====== 5 Além do homem ====== //DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la philosophie. Paris: Presses Universitaires de France, 1962. / Nietzsche e a filosofia. Tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Cordeiro. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976. / Nietzsche e a filosofia. Tradução de Thomaz Tadeu. São Paulo: n-1 edições, 2018.// **1) O niilismo** * No termo niilismo, nihil não significa o não-ser, mas um valor de nada assumido pela vida quando esta é negada e depreciada por uma ficção que lhe opõe algo, sendo a ideia de um outro mundo suprassensível — com Deus, a essência, o bem, o verdadeiro — não um exemplo entre outros, mas o elemento constitutivo dessa ficção que exprime sempre uma vontade de negar, e não uma negação da própria vontade, como supunha equivocadamente Schopenhauer ao falar de "nada de vontade". * Num segundo sentido mais corrente, o niilismo não designa mais uma vontade, mas uma reação: nega-se a existência das próprias valores superiores, restando apenas a vida já depreciada, agora sem sentido nem finalidade, rolando para seu próprio nada — sendo esse niilismo reativo, pessimismo da fraqueza fundado na vida reativa pura e simples, derivado e dependente do primeiro sentido, o niilismo negativo fundado na vontade de negar como vontade de potência. **2) Análise da piedade** * A cumplicidade fundamental entre a vontade de nada e as forças reativas consiste em que a primeira tolera e necessita da vida reativa como meio pelo qual a vida é levada a se negar; mas triunfantes, as forças reativas passam a suportar cada vez menos esse mentor e testemunha, preferindo antes se extinguir passivamente a continuar sendo conduzidas por uma vontade que ainda lhes é exterior — daí o niilismo passivo como extremo desdobramento do niilismo reativo. * Essa mesma história se conta de outra forma: Deus morre de piedade, tolerância pelos estados de vida próximos de zero, amor pela vida fraca e reativa que anuncia e concede a vitória final aos pobres e impotentes; o homem reativo, incapaz de suportar tal piedade e tal testemunha, mata Deus para se colocar em seu lugar, tornando-se ele mesmo fonte de valores reativos — adaptação, progresso, felicidade para todos —, até chegar ao último dos homens, que prefere não querer mais nada a ser ainda movido por uma vontade que o ultrapassa. * Ao longo de toda essa história — niilismo negativo, reativo e passivo —, o que não muda é a perspectiva niilista da qual derivam tanto os valores quanto sua ausência, sendo por isso que Nietzsche pode considerar o niilismo não como um evento na história, mas como o próprio motor da história universal do homem, jalonada pelo judaísmo, cristianismo, reforma, livre pensamento e ideologias democrática e socialista. **3) Deus está morto** * A fórmula "Deus está morto" não é uma proposição especulativa sobre a existência lógica de Deus, mas uma proposição dramática e sintética que relaciona a ideia de Deus ao tempo, ao devir e à história, fazendo a vida e a morte dependerem das forças que entram em síntese com essa ideia — pergunta-se então quem morre e quem mata Deus, pois "quando os deuses morrem, morrem sempre de várias mortes". * ** A morte de Deus comporta múltiplos sentidos correspondentes a diferentes momentos históricos da consciência: * Do ponto de vista do niilismo negativo, momento da consciência judaica e cristã, a consciência do ressentimento apresenta dois aspectos entrelaçados — o ódio universal à vida e o amor particular por uma vida doente e reativa —, sendo o primeiro sentido da morte de Deus o Deus judeu que mata seu Filho para torná-lo independente das próprias premissas judaicas, criando assim um Deus cosmopolita "para todos". * O Deus cristão é o Deus judeu tornado cosmopolita: na cruz morre o velho Deus e nasce o novo, órfão, que refaz um pai à sua imagem — Deus de amor, ainda que esse amor permaneça o da vida reativa — sendo esse o segundo sentido, no qual o Pai morre e o Filho nos refaz um Deus. * São Paulo se apodera dessa morte e a interpreta de modo a constituir o cristianismo propriamente dito: o Cristo teria morrido por nossos pecados, e sua ressurreição torna a vida reativa a única eleita de Deus, mudando a direção do ressentimento judaico para a má consciência cristã, na qual o amor se torna princípio e o ódio, sua mera consequência. * Do ponto de vista do niilismo reativo, momento da consciência europeia, o homem reativo não tolera mais nem mesmo a piedade divina, sufocando o próprio Deus que o ama demasiado, substituindo a vontade divina pela vida reativa erigida como Homem-Deus. * Do ponto de vista do niilismo passivo, momento da consciência búdica, o verdadeiro Cristo, despido das falsificações paulinas, seria antes uma espécie de Buda — sem ressentimento nem espírito de vingança, ensinando à vida reativa a morrer serenamente —, tendo antecipado num meio pouco propício aquilo que o cristianismo só alcançará ao final de uma longa e terrível política de vingança: a extinção do niilismo. **4) Contra o hegelianismo** * Diferentemente de seus predecessores, Nietzsche não acredita nessa morte de Deus como evento dotado de sentido em si mesmo, desconfiando de todo romantismo e de toda dialética que celebram a reconciliação do homem com Deus ou sua substituição por ele, pois um acontecimento precisa de silêncio e tempo para que forças lhe deem finalmente uma essência determinada — ao contrário de Hegel, para quem o tempo apenas revela o que já estava contido em si na própria essência do evento. * A dialética confunde interpretação com o simples desenvolvimento do sintoma não interpretado, ignorando de que forças e volições concretas derivam sujeito e predicado, universal e particular — daí seu recurso constante à oposição, ao desenvolvimento da contradição e à sua solução, quando na verdade a diferença é o único princípio real de gênese, produzindo a oposição apenas como aparência; assim, tanto a má consciência quanto o rapport entre cristianismo e judaísmo só se compreendem pelos mecanismos diferenciais subjacentes, e não pela oposição que lhes serve de mera fachada. * A dialética anuncia a reconciliação do Homem e de Deus ou a substituição de um pelo outro, mas em ambos os casos o que não muda são os termos extremos — sempre a vida reativa e sempre a vontade de nada —, mudando apenas o termo médio que oscila entre sujeito e predicado; assim toda a dialética se move nos limites das forças reativas, evoluindo inteiramente dentro da perspectiva niilista, sendo ela mesma a ideologia natural do ressentimento e da má consciência, pensamento fundamentalmente cristão incapaz de criar novas maneiras de pensar ou sentir. **5) Os avatares da dialética** * Stirner ocupa um lugar extremo na história da dialética por ter recuperado a pergunta "Quem?" contra Hegel, Bauer e Feuerbach, mostrando que o Eu não é mais o Homem ou a essência humana do que era Deus ou a essência divina, sendo a simples permutação entre Homem e Deus incapaz de escapar ao trabalho do negativo que sempre responde: "ainda não és Tu". * O motor especulativo da dialética é a contradição e sua solução, mas seu motor prático é a alienação e sua supressão pela reapropriação, sendo Stirner quem revela essa verdade no próprio título de sua obra ao mostrar que toda instância reapropriadora anterior — espírito objetivo, consciência de si, ser genérico — permanece ela mesma uma forma de alienação, restando apenas o Eu único como propriedade final, ainda que esse Eu se revele, em última análise, um Eu que não é nada, dissolvendo toda a dialética e a história num niilismo triunfante. * Marx tenta deter esse deslizamento fatal aceitando a descoberta de Stirner sobre a dialética como teoria do Eu, mas denunciando o Eu stirneriano como abstração do egoísmo burguês, elaborando em seu lugar a doutrina do eu condicionado pelas relações históricas e sociais — permanecendo em aberto se essa solução realmente deteve a dialética ou apenas marcou uma última etapa, a etapa proletária, antes do desfecho niilista comum a toda a linhagem hegeliana. **6) Nietzsche e a dialética** * Toda a obra de Nietzsche está dirigida contra o caráter teológico da filosofia alemã, contra a incapacidade dessa filosofia de sair da perspectiva niilista em suas diversas formas (Hegel, Feuerbach, Stirner), e contra sua incapacidade de chegar a algo além do Eu, do homem ou dos fantasmas do humano — sendo Stirner o revelador que leva a dialética às últimas consequências, mas que, por ainda pensar nas categorias de propriedade e alienação, se lança ele mesmo no nada que escava sob os passos da dialética. * A tarefa positiva de Nietzsche é dupla — o super-homem e a transvaloração —, opondo-se tanto à conservação do homem quanto à mera apropriação ou reapropriação dialética: o super-homem nada tem em comum com o ser genérico dos dialéticos nem com o Eu, definindo-se por uma nova maneira de sentir, pensar e avaliar que não é mudança de valores, mas mudança no próprio elemento do qual deriva o valor dos valores — uma verdadeira transvaloração. **7) Teoria do homem superior** * O livro IV de Zaratustra apresenta os personagens do homem superior — o adivinho, os dois reis, o homem das sanguessugas, o encantador, o último papa, o mais feio dos homens, o mendigo voluntário e a sombra —, através dos quais se revela a ambivalência fundamental desse tipo: ao mesmo tempo ser reativo do homem que se diviniza e imagem da atividade genérica ou produto da cultura. * ** Cada personagem exprime facetas particulares dessa ambivalência entre reação triunfante e atividade genérica desviada: * O adivinho representa o niilismo passivo, profeta do último dos homens que deseja apenas uma extinção passiva; o encantador é a má consciência, o falsário que fabrica seu próprio sofrimento para espalhar a contaminação; o mais feio dos homens encarna o niilismo reativo, tendo voltado seu ressentimento contra o próprio Deus que matou, sem nunca deixar de ser reativo. * Os dois reis representam os costumes e os dois extremos da cultura, desesperados diante do triunfo de uma "populaça" que desvia a atividade genérica tanto em seu princípio quanto em seu produto; o homem das sanguessugas representa o produto da cultura como ciência, que se identifica ao objeto que estuda em vez de conhecê-lo verdadeiramente; o último papa representa o produto da cultura como religião, servo fiel de um Deus já morto; o mendigo voluntário busca em vão o reino dos céus entre ricos e pobres, encontrando-o apenas na ruminação das vacas; a sombra é a própria atividade genérica em busca perdida de seu princípio e seu fim. * Cada personagem do homem superior comporta esses dois aspectos em proporção variável — representante das forças reativas triunfantes e representante da atividade genérica e de seu produto —, o que explica por que Zaratustra ora os trata como inimigos que lhe armam ciladas, ora como hóspedes quase companheiros de uma empreitada semelhante à sua. **8) O homem é essencialmente "reativo"?** * Se por um lado Nietzsche apresenta o triunfo das forças reativas como constitutivo da essência do homem e da história universal, por outro fala de mestres, de uma atividade genérica humana e de um indivíduo livre e soberano como produtos apenas desviados pelas forças reativas — contradição aparente que só se resolve considerando que o que constitui o homem não é um tipo particular de forças, mas o devir-reativo de todas as forças em geral, exigindo sempre a presença prévia da qualidade contrária que nele se converte. * Os "visitantes" de Zaratustra são chamados de natureza "falhada" no sentido mais forte: não é que o homem não alcance o objetivo do homem superior, mas o próprio objetivo é falho por natureza, assim como o produto da atividade genérica é malogrado não por acidente, mas pela própria natureza dessa atividade — a dialética, movimento da atividade enquanto tal, é ela mesma essencialmente malograda, coincidindo o devir-reativo do homem com o próprio movimento das reapropriações dialéticas. * A razão pela qual essa atividade genérica malogra necessariamente está em que, separada de uma potência de afirmar que constituiria o devir-ativo, ela não pode senão se tornar reativa ou se voltar contra si mesma, faltando-lhe sempre a qualidade capaz de manifestar sua superioridade; por isso, quando Zaratustra trata os homens superiores como hóspedes, isso se explica apenas pela piedade — última tentação que poderia fazê-lo morrer como Deus morreu de piedade pelo homem —, revelando-se assim uma diferença de natureza entre o projeto meramente ativo do homem superior e a transmutação afirmativa buscada por Zaratustra. * Falta ao homem, mesmo ao homem superior, o elemento da afirmação propriamente dionisíaca, expresso simbolicamente de quatro maneiras: a incapacidade de rir, jogar e dançar; a adoração do asno como um deus superior, presságio confuso daquilo que os supera; o símbolo da sombra que necessita da luz como instância mais alta; e a distinção entre os dois cães de fogo, um deles mera caricatura reativa do outro, verdadeiramente afirmativo. **9) Niilismo e transmutação: o ponto focal** * O reinado do niilismo, seja nos valores superiores à vida, nos valores reativos que os substituem, ou no mundo sem valores do último dos homens, é sempre o mesmo elemento de depreciação que se manifesta e se disfarça sob formas variadas — a transmutação não consiste em mudar de valores, mas em mudar o próprio elemento do qual deriva o valor dos valores, substituindo a depreciação pela apreciação e a negação pela afirmação como qualidade da vontade de potência. * A transmutação constitui o niilismo consumado por três razões principais: primeiro, porque só ao mudar o elemento dos valores se destroem radicalmente todos os que dependiam do velho elemento negativo; segundo, porque a negação é a ratio cognoscendi da vontade de potência — é através do niilismo que a conhecemos —, enquanto a afirmação, sua face desconhecida, é a ratio essendi dessa mesma vontade, de modo que a transmutação converte a razão de conhecer na razão de ser. * A terceira razão, mais sutil, distingue o "último dos homens", que prefere extinguir-se passivamente, do "homem que quer perecer", produto de uma seleção que ultrapassa aquele estágio: quando as forças reativas rompem com a vontade de nada, esta rompe por sua vez com elas e passa a inspirar uma destruição ativa, ponto de conversão em que a negação se torna potência de afirmar, sendo esse "ponto decisivo" ou "meia-noite" o momento em que o niilismo, levado ao extremo, se vence a si mesmo. **10) A afirmação e a negação** * ** A transmutação implica seis operações interligadas na vontade de potência: * Mudança de qualidade: as valores deixam de derivar do negativo e passam a derivar da afirmação, mudando o próprio lugar e a natureza do elemento avaliador, sem que sobre espaço para outro mundo. * Passagem da ratio cognoscendi à ratio essendi: pensamos a vontade de potência tal como ela é, e não apenas tal como a conhecemos através do niilismo. * Conversão do elemento: o negativo se torna potência de afirmar, subordinando-se à afirmação e passando a serviço de um excedente de vida, ao invés de conservar o que é reativo. * Reino da afirmação: apenas a afirmação subsiste como potência independente, dela emanando e nela se resolvendo o negativo como um relâmpago que se apaga. * Crítica dos valores conhecidos: todos os valores conhecidos até hoje perdem seu valor, sendo essa destruição total a consequência inseparável da afirmação soberana. * Inversão do rapport de forças: a afirmação constitui um devir-ativo universal em que todas as forças se tornam ativas, sendo as forças reativas negadas. * A afirmação e a negação se opõem como duas qualidades irredutíveis da vontade de potência: a negação constitui o próprio homem e faz de todo o conhecido um niilismo, enquanto a afirmação só se manifesta acima do homem, no super-homem que produz — sendo este, como espécie superior de tudo o que existe, aquilo que expulsa definitivamente o negativo, tal como proclama Zaratustra em sua bênção incondicional a todas as coisas. * Ainda assim, a afirmação pura não se realiza sem duas negações que lhe são inseparáveis: a destruição ativa de todos os valores conhecidos, marca do criador, e a destruição do homem que deseja ser superado, anúncio do próprio criador — sendo essas negações não potências autônomas, mas manifestações da própria potência de afirmar, distintas do falso "sim" do asno, que nunca sabe dizer não e por isso permanece a serviço do negativo que carrega sem questionar. * Contra todo pensamento que se apoia na potência do negativo como motor — o ressentimento, a má consciência do cristão, ou mesmo a atividade genérica que precisa de duas negações para concluir numa falsa positividade —, Zaratustra opõe a afirmação pura, que basta a si mesma para produzir as duas negações necessárias como simples modos de seu próprio ser: à célebre positividade do negativo hegeliano, Nietzsche opõe sua descoberta fundamental — a negatividade do positivo. **11) O sentido da afirmação** * Na litania do asno, cantada pelo mais feio dos homens, mistura-se o pressentimento correto de que a afirmação é o que falta aos homens superiores com o contrassenso de tomar a paciência submissa e a incapacidade de dizer não como sinais dessa mesma afirmação — pois o asno e o camelo, imperméáveis a qualquer sedução, sentem como positividade do real o simples peso dos fardos que carregam, confundindo a positividade da vida com o peso mesmo imposto pelo niilismo. * Essa afirmação como assunção do real é, na verdade, uma afirmação de consequência, resposta fiel ao espírito de pesadez e a todas as suas exigências: o asno recolhe todos os produtos do niilismo, carrega-os pelo deserto e os batiza de "o real tal como é", primeiro sob a figura de Cristo que carrega os fardos mais pesados, depois sob a do livre-pensador que se apropria de tudo o que lhe foi imposto como se fossem suas próprias forças — mas em ambos os casos permanecendo uma falsa positividade, o deserto do niilismo disfarçado de realidade. * Nietzsche dirige sua crítica contra toda concepção que faz da afirmação uma simples função do ser ou do que é, seja esse ser concebido como verdadeiro, real, nouménico ou fenomênico: desde Hegel, cujo ser puramente pensado se afirma apenas passando ao seu próprio contrário niilista, até Feuerbach, que substitui a verdade abstrata pela verdade sensível sem, contudo, livrar essa "realidade tal como é" de conservar todos os atributos do niilismo como predicado do divino. * Nietzsche afirma, contra tudo isso, três teses fundamentais: que o ser, o verdadeiro e o real são avatares do niilismo, manifestações de uma vontade que deprecia a vida; que a afirmação concebida como assunção do que é constitui uma falsa afirmação, o "sim" do asno que na verdade diz sim a tudo que é não; e que essa falsa concepção da afirmação é ainda uma forma de conservar o homem, pois é sob o sol desse "ser" que ele melhor se conserva, sonhando com uma extinção passiva no deserto — vivendo, ao contrário, ser avaliar, e criar valores novos ser aliviar a vida em vez de sobrecarregá-la, tarefa que ultrapassa as forças do próprio homem, restrita ao leão que apenas se liberta para criações futuras, mas não ainda ao super-homem que verdadeiramente cria. **12) A dupla afirmação: [[f>a:ariadne|Ariadne]]** * A afirmação não tem por objeto senão a si mesma, sendo ela própria o ser enquanto é seu próprio objeto: como afirmação primeira ela é devir, mas se torna ser apenas como objeto de uma segunda afirmação que eleva o devir ao ser — sendo essa duplicação necessária da potência de afirmar expressa simbolicamente pela águia e a serpente amigas de Zaratustra, e sobretudo pelo casal divino Dionísio-Ariadne. * Ariadne, abandonada por Teseu (imagem do homem superior heroico incapaz de desatrelar os fardos), sente aproximar-se uma transmutação própria que a torna a Anima afirmativa, a segunda afirmação que toma a primeira afirmação dionisíaca por objeto — sendo o eterno retorno, nesse sentido, um anel nupcial, espelho de núpcias que aproxima ao máximo o devir e o ser através dessa reflexão redobrada. * O labirinto, imagem recorrente em Nietzsche, designa primeiro o inconsciente, depois o próprio eterno retorno circular, e mais profundamente o devir enquanto afirmação primeira cujo ser só emerge quando essa afirmação se torna objeto de uma segunda afirmação — o fio de Ariadne, que outrora servia aos valores morais junto de Teseu, torna-se agora o próprio fio da afirmação quando Dionísio lhe revela seu verdadeiro segredo. * Afirmação e negação não têm relação unívoca: a oposição é a essência do negativo, enquanto a diferença é a essência do afirmativo, sendo esta posta primeiramente como múltiplo, devir e acaso, e depois redobrada quando uma segunda afirmação a toma por objeto, elevando o devir ao ser, o múltiplo ao um, o acaso à necessidade — sendo esse retorno, esse "voltar", o próprio ser da diferença enquanto tal, ou o eterno retorno. **13) [[f>d:dionisio|Dionísio]] e Zaratustra** * A lição do eterno retorno é que não há retorno do negativo, pois o ser é seleção: só retorna o que afirma ou é afirmado, sendo a reprodução do devir também a produção de um devir-ativo, o super-homem, filho de Dionísio e Ariadne — ensinamento especulativo cuja clareza prática consiste em mostrar que o múltiplo, o devir e o acaso não contêm negação alguma, sendo a diferença pura afirmação e alegria, continuando assim, depois de Lucrécio e Espinosa, a grande empreitada crítica de denunciar tudo o que se alimenta da tristeza e do ressentimento. * A transmutação designa precisamente o ponto em que o negativo é convertido, perdendo sua potência autônoma e passando a ser mera maneira de ser das potências afirmativas — não mais trabalho da oposição, mas jogo guerreiro da diferença; e é justamente essa transmutação dos valores que define essencialmente Zaratustra, cujo trajeto pelo negativo (seus enjoos e tentações) não serve como motor, mas como caminho até o ponto em que todo negativo é vencido ou transmutado. * Toda a história de Zaratustra se resume em sua relação com o demônio, espírito do negativo que ora se faz carregar pelo homem sugerindo que o peso é a própria positividade, ora salta por cima do homem retirando-lhe toda força e vontade — sendo com Zaratustra, e não com o demônio, que a negação perde sua potência própria, tornando-se o não sagrado do leão criador, condição para a última metamorfose em criança afirmativa. * Zaratustra e Dionísio mantêm uma relação complexa: Zaratustra é causa condicional do eterno retorno e pai do super-homem, mas Dionísio é o princípio incondicionado do qual Zaratustra mesmo depende, sendo Ariadne a noiva incondicionada de Dionísio enquanto Zaratustra é apenas noivo condicional de Ariadne — de modo que todo conceito nietzschiano, incluindo o riso, o jogo e a dança, situa-se no cruzamento dessas duas linhagens genéticas desiguais: uma que remete a Zaratustra como potência de transmutação, outra que remete a Dionísio como potência de reflexão e desenvolvimento da afirmação em sua mais alta potência. **Conclusão** * A filosofia moderna apresenta amálgamas perigosos entre ontologia e antropologia, ateísmo e teologia, misturando espiritualismo cristão, dialética hegeliana, fenomenologia e fulgurações nietzschianas numa roda que celebra indevidamente a suposta convergência entre Marx e os pré-socráticos, Hegel e Nietzsche — sendo necessário romper essas alianças perigosas e reconhecer que não há compromisso possível entre Hegel e Nietzsche. * A filosofia de Nietzsche constitui uma antidialética absoluta dirigida contra três ideias fundamentais que definem a dialética: o poder do negativo como princípio teórico manifesto na oposição e contradição; o valor da tristeza e das paixões tristes como princípio prático manifesto na cisão e no dilaceramento; e a positividade como produto teórico e prático da própria negação. * A dialética reflete uma imagem invertida da diferença, substituindo a afirmação da diferença pela negação do que difere, a afirmação de si pela negação do outro, a afirmação da afirmação pela célebre negação da negação — inversão que só ganha sentido prático porque exprime as combinações das forças reativas com o niilismo: o ressentimento precisa de duas premissas negativas para produzir um fantasma de afirmação, o ideal ascético precisa do ressentimento e da má consciência como cartas marcadas, sendo a dialética, em suma, a ideologia propriamente cristã e a expressão da vida reativa e do escravo. * A grandeza de Nietzsche está em ter isolado essas duas plantas, ressentimento e má consciência, mas sua polêmica deriva de uma instância mais profunda, ativa e afirmativa: contra os dialéticos, presos à questão abstrata "O que é...?" e incapazes de alcançar as forças e a vontade que dão sentido aos sintomas, Nietzsche cria seu próprio método dramático, tipológico e diferencial, fazendo da filosofia a arte de interpretar e avaliar através da pergunta "Quem?" — sendo esse Quem sempre Dionísio, e o "o que" sempre a vontade de potência como princípio plástico e genealógico da afirmação múltipla. * Que o múltiplo, o devir e o acaso sejam objeto de afirmação pura constitui o sentido último da filosofia de Nietzsche: o verdadeiro lance de dados produz necessariamente o número vencedor que reproduz o próprio lance, afirmando-se o acaso e sua necessidade, o devir e seu ser, o múltiplo e seu uno — sendo o eterno retorno essa potência mais alta, síntese da afirmação que encontra na Vontade seu princípio, opondo a leveza do que afirma ao peso do negativo, os jogos da vontade de potência ao trabalho da dialética, e a afirmação da afirmação a essa célebre negação da negação. * A negação aparece, é certo, como qualidade da vontade de potência, mas apenas como a face sob a qual ela nos é conhecida, já que o próprio conhecimento é expressão das forças reativas — sendo por isso que a história do homem é a história do niilismo, até que este alcance seu ponto final, onde a negação se volta contra as próprias forças reativas: aí reside a transmutação, momento em que o negativo perde sua potência própria e passa a servir apenas como manifestação das potências de afirmar, restando ao final apenas a afirmação como única qualidade da vontade de potência, a ação como única qualidade da força, e o devir-ativo como identidade criadora entre potência e vontade. {{tag>Deleuze Nietzsche Zaratustra}}