====== Pico della Mirandola ====== //«Journal of the History of Ideas», III (1942), pp. 123-144; 319-346.// **A filosofia de Pico della Mirandola e seu lugar na história universal das ideias** 1. A originalidade de Pico della Mirandola reside menos na ruptura com a tradição do que na capacidade de tornar manifesta a unidade permanente da verdade através da diversidade de seus testemunhos históricos, conferindo à multiplicidade aparentemente caótica de suas novecentas teses uma orientação intelectual comum. 2. A busca da paz filosófica conduz Pico a reconhecer uma contribuição positiva nas diferentes tradições clássicas, cristãs, árabes e judaicas, distinguindo seu universalismo da defesa ficiniana do predomínio platônico e fazendo da diversidade das vozes históricas a condição de manifestação da harmonia da verdade. 3. A extraordinária amplitude dos conhecimentos de Pico suscita a questão de saber se sua tentativa de conciliar doutrinas heterogêneas constitui uma filosofia sistematicamente fundamentada ou apenas uma combinação intelectual incapaz de preservar as diferenças e evitar contradições. 4. A interpretação tradicional de Pico como pensador eclético ou sincrético persiste mesmo nas investigações que reconhecem sua capacidade de elaboração pessoal, deixando em aberto o problema de determinar se a reunião de fontes diversas possui uma unidade filosófica efetiva. 5. A identificação de uma forma interior na obra de Pico exige demonstrar que sua diversidade doutrinal corresponde a posições determinadas nas controvérsias metafísicas, gnosiológicas e éticas, pois somente essa determinação permite reconhecer nela uma contribuição propriamente filosófica. 6. A compreensão sistemática de Pico depende de revelar a concatenação oculta entre suas doutrinas, reconduzindo suas fontes heterogêneas a motivos fundamentais unidos por vínculos intelectuais e lógicos, sem lhes impor categorias contemporâneas que destruam sua configuração histórica particular. **1. Unidade e multiplicidade — Deus e universo** 1. A relação entre a unidade absoluta da causa primeira e a multiplicidade dos seres constitui uma dificuldade fundamental da metafísica e da teologia, pois a dependência integral do múltiplo parece exigir sua absorção no Uno, enquanto sua autonomia introduziria uma limitação incompatível com a perfeição absoluta. 2. A derivação racional da multiplicidade a partir do Uno parece implicar uma diminuição ou um acréscimo de perfeição no absoluto, contradição que, desde Parmênides, acompanha as tentativas filosóficas de conciliar unidade e pluralidade, permanência e transformação. 3. A especulação cristã modifica o problema grego da origem da multiplicidade ao fundamentar a existência do universo em um ato livre da vontade divina, cuja realidade é assegurada pela revelação, embora sua razão não possa ser deduzida dos princípios do entendimento humano. 4. A doutrina da criação a partir do nada procura conciliar a unidade divina e a multiplicidade do mundo mediante a dependência absoluta das criaturas, excluindo qualquer substrato preexistente que limite a ação de Deus e distinguindo radicalmente a criação divina da atividade humana de dar forma a materiais recebidos. 5. A emanação explica a multiplicidade como desdobramento necessário da natureza do Uno por uma hierarquia contínua de seres, estrutura neoplatônica que, especialmente através do Pseudo-Dionísio, fornece a Pico um modelo fundamental para sua metafísica, teologia e cosmologia. 6. A formação intelectual de Pico incorpora desde seus estudos em Pádua a influência do averroísmo, especialmente por intermédio de Elias del Medigo, conservando uma admiração por essa tradição que não implica a aceitação de todas as suas conclusões. 7. O averroísmo substitui o problema teológico da criação e o problema metafísico da emanação pela investigação racional de um universo eterno, no qual o devir consiste na transformação incessante das formas em uma matéria sem início e Deus exerce a função de primeiro motor. 8. A força histórica do averroísmo decorre de sua capacidade de sustentar uma física relativamente autônoma diante dos pressupostos teológicos, oferecendo uma interpretação racional dos fenômenos naturais cuja autoridade resiste às condenações eclesiásticas e às críticas humanistas. 9. A conciliação pichiana entre criação, emanação e naturalismo árabe torna-se compreensível pela centralidade do conhecimento simbólico, que transforma essas doutrinas em expressões parciais de uma verdade única e permite interpretar a multiplicidade como manifestação do Uno, preservando simultaneamente o pensamento especulativo e a espiritualização dos dogmas religiosos. 10. A proximidade intelectual entre Pico e Nicolau de Cusa manifesta-se na articulação entre douta ignorância, coincidência dos opostos e conhecimento simbólico de Deus, associação cuja coerência ultrapassa a simples presença de antecedentes neoplatônicos comuns. 11. A afinidade entre Pico e Nicolau de Cusa torna especialmente significativa a diferença entre os caminhos pelos quais desenvolvem seus pressupostos compartilhados, revelando orientações filosóficas distintas a partir de problemas comuns. 12. A filosofia cusana atribui aos símbolos matemáticos uma precisão superior que permite o conhecimento analógico de Deus e favorece uma nova compreensão da natureza, na qual a atividade intelectual precisa realizar-se mediante sua relação com a percepção sensível e a experimentação. 13. A orientação de Pico distingue-se da matemática e do empirismo cusanos porque mantém os números e as figuras subordinados à interpretação metafísica e à mística numérica, enquanto sua contribuição para a emancipação da astronomia nasce da defesa especulativa da liberdade humana. 14. A busca pichiana de um conhecimento oculto e não sensível de Deus e da alma limita sua aproximação da ciência empírica, mas intensifica a investigação da interioridade e torna possível a formulação de seu ideal original de liberdade humana. **2. A ideia do microcosmo e a “dignidade do homem”** 1. A dignidade humana não se explica pela simples reunião dos elementos do universo em um microcosmo, mas pela condição singular de um ser que não recebe uma forma definitivamente prescrita e deve produzir a si mesmo mediante a escolha livre de sua própria maneira de existir. 2. A semelhança humana com Deus deixa de constituir uma determinação recebida de uma vez por todas e torna-se uma tarefa de autoconstituição, cujo cumprimento depende da atividade livre pela qual o homem conquista seu próprio ser. 3. A liberdade humana constitui o princípio organizador da metafísica, da psicologia, da teologia, da ética e da filosofia natural de Pico, conferindo à sua oração sobre a dignidade do homem um alcance sistemático que ultrapassa sua excelência literária e sua importância como documento renascentista. 4. A aplicação pichiana da douta ignorância e da coincidência dos opostos ao mundo histórico reconhece em cada época um direito próprio de interpretar e renovar a herança recebida, fazendo da liberdade uma busca incessante da verdade que preserva a continuidade da tradição sem conceder a nenhum momento histórico uma superioridade absoluta. 5. A defesa da liberdade de investigação conduz Pico ao conflito com a autoridade eclesiástica, pois sua reverência pelos Padres e pela escolástica não elimina o direito de duvidar e contradizer suas proposições, reconhecendo também na fé uma história pela qual sua verdade se manifesta. 6. A independência de Pico diante do humanismo decorre da recusa de identificar a humanidade com uma única época ou com a elegância da linguagem, subordinando o valor das palavras à investigação filosófica das coisas e reconhecendo a contribuição própria de cada período para a história do espírito. 7. A intervenção pichiana na controvérsia entre platonismo e aristotelismo procura substituir a rivalidade sectária por uma investigação imparcial, tratando Platão e Aristóteles como expressões distintas de possibilidades humanas que devem ser compreendidas segundo critérios equivalentes. 8. A concórdia filosófica de Pico fundamenta-se no direito e no dever de cada indivíduo buscar livremente a verdade, excluindo a coerção intelectual e religiosa e reconhecendo nas diferenças entre pensadores a expressão de personalidades espirituais cuja compreensão deve preceder o julgamento crítico. 9. A liberdade humana permanece ativa mesmo diante do pecado, porque nenhuma condição moral constitui um estado definitivamente concluído e nenhuma queda elimina a possibilidade de regeneração, o que permite a Pico defender a autotransformação incessante do homem e rejeitar a eternidade das penas por faltas cometidas em um tempo finito. 10. A capacidade humana de assumir formas diversas adquire em Pico um valor positivo que inverte a preferência metafísica pela imutabilidade, pois a mudança livremente produzida exprime a grandeza de um ser capaz de determinar suas metas e formar a si mesmo, diferentemente das coisas naturais submetidas passivamente a causas exteriores. 11. A concepção do homem como artífice de si mesmo confere à arte uma dignidade espiritual fundada na liberdade criadora, permitindo compreender a produção de formas como manifestação intensificada da atividade pela qual a humanidade constitui seu próprio mundo. 12. A temporalidade e a historicidade humanas deixam de representar apenas submissão à caducidade, porque a história constitui o conjunto das formações espirituais produzidas livremente pelo homem, cuja transformação exprime uma atividade própria em vez de um destino imposto exteriormente. 13. A afinidade de Pico com o averroísmo limita-se à defesa racional da investigação e à universalidade da ciência, enquanto sua doutrina da liberdade rejeita o determinismo naturalista e a concepção de um intelecto cósmico separado que reduziria a individualidade a um efeito passageiro da matéria. 14. A universalidade da razão realiza-se somente nos atos livres dos indivíduos, cujas obras constituem o mundo da ciência, da arte e da religião e estabelecem, por sua continuidade entre as gerações, a realidade histórica da humanidade. 15. A liberdade criadora permite reconhecer uma afinidade positiva entre o homem e Deus sem eliminar a transcendência divina, pois a diferença infinita na extensão de suas obras não exclui uma comunidade qualitativa no ato de criar. 16. A unidade da verdade impede Pico de adotar a separação averroísta entre fé e ciência, porque a diversidade das interpretações históricas e individuais deve ser compreendida como diferenciação interna de uma mesma verdade, e não como coexistência de verdades independentes ou contraditórias. 17. A pluralidade dos centros cósmicos encontra um equivalente espiritual na multiplicidade dos sujeitos e das épocas que expressam uma verdade comum, preparando uma concepção de unidade na diversidade cuja elaboração posterior culmina na monadologia e na harmonia preestabelecida de Leibniz. **3. A filosofia natural de Pico e sua polêmica contra a astrologia** 1. A filosofia natural de Pico funda-se em um vitalismo universal que compreende o cosmos como uma totalidade animada e vinculada por simpatias, interpretando a natureza como uma razão ainda inconsciente cujo sentido se manifesta plenamente no espírito humano. 2. A magia legítima consiste no conhecimento e na articulação das forças imanentes à natureza, permitindo reunir seres e potências separados segundo suas afinidades e dirigir sua ação comum sem recorrer à intervenção de poderes demoníacos. 3. A crítica pichiana da astrologia exige substituir presságios e correspondências simbólicas pela investigação das forças naturais concretas, especialmente da luz e do calor, criando uma tensão aparente com o uso amplo da interpretação alegórica e cabalística em sua teologia. 4. A distinção entre necessidade natural e liberdade espiritual resolve essa tensão ao reservar a interpretação simbólica às produções humanas e a investigação causal ao mundo físico, rejeitando a astrologia divinatória por confundir significados com causas e por submeter a autodeterminação humana aos movimentos celestes. 5. A superação pichiana do fatalismo astrológico nasce da convicção de que a dignidade e as realizações humanas dependem da vontade e do desenvolvimento ativo das capacidades pessoais, de modo que o primado do espírito rompe o temor dos astros e contribui decisivamente para a emancipação posterior do pensamento científico. 6. A filosofia de Pico possui uma unidade própria que impede reduzi-la a um mosaico sincrético, pois sua fidelidade à herança escolástica convive com um novo ideal de liberdade cuja influência atravessa a religião, a filosofia natural, a estética e o idealismo moderno, revelando progressivamente a coerência de suas doutrinas aparentemente heterogêneas. {{tag>Cassirer Renascença Pico}}