====== Narrativa do Romance de Tristão ====== DRAO * Nascimento e infância marcados pelo infortúnio * Tristão nasce na desgraça: pai morto, mãe (Blanchefleur) morre ao dar à luz. * Origem do nome: ligação com tristeza; céu baixo e tempestuoso cobre a lenda. * O rei Marco da Cornualha, irmão de Blanchefleur, acolhe e educa o órfão. * Primeira proeza: vitória sobre o Morholt * O gigante irlandês Morholt exige tributo de jovens, à maneira do Minotauro. * Tristão, após ser armado cavaleiro, obtém permissão para enfrentá-lo e o mata. * Recebe ferida envenenada, considerada mortal. * Embarca à aventura em barco sem vela nem remos, levando espada e harpa. * Cura na Irlanda e primeiro encontro com Isolda * Barco atinge costa irlandesa; apenas a rainha da Irlanda tem o antídoto. * Tristão oculta seu nome e origem do ferimento (Morholt era irmão da rainha). * A princesa Isolda o cura; este é o Prólogo da história. * Missão de buscar a noiva desconhecida para o rei Marco * Anos depois, rei Marco decide casar-se com dona de cabelo de ouro trazido por pássaro. * Tristão é enviado em busca da desconhecida. * Tempestade o leva de volta à Irlanda, onde mata um dragão que ameaçava a capital. * Ferido pelo monstro, é novamente tratado por Isolda. * Isolda descobre ser ele o assassino de seu tio, pega a espada para matá-lo no banho. * Tristão revela sua missão real; Isolda o perdoa, desejando ser rainha (e por admiração à sua beleza). * A viagem de retorno e o filtro do amor * Tristão e Isolda partem para a Cornualha. * Calmaria no mar, calor abafado, sede. * A serva Branguena serve por engano o vinho preparado pela mãe de Isolda, destinado aos esposos. * Ambos bebem; entram numa destinação que nunca os faltará: beberam sua destruição e sua morte. * Confessam e cedem ao amor. * Nota sobre as variantes do filtro * Texto primitivo (Béroul): eficácia limitada a três anos. * Thomas de Inglaterra: minimiza o maravilhoso, apresenta amor como afeição espontânea desde a cena do banho. * Eilhart, Gottfried e maioria: eficácia ilimitada do vinho mágico. * Significância dessas variantes para a interpretação. * Consumação da falta e continuação da missão * A falta é consumada, mas Tristão mantém compromisso com o rei. * Conduz Isolda a Marco, apesar da traição. * Branguena substitui Isolda na primeira noite nupcial, salvando a honra da ama e expiando seu erro. * Denúncias, exílio e reconciliação provisória * Barões felões denunciam o amor ao rei Marco. * Tristão é banido. * Usando nova artimanha (cena do pomar), convence o rei de sua inocência e retorna à corte. * Armadilha do nain Frocine e descoberta do adultério * Nain Frocine, cúmplice dos barões, semeia flor de trigo entre as camas. * Tristão, ao pular para ver Isolda antes de partir, reabre ferida na perna. * Marco e barões encontram sangue na flor; prova do adultério. * Isolda entregue a leprosos, Tristão condenado à morte. * Fuga de Tristão (cena da capela); resgate de Isolda; retiro na floresta de Morrois. * Vida na floresta e perdão aparente * Três anos de vida áspera e dura na floresta. * Marco os surpreende dormindo; espada nua entre os corpos sugere castidade. * Rei comovido, poupa-os, troca a espada de Tristão pela sua real. * Cessação do filtro e arrependimento * Após três anos (em Béroul), filtro perde efeito. * Só então Tristão se arrepende, Isolda sente saudades da corte. * Procuram o eremita Ogrin; Tristão oferece devolver Isolda ao rei. * Marco promete perdão; amantes se separam à aproximação do cortejo. * Despedida e estratagema de Isolda * Isolda suplica que Tristão permaneça no país para assegurar-se de seu bom tratamento. * Última artimanha feminina: ela declara que voltará a ele ao primeiro sinal, nada podendo detê-la. * Encontros clandestinos e julgamento de Deus * Encontros secretos na casa de Orri, o guarda-florestal. * Barões vigiam virtude da rainha. * Isolda exige e obtém julgamento de Deus para provar inocência. * Subterfúgio: jura nunca ter estado nos braços de homem algum, exceto do rei e do mendigo (Tristão disfarçado) que a ajudou a desembarcar. * Supera a prova do ferro em brasa. * Casamento de Tristão com Isolda das Mãos Brancas * Novas aventuras afastam Tristão; ele crê que Isolda o esqueceu. * Casa-se, além-mar, com Isolda das Mãos Brancas, por seu nome e beleza. * Deixa-a virgem, arrependido, pois ainda ama Isolda, a Loura. * Ferimento mortal e morte dos amantes * Tristão é ferido mortalmente, novamente envenenado. * Manda chamar Isolda, a Loura, única capaz de curá-lo. * Ela vem; barco traz vela branca como sinal de esperança. * Isolda das Mãos Brancas, por ciúme, mente a Tristão dizendo que a vela é negra. * Tristão morre. * Isolda, a Loura, chega, sobe ao castelo, beija o corpo do amante e morre. ==== Enigmas ==== * Destruição do encanto e revelação de uma estrutura equívoca * Resumo frio do poema revela que sua premissa e progressão não são desprovidas de ambiguidade. * Episódios acessórios omitidos, mas motivos centrais da ação destacados. * Esses motivos se reduzem a poucas coisas: fidelidade cavaleiresca, cessação do filtro, casamento por nome e beleza. * Primeira contradição enigmática: a não imposição do direito do mais forte * Observação de um editor: Tristão é fisicamente superior a todos, incluindo o rei Marco. * Nenhuma força externa poderia impedi-lo de raptar Isolda e seguir seu destino. * Os costumes da época santificam o direito do mais forte, especialmente sobre uma mulher. * Por que Tristão não exerce esse direito? * A espada da castidade na floresta: ato sem motivação explícita * Amantes já pecaram, não se arrependem, não preveem a surpresa do rei. * Nenhuma versão oferece razão para colocar a espada nua entre os corpos. * Ato permanece inexplicado no texto. * Devolução de Isolda ao rei mesmo com o filtro ativo * Nas versões onde o filtro ainda age, por que Tristão a devolve? * Se é arrependimento sincero, por que prometem se reencontrar no ato da separação? * Por que Tristão se afasta para novas aventuras se têm encontro marcado na floresta? * O julgamento de Deus: proposta temerária e triunfo por blasfêmia * Por que a rainha culpada propõe um julgamento de Deus, prova que deveria condená-la? * Triunfa apenas por uma artimanha improvisada in extremis. * A narrativa sugere que Deus é enganado, pois o milagre ocorre. * Consequência lógica ignorada: retorno possível após a inocência comprovada * Com o julgamento superado, Isolda é considerada inocente, logo Tristão também. * Nada mais se oporia ao retorno de Tristão à corte, próximo de Isolda. * Esta possibilidade lógica não é explorada nem comentada. * Silêncio dos poetas sobre atos moralmente indefensáveis * Poetas do século XIII, exigentes com honra e fidelidade, deixam passar sem comentário ações condenáveis. * Como apresentam Tristão como modelo de cavalaria, mesmo traindo seu rei com ardis cínicos? * Como apresentam Isolda como dama virtuosa, sendo adúltera e blasfema? * Por que tratam de criminosos os barões que defendem a honra do rei, se estes não mentiram nem traíram? * Questionamento da validade dos próprios motivos alegados * Se a fidelidade ao soberano exige que Tristão entregue a noiva, por que esses escrúpulos são tardios e pouco sinceros, dado que ele não cessa de tentar retornar a Isolda? * O filtro que cessa de agir: destinado aos esposos, por que ter duração limitada? Três anos é pouco para a felicidade conjugal. * O casamento com Isolda das Mãos Brancas: nada obriga Tristão a este casamento nem à castidade que impõe. * Ele se coloca numa situação sem saída senão a morte.