Sloterdijk é estimulante, mas peca por oscilar pendularmente entre esses extremos. ** 6.6. O HOMEM, TRANSUTOR DA VOZ DO SER EM SIGNOS ELETRÔNICOS ** 50. O Da do ser, em Heidegger, torna-se a Lichtung (despejamento), e Sloterdijk entende a tradição como um desdobramento técnico, onde o homem é aquele que ouve a voz do "ser-técnica" e transforma essas señales em signos eletrônicos, sendo mais um transdutor do que um tradutor. 51. Sloterdijk corrige Heidegger e Sartre ao afirmar que estamos em um plano onde, por princípio, há técnica, e que o homem só é porque uma técnica o fez surgir desde o pré-humano. ** 6.7. AO SUCESSO (POLÍTICO) PELA PRÁTICA (BIOTECNOLÓGICA) ** 52. A resposta de Sloterdijk sobre a manipulação genética é ambígua: ele afirma que os homens "não fazem nada perverso" se se alteram autotecnicamente, mas o uso do prefixo "auto" e a citação de Rahner sobre o "homem auto-operável" revelam uma oscilação entre a técnica como fator gerador e como instrumento autopoiético. 53. Sloterdijk parece postular três estágios (numinoso, metafísico, tecnológico), onde no último o homem, liberado de toda coerção, se dedica a manipular seu entorno e seu próprio corpo, o que implicaria um superhumanismo tecnológico. ** 6.8. A SOMBRA DE ORTEGA: A TÉCNICA, UM LUXO AO SEU ALCANCE ** 54. Sloterdijk parece se contradizer ao afirmar que a técnica é um instrumento em poder do homem, aproximando-se de Ortega y Gasset, para quem a técnica é autofabricação e um luxo, o que implica a aceitação da distinção hierárquica entre homem e coisas, que ele critica. 55. Sloterdijk oscila entre exigir a rebaixa das ínfulas humanistas e manter a autorreferencialidade do homem, e as intenções de Sloterdijk parecem ser as melhores, mas sua posição parece revelar um otimismo ingênuo. ** 6.9. ALOTÉCNICA VERSUS HOMEOTÉCNICA ** 56. Sloterdijk distingue entre alotécnica (técnicas dirigidas ao "ajeno", que geram domínio) e homeotécnica (técnicas onde sujeito e objeto coincidem, gerando cooperação), mas é difícil estabelecer essa distinção tajante, pois tanto a bomba atômica quanto a genética seguem o mesmo programa de análise e transformação da realidade. ** 6.10. QUE O HORIZONTE DA LIBERTAÇÃO É BEM BORRADO ** 57. Sloterdijk reconhece que a competição pelo domínio da inteligência persiste, mas afirma que os amos e violentadores não têm mais chances de sucesso a longo prazo no mundo interconectado, o que parece uma visão ingênua e alinhada com o politicamente correto. 58. Sloterdijk parece fazer retroceder os políticos e técnicos da alotécnica ao nível de tiranos orientais, sugerindo que quem questiona as novas tecnologias é um "reacionário", e ignora problemas como o acesso à inteligência, o hiato entre nações e o controle dos meios de produção. 59. Sloterdijk apresenta a homeotécnica como um juízo de Deus, uma escolha entre vida e morte, mas a contradição inerente à sua posição é que, ou a homeotécnica se impõe como destino, ou sua defesa é uma tentativa de impor uma doutrina, o que é contraditório. 60. Sloterdijk parece defender um determinismo da (homeo)técnica tão injustificado quanto o da infraestrutura econômica no marxismo, e seu ênfase no caráter "inteligente" da matéria ignora o "ruído" e a "basura" presentes nas cadeias de ADN, o que exige cautela. 61. Sloterdijk não considera que a técnica não segue uma ascensão evolutiva triunfante, e que formas obsoletas de poder podem utilizar técnicas recentes, e as relações entre técnica e poder são complexas, exigindo cautela, como ensina Foucault. 62. As novas tecnologias podem ser objetos de difusão planetária, independentemente do regime político, e Sloterdijk foca quase exclusivamente na genética, ignorando a indústria farmacológica e de armamentos, e o comércio de órgãos. 63. A descendência de Heidegger deve continuar se perguntando por que aqueles que se consideram "pastores" do ser toleram que seus semelhantes sejam tratados como gado, e por que os "tradutores" e "transdutores" não usam seu poder para unir as pessoas contra o despotismo. 64. Após a longa exposição, sente-se cansaço e um pouco de depressão, e a discussão sobre questões técnicas e biológicas fez com que o psíquico prevalecesse sobre o somático, mas, apesar de tudo, estabeleceu-se uma modesta comunidade de diálogo livre de dominação. {{tag>Duque Sloterdijk técnica}}