====== COMUNICAÇÃO ====== //BOUGNOUX, Daniel. Sciences de l’information et de la communication. Textes essentiels. Paris: Larousse, 1993.// “A comunicação” é uma expressão mal formada. Se a palavra não existisse, a disciplina mereceria surgir e teria sido necessário inventá-la? O que se ganha em designar com o mesmo termo as trocas de uma ameba com seu ecossistema e a estratégia de uma multinacional? A campanha de um político que disfarça a ausência de um programa com barulho e cores, e uma conversa amorosa? O que há em comum entre o sistema postal e a plumagem das aves? Entre a instalação de trilhos e o envio de um poema? Parece que a extensão ilimitada dos fenômenos associáveis a essa palavra desencoraja a priori qualquer síntese e desqualifica a própria ideia de uma disciplina. Por isso, fala-se em ciências da informação e da comunicação, as SIC, mas esse plural insuperável tem o que desanimar as mentes rigorosas. Isso se traduz na prática pela cacofonia de métodos, sensibilidades, escalas de análise ou linguagens utilizadas. Devemos culpá-la? Nossa interdisciplinaridade ainda está na infância. Ela tem dificuldade em se comunicar consigo mesma e, portanto, em existir plenamente diante das outras disciplinas, das quais ela toma emprestado, que ela seduz com suas promessas (não há comunicação sem sedução) e que ela irrita com seus excessos. Examinaremos aqui como a comunicação chega à razão, ou seja, em que recursos teóricos e em que problemáticas ela pode se apoiar para crescer. Mas também: como ela transforma e enriquece uma razão não inata (segundo o esquema platônico ou cartesiano), mas agora aberta, moldada pelos meios de comunicação disponíveis e pela luta das enunciações. Pois razão e comunicação parecem intimamente ligadas. É por isso que o comércio das TIC com a filosofia não tem nada de anacrônico e funciona nos dois sentidos. A desconcertante ubiquidade das práticas comunicacionais passa facilmente por um efeito da moda: que ator social não é hoje envolvido pela comunicação? “Ser é ser percebido.” A máxima do bispo Berkeley aplica-se particularmente aos responsáveis políticos, às empresas, aos partidos, às escolas, igrejas ou associações, aos intelectuais ou aos artistas..., todos obrigados a aprender as novas regras do jogo sob pena de declínio ou desaparecimento. Ora, a tese do filósofo idealista pode ser relacionada à que domina a obra de Bateson e Watzlawick: não se pode deixar de comunicar, não porque isso seria loucura ou perigoso, mas simplesmente impossível. Daí resulta que a comunicação é assunto de todos e não (consequência tranquilizadora) de um punhado de especialistas; sua competência é dispersa e se confunde com o exercício da democracia. Essa competência comunicacional é certamente distribuída de forma desigual (está longe de todos terem acesso aos grandes meios de comunicação, zelosamente guardados), mas, em graus diversos, é inegável e inalienável em cada um, pois começa com a expressão, que não é apenas linguística. Se é difícil definir positivamente essa aptidão multifacetada, pelo menos podemos, em primeira aproximação, designar seu antagonista: a comunicação se opõe à violência ou ao ruído. E essa alternativa, comunicação ou barbárie, remonta aos gregos, que chamavam de bárbaros (etimologicamente “aqueles que falam por borborigmos ou por ventos do ventre”) aqueles que não articulavam sua linguagem, inaudível ao ouvido grego, e portanto não tinham acesso ao logos, à razão clara. Por mais ingênua que pareça, essa oposição tem o mérito de indicar que a comunicação não admite adversários (exceto o desumano ou o bruto) e que, portanto, não se pode “ser contra”. É por isso que, como explicam Breton e Proulx, a comunicação constitui também a última e a melhor das ideologias ou religiões alternativas: ideologia da conciliação universal, pois não conhece inimigos, a não ser o inevitável demônio do ruído. Reivindicar-se dela equivaleria, portanto, a apelar para a humanidade do outro e para sua razão, no horizonte de uma comunidade compartilhada. Mas esse otimismo tem, é claro, seu reverso, o de camuflar como “simples mal-entendidos” violências muito reais. A luta dos ocupados contra os ocupantes, ou dos oprimidos em geral, não será resolvida por uma melhor comunicação, cuja fraseologia invasiva constitui o ópio do nosso tempo. Cabe à nossa disciplina descrever, sem cair nesses usos banalizados e, por vezes, odiosos. Se os temas da comunicação favorecem um pensamento fraco, as ciências que se reivindicam dela não devem permanecer residuais, nem ser um caldeirão. {{tag>Bougnoux comunicação}}