====== O Filtro do Amor em Tristão ====== DRAO * Razão constitutiva do mito e sua necessidade * Razão fundadora do mito revela-se: a própria necessidade que o criou. * Sentido real da paixão é tão aterrorizante e inconfessável que nem os que a vivem podem ter consciência de seu fim, nem os que a retratam podem fazê-lo sem símbolos enganosos. * Linguagem enganosa dos símbolos e inconsciente * Deixar de lado a consciência dos autores primitivos sobre o alcance de sua obra. * Esclarecer sentido da palavra enganoso usada. * Psicanálise vulgarizada ensina que desejo recalcado sempre se expressa, mas de modo a desorientar o juízo. * Paixão proibida, amor inconfessável criam sistema de símbolos, linguagem hieroglífica cuja chave a consciência não possui. * Linguagem ambígua por essência: trai no duplo sentido o que quer dizer sem dizê-lo. * Compõe em único gesto ou metáfora tanto expressão do objeto desejado quanto expressão daquilo que condena esse desejo. * Interdição permanece afirmada, objeto permanece inconfessado, mas aludido. * Necessidades incompatíveis são satisfeitas: falar do amado e subtraí-lo ao juízo, amor ao risco e instinto de prudência. * Reação do usuário do símbolo e do poeta * Questionado sobre predileção por imagem bizarra, responde que é natural, que não sabe, que não atribui importância. * Poeta falará de inspiração ou de retórica; nunca faltarão boas razões para demonstrar irresponsabilidade. * Problema do autor primitivo e material simbólico disponível * Autor primitivo dispunha, no século XII, de magia e retórica cavaleiresca como material simbólico apto a ocultar o que precisava traduzir. * Vantagem da magia: persuade sem dar razões, justamente por não dar. * Vantagem da retórica cavaleiresca: meio de fazer passar por naturais as proposições mais obscuras. * Máscara ideal: garante segredo e aprovação incondicional do leitor. * Cavalaria é regra social que as elites do século sonham opor às piores loucuras que as ameaçam. * Papel da magia: liberar a paixão da responsabilidade humana * Papel da magia: descrever paixão cuja violência fascinante não pode ser aceita sem escrúpulos. * Paixão aparece bárbara em seus efeitos; proscrita pela Igreja como pecado, pela razão como excesso mórbido. * Só se pode admirá-la se liberada de todo vínculo visível com responsabilidade humana. * Intervenção do filtro, agindo de modo fatal, e bebido por engano, revela-se necessária. * O filtro como álibi da paixão * Filtro é álibi da paixão; permite aos amantes dizer: Vejam que não tenho culpa, é mais forte que eu. * Contudo, sob essa fatalidade enganosa, todos seus atos são orientados para o destino mortal que amam. * Agem com astúcia resoluta, com armação infalível por estar a salvo do juízo. * Ações menos calculadas são por vezes mais eficazes; como pedra lançada sem mirar que acerta o alvo. * As mais belas cenas do romance são aquelas que os autores não souberam comentar, descritas como em total inocência. * Impossibilidade de confissão e necessidade do mito * Não haveria mito nem romance se Tristão e Isolda pudessem dizer qual a finalidade que preparam com toda sua vontade profunda, abissal. * Quem ousaria confessar que quer a Morte? Que detesta o Dia que o ofusca? Que espera com todo seu ser o aniquilamento de seu ser? * Alguns poetas muito posteriores ousaram essa confissão suprema, mas a multidão os chama de loucos. * Paixão que romancista quer adular no ouvinte geralmente é mais débil; pouca chance de confessar-se por excesso indubitável, por morte que a manifeste além de todo arrependimento. * Comparação com místicos e diferença fundamental * Certos místicos fizeram mais que confessar: souberam e se explicaram. * Enfrentaram Noite escura com paixão severa e lúcida porque tinham garantia, pela fé, de uma Vontade pessoal e luminosa que substituiria a deles. * Não era deus sem nome do filtro, força cega ou Nada que se apoderava de seu querer secreto, mas Deus que promete graça e chama viva de amor nascida nos desertos da Noite. * Tristão como prisioneiro da ignorância necessária * Tristão não pode confessar nada; quer como se não quisesse. * Enclausura-se em verdade inverificável, injustificável, cujo conhecimento rejeita com horror. * Tem desculpa pronta que o engana melhor que a qualquer um: o veneno que o domina pela força. * Contudo, escolheu esse destino, quis e acolheu com obscuro e soberano assentimento; tudo o trai em sua ação, até na fuga desesperada, na sublime coquetaria de sua fuga. * Ignorância é essencial à grandeza exemplar de sua vida. * Razões da Noite não são as do Dia; não são comunicáveis ao Dia; o desprezam. * Estado de Tristão além da vida comum * Tristão fez-se prisioneiro de delírio diante do qual empalidecem toda sabedoria, toda verdade e a própria vida. * Está além de nossas felicidades e sofrimentos. * Lança-se ao instante supremo em que o gozo total é o naufrágio. * A música como expressão do desejo indizível * Palavras do Dia não podem descrever a Noite, mas música sábia não falta a esse desejo de que procede. * Referência à morte de Tristão e Isolda na ópera de Wagner. * Citação do herói sobre melodia antiga e grave que fala de seu destino: Para desejar e para morrer! Para morrer de desejar! * Reconhecimento final da vontade própria * Herói pode amaldiçoar seus astros, seu nascimento, mas música é sábia e canta imensamente o belo segredo: foi ele mesmo que quis seu destino. * Confissão wagneriana: Filtro terrível que me condena ao suplício, sou eu mesmo que o compus... E o bebi em longos tragos de delícia!