====== 14 Mundo perdido ====== //BRAGUE, Rémi. La sagesse du monde: Histoire de l'expérience humaine du cosmos. Paris: Fayard, 1999.// 1. A humanidade do homem não é apenas um dado bruto, mas uma tarefa a realizar por uma prática que leva esse dado à excelência, de modo que a incidência da cosmologia sobre a antropologia é inseparavelmente ética, embora nada demonstre que as reviravoltas cosmográficas tenham impedido alguém de agir corretamente ou que o modelo pré-moderno tenha afastado alguém do vício, como mostram Sherlock Holmes e o professor Moriarty, e embora se possa fundar a moral sem recorrer à estrutura do mundo físico, como Epicuro, Kant e o próprio Aristóteles, cuja ética quase não menciona fenômenos cosmológicos. **Exigências cosmológicas da ética** 1. A visão moderna do mundo tem, contudo, uma consequência importante para a experiência moral do homem, pois sua presença no mundo fica desprovida de pertinência ética, o que não é grave por impedir de fundar a ética numa cosmologia, já que nunca se pode tirar uma norma de uma descrição, nem pela retórica fácil do desamparo do homem na natureza, já sobriamente evocado por Marco Aurélio. 2. O que incomoda é já não se saber que relação existe entre a ética e o fato de o homem estar no mundo, pois, se é possível organizar um domínio habitável numa natureza hostil ou muda e definir regras de coexistência pacífica elevadas a princípio supremo, já não se sabe por que é moralmente bom que haja homens no mundo e que continue a havê-los, se sua existência vale os sacrifícios que custa à biosfera, aos pais e a eles mesmos, de modo que o grave não é a ética carecer de fundamento cosmológico, mas a cosmologia e a antropologia carecerem de fundamento ético. 3. A Antiguidade quase não perguntou por que o homem é ao mesmo tempo ético e situado no mundo, pois a resposta estava dada com a natureza ética do mundo, que encoraja a sabedoria em vez de contrariá-la, e a questão só aflora claramente em Plotino contra os gnósticos, que contestavam a bondade do mundo, ao perguntar como o todo, no qual é possível possuir a sabedoria e viver aqui segundo as coisas de lá, não testemunharia sua dependência das realidades superiores, questão transcendental sobre o que deve ser o mundo para que a sabedoria nele seja possível. 4. Essa questão permanece fundamental, e, desmoronado o pilar físico da ponte que o pensamento clássico estendia entre a busca moral do bem e sua presença maciça num cosmos ordenado, é preciso buscar outro conceito de mundo, não mais físico, que exprima o próprio modo como o homem está e vive no mundo. **O mundo humanizado** 1. Uma primeira tentativa consiste em reconhecer, ao lado do mundo natural ou criado, um mundo humano, segundo a ideia medieval de uma atividade criadora humana que imita a de Deus, recusada pela Antiguidade, como em Dion Crisóstomo, e surgida na teoria da arte de Nicolau de Cusa antes de florescer na teoria da pintura renascentista, sobretudo em Leonardo da Vinci. 2. Chamar de mundo o que o homem cria só se torna possível quando se negligencia a diferença entre real e imaginário, equiparando a reconstituição intelectual da estrutura do mundo à sua produção efetiva ou falando de um mundo dos poetas, como o mundus fabulosus de Baumgarten, de modo que o clichê do poeta criador, que culmina no romantismo de Shelley com a ideia do poema como segundo mundo ou heterocosmo, depende de muitas decisões conceituais modernas. 3. A linguagem há muito chama de mundo a comunidade humana, mas só Vico elevou esse uso a conceito, estabelecendo um paralelo estrito entre a história humana e o universo físico, pois o mundo civil, feito pelos homens, pode ser conhecido por eles como Deus conhece o mundo natural que fez, e os filósofos erraram ao buscar a ciência da natureza, reservada a Deus, negligenciando a do mundo das nações. 4. Marx amplia a perspectiva de Vico ao fazer do homem, por seu trabalho, o criador de um mundo objetivo em que se afirma como ser genérico, e censura Feuerbach por não ver que o mundo sensível é produto histórico da indústria e da atividade de gerações, mas mundo designa nele a natureza ou a terra, e, por fecunda que seja sua concepção da relação entre homem e natureza, ele não se interroga sobre a mundanidade do mundo como tal. 5. Entre os que se reclamaram de Marx, um suposto materialismo realista resulta num idealismo prático, pois o espírito revolucionário tende a julgar o homem capaz de refazer o mundo, compensando pela capacidade de destruir a ordem existente a impressão de ser quantidade desprezível no universo, como no expressionismo alemão de Ludwig Rubiner, que proclama o homem criador e centro do mundo e afirma que o Ser não existe e que somos nós que fazemos tudo, num antropocentrismo literal. 6. Orwell caricatura essa atitude no diálogo em que O'Brien, contra a objeção da pequenez humana e da distância das estrelas, sustenta que nada existe fora da consciência humana, que as estrelas são fragmentos de fogo ao alcance do homem e que a terra é o centro do universo, exprimindo o sentido da prática revolucionária, que sente como limite insuportável as realidades naturais irreformáveis e chega a um idealismo extremo, como na teoria nazista do mundo oco, revertendo a revolução copernicana ao preço do esquecimento voluntário de tudo o que não se reduz ao mundo que pretende criar, sendo as estrelas o recurso constante como garantia última de uma realidade independente. **O mundo inteligível** 1. Kant foi provavelmente quem voltou a fazer do mundo objeto de interrogação, já na Dissertação de 1770, que vê na totalidade absoluta a cruz dos filósofos por jamais poder ser dada, o que desloca o conceito de mundo do domínio da contemplação, em que estava desde a Antiguidade, para o do pensamento, deixando de ser objeto de experiência. 2. A Crítica da razão pura destrói a cosmologia racional de Wolff ao mostrar que ela resulta em antinomias, e, como todas as ideias transcendentais exigem uma totalidade absoluta e merecem o nome de conceitos cósmicos, o mundo é apenas um caso particular desse caráter cósmico das ideias da razão, restritas no domínio teórico a um uso regulador. 3. Kant afasta a razão pura de sua escapada teórica para devolvê-la a seu domínio autêntico, prático e ético, onde as ideias se tornam legisladoras, inclusive a de mundo, cujo verdadeiro sentido é o mundo dos espíritos, como pressente a linguagem comum ao chamar de conhecimento do mundo a experiência dos homens, intuição que Kant aprofunda fundando-a na liberdade. 4. O mundo físico é incapaz de corresponder ao conceito de mundo, e Kant opera o desacoplamento capital que liberta a ideia de mundo da física e a faz entrar no domínio ético como mundo inteligível, ideia antiga ausente em Platão e distinta do outro mundo cristão, mas presente em Fílon e em Plotino, que a vincula à subjetividade ao afirmar que esse mundo está em nós e que somos ele, embora só depois de Kant se possa pensar como tal o caráter mundano do edifício das ideias. 5. As três ideias expulsas do uso especulativo pela dialética transcendental recuperam seus direitos no ponto de vista moral, inclusive a de mundo, pois a visada do soberano Bem, exigida pelo respeito à lei moral, conduz à ideia cosmológica de um mundo inteligível e à consciência de nossa existência nele, que a razão especulativa só podia pensar problematicamente. 6. O mundo físico não oferece base sólida para chegar a Deus, pois saber se é o melhor dos mundos possíveis exigiria uma exploração interminável, ao passo que o mundo moral, o reino dos fins, é dado de uma vez como o único possível, e a lei moral em mim me representa num mundo de verdadeira infinitude, perceptível só pelo entendimento, ao qual me sei ligado de modo universal e necessário, e não contingente. 7. Retomando a imagem antiga do anfíbio e suas reflexões juvenis sobre Swedenborg, Kant afirma que pertencemos a dois mundos, mas diante do abismo entre a harmonia física e a desordem da história só pode esboçar uma reconciliação por meio da filosofia da história e da estética, servindo a beleza do mundo apenas como símbolo da moralidade. 8. A nova determinação do conceito de mundo resolve a questão de nossa presença nele, pois, se nossa presença no universo físico é contingente, vestígio talvez do lançamento gnóstico ou do naufrágio epicurista, nossa pertença ao mundo moral é necessária, e o conceito de homem que funda a antropologia é redefinido, já que a moral concerne não a certo tipo de animal, mas a todo ser racional, que, sendo finito, experimenta a lei como algo exterior. **O conceito fenomenológico de mundo** 1. Heidegger propõe em outro estilo um aprofundamento análogo do conceito de mundo, partindo não da relação perceptiva com as coisas, que não é primeira, mas da relação de uso com utensílios, de modo que o mundo é objeto de uma experiência de habitação, de presença total, e o conceito de mundo se torna constitutivo da subjetividade. 2. A análise heideggeriana do mundo estende-se por cerca de dez anos, começando pelo mundo circundante e pelo verbo forjado mundear, e chegando à ideia de que a vida é essencialmente marcada pelo caráter de mundo, pois nossa vida fática é nosso mundo, vive sempre em direção a um mundo e encontra-se num mundo da vida, sendo o mundo a categoria fundamental do conteúdo do fenômeno da vida. 3. Ser e tempo oferece uma primeira síntese com a análise do ser-no-mundo, que não é uma categoria do disponível, mas um existencial do Dasein, distinguindo o mundo da natureza, com a qual toda a ontologia passada o confundiu, pois a natureza é um ente que se encontra no interior do mundo, ao passo que o mundo é um caráter do próprio Dasein. 4. Da essência do fundamento aprofunda a análise ao sustentar que o Dasein só pode existir porque sua constituição essencial reside no ser-no-mundo, sendo errôneo entender mundo como totalidade das coisas naturais ou como comunidade dos homens, pois o essencial metafísico de kosmos, mundus e mundo está em visar a interpretação da existência humana em sua relação com o ente em sua totalidade, pertencendo o mundo à ipseidade. 5. O curso de 1929-1930 leva mais longe a análise do mundo por meio da comparação entre a pedra sem mundo, o animal pobre de mundo e o homem formador de mundo, tese esta que permanece programática, e o pensamento de Heidegger só voltará depois à questão do mundo indiretamente e em outro nível. 6. Também nessa ótica, de modo tão radical quanto em Kant, o conceito de homem é repensado e subtraído a toda antropologia a partir da presença no mundo, concebido desde o lá do Dasein, cuja existência é atribuída ao homem como tarefa e fardo mais próprio a assumir para tornar-se o que é, o que aproxima Heidegger da moral kantiana e permite interpretar seu conceito de mundo como generalização do conceito kantiano, pertencendo o mundo em ambos ao domínio prático. **O mundo subjetivo** 1. O conceito de mundo para o qual se orienta a filosofia contemporânea corresponde ao que se visa ao dizer que a criança vem ao mundo ou que morrer é deixar o mundo, expressões surgidas com a entrada das representações judaicas e cristãs na cultura grega, pois, segundo Heidegger, foi com o cristianismo que o mundo do si passou a ser vivido como tal, e certas línguas derivam a palavra mundo da ideia de duração de vida ou idade do homem, como as germânicas, segundo etimologia mencionada por Schelling. 2. Vir ao mundo e deixá-lo significa em geral entrar e sair da companhia dos homens, mas também conduz a uma totalidade e dela se despede, sentimento formulado por Montaigne, para quem nosso nascimento traz o de todas as coisas e nossa morte trará a morte de todas, e por Pascal, que, mais incisivo, desloca a totalidade para o sujeito ao afirmar que cada um é um todo para si mesmo, de modo que o caráter total das coisas que faz delas um mundo depende de nossa mortalidade ou de sua antecipação. 3. A totalidade que faz um mundo não é obtida por síntese nem é quantitativa, pois é dada de imediato, precede e torna possível todo percurso da multiplicidade e subsiste em cada ponto dele, sem relação com a quantidade ínfima de objetos experimentados, de modo que a mundanidade do mundo não vem dele, mas de nós. 4. Relacionar a ideia de mundo com a antropologia não significa trocar o infinito do universo pela intimidade do ambiente, pois ao nascer entramos naquilo que contém tanto nosso berço quanto as nebulosas mais distantes, nem refugiar-se na subjetividade abandonando os objetos concretos, mas mostrar que o verdadeiro mundo está do lado do sujeito e que o universo dos objetos não satisfaz os requisitos do conceito de mundo, não sendo ainda suficientemente mundano para o homem. 5. A ideia de mundo implicou desde sua formulação grega como kosmos uma antropologia determinada, desenvolvida na Antiguidade e na Idade Média em antropologia cosmológica ou cosmologia antropológica, desfeita na época moderna e passível de se refazer e até se estreitar, mas ao preço de uma dupla reformulação das ideias de mundo e de homem, pensadas em sua pertença recíproca. {{tag>Brague mundo perdição}}