====== Cavalaria versus Casamento ====== DRAO * Refutação da interpretação anacrônica amor versus dever * Comentador moderno vê no romance um conflito corneliano entre amor e dever. * Interpretação anacrônica que abusa de Corneille e ignora contexto histórico específico. * Ignora oposição fundamental que surge no século XII entre regra cavaleiresca e costumes feudais. * Reflexão da oposição cavalaria-feudalismo nos romances bretões * Romances bretões refletem e cultivam essa oposição. * Cavalaria cortês provavelmente mais um ideal que realidade; autores lamentam sua decadência mesmo em seu nascimento. * Essência do ideal: lamentar decadência no momento mesmo de tentativa de realização. * Função do romance: opor ficção de um ideal de vida a realidades tirânicas. * Hipótese explicativa: conflito entre cavalaria e sociedade feudal * Muitas enigmas do romance sugerem busca de solução nessa direção. * Hipótese: a aventura de Tristão ilustra conflito entre cavalaria e sociedade feudal, portanto entre dois deveres, duas religiões. * Vários episódios se iluminam; mesmo que não resolva todas dificuldades, afasta significativamente a solução. * Diferença fundamental: romance bretão versus canção de gesta * Romance bretão suplanta canção de gesta rapidamente na segunda metade do século XII. * Diferença: atribui à mulher o papel antes reservado ao suserano. * Cavaleiro bretão se declara vassalo de uma Dama eleita, mas permanece vassalo de um senhor. * Conflitos de direito resultantes disso abundam no romance. * Exemplo dos barões criminosos: dois códigos em conflito * Segundo moral feudal, vassalo deve denunciar ao senhor tudo que lese seu direito ou honra; omitir é felonia. * No romance, barões denunciam Isolda ao rei Marco; deveriam ser considerados fiéis. * Autor os trata de criminosos em virtude de outro código: o da cavalaria do Sul. * Decisão das cortes de amor da Gasconha: criminoso é quem revela segredos do amor cortês. * Escolha consciente pela cavalaria cortês contra direito feudal * Exemplo dos barões demonstra escolha consciente dos autores pela cavalaria cortês. * Outras razões corroboram: concepção de fidelidade e casamento segundo o amor cortês explica contradições. * Amor cortês como reação à anarquia feudal no casamento * Tese oficial: amor cortês nasce como reação à anarquia brutal dos costumes feudais. * Casamento no século XII era oportunidade de enriquecimento e anexação de terras via dote ou herança. * Repúdio fácil usando pretexto de incesto (parentesco ao quarto grau), com Igreja complacente. * Amor cortês opõe a isso uma fidelidade independente do casamento legal, fundada apenas no amor. * Incompatibilidade entre amor e casamento segundo o amor cortês * Amor cortês chega a declarar amor e casamento incompatíveis (famoso julgamento da corte da condessa de Champagne). * Se Tristão e o autor compartilham essa visão, felonia e adultério são não apenas desculpados, mas glorificados. * Expressam fidelidade intrépida à lei superior do donnoi (relação de vassalagem entre amante-cavaleiro e sua Domina). * Glorificação da fidelidade cortês e humilhação do casamento * Romance não perde ocasião de rebaixar instituição social do casamento, humilhar o marido (rei com orelhas de cavalo, facilmente enganado). * Glorifica virtude daqueles que se amam fora e contra o casamento. * Traço curioso: oposição à satisfação e posse total * Fidelidade cortês se opõe não só ao casamento, mas à satisfação plena do amor. * Citação: Não sabe verdadeiramente de donnoi quem deseja posse total de sua dama; isso não é mais amor, que se torna realidade. * Isso ilumina episódios como espada da castidade, retorno de Isolda após floresta, casamento branco de Tristão. * Explicação do ato de entregar Isolda ao rei * Direito da paixão moderno permitiria a Tristão raptar Isolda após beberem o filtro. * Ele a entrega a Marco porque regra do amor cortês se opõe a que tal paixão se torne realidade, isto é, leve à posse total. * Tristão escolhe observar fidelidade feudal, máscara e cúmplice enigmática da fidelidade cortês. * Escolha livre, pois sendo mais forte, poderia impor direito da força no plano feudal. * Interrogação sobre a preferência pelo que obstaculiza a paixão * Amor estranho que se conforma às leis que o condenam para melhor se conservar. * De onde vem preferência pelo que dificulta paixão, impede felicidade, separa e martiriza os amantes? * Dizer é vontade do amor cortês não responde à questão de fundo: por que preferir esse amor ao que se realiza e satisfaz? * Limite da hipótese: recuo da solução final * Hipótese do conflito de religiões permite precisar e circunscrever principais dificuldades da trama. * Contudo, no fim, a solução apenas é recuada; questão fundamental permanece aberta.