====== Mário Martins – O tempo em "Demônios" de Dostoiévski ====== ==== Introdução histórica à vidência do tempo e da morte ==== Mais uma vez, abramos Os Demônios, de Dostoiewski. Kirillov, engenheiro e teórico do suicídio, batia com uma bola de borracha no chão e fazia-a saltar até ao tecto, entre os gritos entusiastas de uma pequerrucha que gritava: Bola, bola! A bola rebolou para debaixo dum armário, Kirillov deitou-se no soalho e estendeu os braços para encontrar o brinquedo. Foi nesta posição que Stavroguine o encontrou. — Queres chá?, perguntou-lhe Kirillov. Stavroguine vinha encharcado e bebeu o chá quente. Pouco depois, trava-se um diálogo em torno dum duelo à pistola, quase à queima-roupa, com Gaganov. Stavroguine pertence à raça dos que não têm medo de morrer. Kirillov, embora na miséria, mostra-lhe um belo revólver que depois irá concretizar uma filosofia destrutora. Um minuto de silêncio pensativo e Stavroguine pergunta misteriosamente ao engenheiro se continuava ainda com as mesmas ideias. Kirillov responde laconicamente que sim. — Então, quando?, insiste Stavroguine. — Quando mo disserem. O seu olhar está calmo e ambos falam do suicídio como de libertação. Sobretudo para Kirillov, trata-se duma afirmação absoluta. A frio. Embora pareça absurdo, o engenheiro gosta de crianças e da vida. Ao ouvir-lhe afirmar este amor pela vida, Stavroguine pergunta-lhe espantado: — No entanto não tens tu a decisão de dar um tiro nos miolos? — E que tem isso?... Para quê misturar duas coisas diferentes uma da outra?... A vida existe e a morte não existe. — Ah!... já crês na vida eterna, no outro mundo? — Não, mas sim na vida eterna deste mundo. Há momentos em que o tempo pára de repente, para dar lugar à eternidade. — Esperas chegar a tal momento? — Espero. — Duvido que em vida isso seja possível. Estas palavras foram ditas por Stavroguine, sem nenhuma intenção irónica. Pronunciou-as lentamente e com ar pensativo. — Segundo o Apocalipse, o anjo assegura que deixará de haver tempo, observou ele em seguida. — Eu sei. Isso é bem verdade. Quando todos os homens tiverem atingido a felicidade, não haverá mais tempo, porque ele já não será necessário. Ê um pensamento muito exacto. — Nesse caso, onde é que o porão? — Não o porão em parte nenhuma. O tempo não é um objecto, mas uma ideia. Tal ideia apagar-se-á do espírito. Aqui temos: O tempo não existe em si mesmo. É um conceito mental, a consciência do antes, do agora e do depois. Psicologicamente, existe só na medida em que lhe prestamos atenção, na medida em que algo muda dentro ou fora de nós e nos apercebemos dessa mudança. Dostoiewski recorda-nos algures o último minuto dum condenado à morte. Como espaço tão breve chegou para pensar em tanta coisa! E como se tornou comprido, esse minuto, pela atenção que o condenado lhe prestou! --- *PS: MARTINS, Mário. Introdução histórica à vidência do tempo e da morte. Braga : Livraria Cruz, 1969* {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}