====== Ensaios III ====== //BOUVERESSE, Jacques. Essais III. Marseille : Montréal: Agone ; Comeau & Nadeau, 2003.// **Apresentação** **Notas da redação** **Prefácio do autor** **Os problemas filosóficos e o problema da filosofia** * «Não existe um método, mas terapias» * «Dizei o que quiserdes!» * Problemas e soluções em filosofia * O olhar e a catarse * Nem lógico… * … nem filósofo da ciência… * … nem filósofo da linguagem * O Tractatus e os filósofos * Tradição e revolução em filosofia * A descontinuidade entre filosofia e ciência * Uma abordagem estética? **O que pode a filosofia? A crítica e o combate** * «A filosofia só é útil contra o filósofo que existe em nós» * A filosofia não é uma ciência superior * O «paradoxo de Wittgenstein»: a significação pode determinar o uso? * A crítica e a invenção **Wittgenstein, a linguagem e a filosofia** * Wittgenstein era um filósofo da linguagem? * A teoria da linguagem como imagem da realidade * A linguagem como sistema e como cálculo * A autonomia da gramática e a arbitrariedade das regras * O «paradoxo de Wittgenstein» e a mitologia das regras * A significação é o uso * O futuro da teoria da significação é o de uma ilusão? **Saber, crer e agir** * Leis científicas e «princípios da natureza» * A «superstição» causal e o princípio da indução * A certeza e a dúvida * A crença, a ação e a vida **«A figuração me diz a si mesma…»: a teoria da imagem na filosofia de Wittgenstein** * A teoria da reprodução e o atomismo lógico no Tractatus * Gênese e significação da teoria * O «fantasma do Tractatus» * Anexo **A «causalidade» das razões** * Causas e razões da crença * As razões são causas de um tipo especial? * Causas e motivos * A crítica de Davidson * O problema da «irracionalidade motivada» **Os «enigmas do tempo»** * Assimetria do tempo e assimetria dos processos no tempo * Existe um «fluxo do tempo» e uma «flecha do tempo»? * O tempo físico e o tempo da memória * A propósito de algumas questões que não têm resposta ---- **Prefácio** 1. Obras recentes passaram a sugerir, e por vezes a afirmar abertamente, algo antes rejeitado como escandaloso, a saber, que o que os filósofos dizem talvez não tenha a importância que a tradição lhes atribui e possa mesmo ser desprovido de sentido, enquanto ao mesmo tempo se proclama um renascimento próspero da filosofia, situação que, como já observava Musil, não constitui contradição, mas dois aspectos de um mesmo fenômeno, misturar filosofia a tudo e não dar na prática importância alguma ao que ela diz. 2. A situação torna-se mais preocupante quando os próprios professores de filosofia, pagos para crer em sua importância, começam a perguntar seriamente se ela é tão real quanto se pensa, se a consideração que lhe é devida na cultura francesa se justifica e se seu ensino deve ser imposto a todos os alunos do secundário, questões distintas, ceticismo sobre a filosofia e dúvidas sobre seu ensino, mas que nessas obras se misturam em inquietações e desilusões. 3. Quem ousa formular essas questões tabus raramente se interessa pelo que já disseram Wittgenstein ou o Círculo de Viena contra as pretensões e ilusões da filosofia tradicional, mas a evolução das coisas talvez tenha tornado essa concepção deflacionista menos inaceitável, de modo que suas perguntas encontram um eco indireto nos que, decepcionados pela prática e pelo ensino da disciplina, a acusam de prometer muito mais do que pode cumprir. 4. O prestígio atual de Wittgenstein na França é um paradoxo, pois, quase tão célebre quanto Heidegger e abundantemente traduzido e comentado, ele é ao mesmo tempo desconhecido, não só do grande público, mas da maioria dos filósofos profissionais, figurando na lista das celebridades filosóficas sem ter saído da dos autores menores e marginais, conhecido sobretudo pelo que o torna inclassificável, e se, segundo Anscombe, ele é o protótipo do filósofo para filósofos, há agora um Wittgenstein para todos, tido como o verdadeiro e o mais importante. 5. As cinquenta razões para amar Wittgenstein enumeradas por um número do Magazine littéraire de 1997 nada têm a ver com sua contribuição filosófica, e assemelham-se às que se encontram por toda parte, como sua personalidade excepcional e biografia fascinante, seu pessimismo de feitio schopenhaueriano, seu desprezo pela instituição filosófica, sua ridicularização das pretensões da filosofia em proveito da literatura e sua antipatia pela civilização científica e técnica, que permitiram reintegrá-lo com honras ao campo dos defensores dos verdadeiros valores. 6. Em tudo isso pouco se ouve falar de sua obra filosófica, da revolução que operou, das razões de sua importância e dos difíceis problemas de interpretação que suscita, e embora ele tenha dito que a filosofia foi toda a sua vida, os livros cada vez mais numerosos e notáveis sobre sua filosofia são ignorados pela crítica ou acusados de ocultar o essencial, que deveria ser buscado onde as uvas são mais acessíveis e menos verdes. 7. O caso Wittgenstein presta-se de modo paradoxal e quase ideal à transformação de um filósofo para filósofos num filósofo para não filósofos, pois sua relação de liberdade e ruptura com a tradição e sua forma aforística encorajam a tratá-lo como autor sem condições de acesso, e sua própria complexidade o expõe às reduções mais grosseiras, servindo a sociólogos e historiadores com pretensões filosóficas que se instalam num lugar indefinível entre as duas disciplinas, a salvo das sanções de ambas. 8. Ainda mais inquietantes são as reduções que o transformam num não filósofo para não filósofos, como as explicações psicobiográficas de pretensão universal pelos tormentos, pela obsessão da loucura, pela judeidade ou pela homossexualidade, cuja sedução não se deve à importância do que explicam, quase nula, mas à capacidade de se tornarem explicações eliminativas que fazem desaparecer o conteúdo de uma filosofia em favor de coisas mais excitantes. 9. Os ensaios deste terceiro volume, escritos ao longo de trinta anos, tratam da ideia que Wittgenstein fazia da filosofia e de exemplos do uso de seu método em problemas determinados, sendo central a dificuldade de compreender como a filosofia pôde ser para ele uma atividade tão importante e tão distante da ideia que dela fazem seus praticantes, pois ter perdido a auréola de disciplina cognitiva superior não significa para ela carecer de necessidade, utilidade ou ambição, já que ele esperava dela transformações reais, ao menos naqueles que a praticam. 10. Mais que qualquer outro filósofo, Wittgenstein perguntou-se se sua maneira de praticar a filosofia não a reduziria a uma atividade trivial, e respondeu que a importância da filosofia é da mesma natureza que a da linguagem, cujo lugar na existência e cujo domínio sobre os modos de pensar e agir em parte refletem e em parte determinam a forma de vida, de modo que só se pode ser seduzido por seu procedimento estando convencido da importância suprema da linguagem, que de certo modo é tudo. 11. Não basta admitir que por trás dos problemas filosóficos há apenas confusão e névoa linguísticas, é preciso fazer o trabalho nada espontâneo nem fácil de dissipá-las, e nada desfigura mais seu empreendimento que concentrar-se em suas posições metafilosóficas negligenciando o trabalho filosófico efetivo, pois qualificar de contrassenso o que dizem os filósofos nada resolve, e se a filosofia consiste em passar de um contrassenso não evidente a um evidente vencendo resistências especiais, o pior engano é o do homem avisado que se julga dispensado desse esforço, já que o que Wittgenstein propõe não incita à preguiça, mas a um trabalho de dificuldade particular e resultado incerto. 12. A pergunta prioritária em filosofia é como considerar um problema para que se torne solúvel, e se no início dos anos 1930 Wittgenstein julgava possuir um método capaz de resolver os problemas de modo prático, mais tarde restou apenas o princípio de que as dificuldades filosóficas nascem de analogias enganosas entre expressões que funcionam de modo diferente, com a insistência em que cada caso é novo, em que a incerteza desce até as raízes, inclusive quanto ao que é um problema filosófico, característica essencial que distingue as questões filosóficas das científicas. 13. Em filosofia é preciso recomeçar sempre do zero, sem apoio em resultados adquiridos, pois enquanto as ciências naturais constroem hierarquicamente sobre saberes confirmados, a filosofia é plana, como sugere a metáfora da paisagem que o viajante deve percorrer em todos os sentidos para obter uma representação sinóptica, sem olhá-la do alto nem buscar princípios profundos, já que quem enfrenta uma dificuldade filosófica não sabe absolutamente onde está e deve estar pronto a tentar algo radicalmente novo, sendo a solução imprevisível e, por isso, difícil de reconhecer quando encontrada. 14. A oposição, na filosofia da matemática, entre quem vê o matemático como descobridor de uma realidade preexistente e quem o vê como inventor de conceitos, na qual Wittgenstein se situa do segundo lado, aplica-se também à natureza dos problemas filosóficos, que para ele não são descobertos, mas inventados, cabendo ao filósofo criador fazer existir um problema onde não havia nenhum, embora seja difícil ainda hoje compreender exatamente o que ele visa ao pensar contra a filosofia e o espírito filosófico de sua época e em que medida as ideias que ataca estão efetivamente ameaçadas. 15. Diferentemente do descobridor, que deve dar uma representação correta e completa de um território inacessível ao olhar comum, o inventor, movido por preocupações mais estéticas, precisa tornar plausíveis o sentido e o fim de seu projeto, mostrando que ele serve a um objetivo que os homens querem atingir, já que muitas utopias filosóficas foram rejeitadas não por dúvidas sobre seu funcionamento, mas pelo medo de que funcionassem, problema constante para Wittgenstein, cuja dificuldade principal não era convencer de que seu projeto é realizável, mas persuadir a querer realizá-lo contra a tendência natural. 16. O filósofo inventor, sem a preocupação do descobridor com o absoluto, o objetivo e o exaustivo, é um tipo inteiramente moderno, que Wittgenstein encarna de modo exemplar, tendo os inventores ganhado papel decisivo desde Kant, figura-chave do conflito entre descobridores, que invocam sua sistematicidade e objetividade, e inventores, que exploram a espontaneidade e as capacidades construtivas do intelecto, ascensão acompanhada de uma mudança no papel dos problemas filosóficos, com a filosofia tornando-se problema para si mesma e valorizando a articulação exata de seus problemas, em torno dos conceitos de historicidade e de linguagem. 17. O vínculo especial dos problemas filosóficos com a linguagem, um dos aspectos mais conhecidos e menos compreendidos da filosofia de Wittgenstein, não reduz sua importância à das questões de linguagem em geral, mas é justamente a fonte de sua especificidade, profundidade, importância e dificuldade, assim como o chiste gramatical parece conter uma profundidade especial e ser mais filosófico que muitas proposições de filósofos. 18. O conceito de historicidade ocupa um lugar igualmente essencial na concepção wittgensteiniana dos problemas filosóficos, pois se após o Tractatus ele julgava tê-los resolvido definitivamente, mais tarde não apenas duvidaria disso, mas perguntaria o que são os problemas, que não estão desde sempre à espera de formulação como pensam os descobridores, nem se transmitem necessariamente de geração em geração, podendo ser esquecidos por mudanças externas à filosofia, sendo afetados, como os jogos de linguagem, por contingência e imprevisibilidade fundamentais. 19. Há também problemas permanentes, ao menos virtuais, porque a linguagem conserva as mesmas armadilhas e falsas vias tentadoras, o que explica a impressão de que a filosofia não progride, já que o progresso desejado seria eliminar essas armadilhas, o que não faz sentido, mas há igualmente uma multidão de problemas imprevisíveis criados por novos conceitos, conhecimentos e práticas, que só podem ser enfrentados quando surgem, de modo que a filosofia não tem futuro determinado nem fim imaginável, e suas doenças podem ser tratadas, mas não erradicadas. 20. Nem todos os problemas filosóficos são importantes por serem filosóficos, nem todos os que se poderiam pôr devem ser postos, pois muitos só importam por um tempo ou para certos filósofos, sendo problemas apenas em referência a uma certa ideia de filosofia, e os filósofos que se indignam com a expressão pseudoproblemas tratam na prática os problemas das outras confissões filosóficas como não verdadeiros, de modo que talvez seja preciso ir além de Wittgenstein, que ainda fala de uma importância intrínseca dos problemas filosóficos, e admitir que muitos deles são importantes para muitas pessoas, como todos os problemas. 21. O filósofo inventor não se sente obrigado a retomar os problemas de seus predecessores, mas busca resolver os seus com os meios de que dispõe, sem legá-los aos sucessores, e à pergunta sobre se o que faz ainda merece o nome dado ao que fazia Platão responde que há apenas semelhanças, pois filosofia não nomeia uma essência intemporal, mas um complexo de atividades aparentadas que evoluíram historicamente conservando apenas uma orientação comum, uma atividade humana com uma direção e êxito tão incerto quanto o de qualquer outra, o que torna menos obsessiva a pergunta sobre o que é a filosofia, alvo privilegiado da desconfiança de Wittgenstein pelas perguntas do tipo o que é. 22. Alguns dos textos reunidos são antigos e refletem as hesitações de quem penetra pela primeira vez num mundo filosófico sem semelhança com sua formação, escritos numa época em que a suficiência, o dogmatismo e a cegueira do discurso dominante tornavam natural acolher com entusiasmo talvez ingênuo a terapêutica radical de Wittgenstein, tendo-se resistido à tentação de reescrevê-los e limitado as mudanças à reorganização indispensável do material, realizada em grande parte, com a atualização das notas e referências, por Jean-Jacques Rosat. 23. Wittgenstein obriga o praticante da filosofia a considerar sua disciplina e sua tribo de um ponto de vista mais exterior, quase etnológico, e mais objetivo, oscilando entre a impressão de perder algo essencial e o sentimento de que não havia nada de essencial a perder, sendo difícil persuadir-se de que ele destrói no interesse da própria filosofia e nada de importante, e embora se possa pedir à filosofia mais do que ele pede, exigir dela clareza e compreensão em vez de conhecimento já é exigir mais do que ela costuma oferecer, cabendo-lhe melhorar nossos modos de pensar e falar sobre as questões importantes da vida cotidiana, o que provavelmente exige que comece por melhorar seus modos de pensar e falar sobre si mesma. {{tag>Bouveresse Wittgenstein}}