====== 2.6 Homem ====== //BORNHEIM, Gerd. Brecht: A Estética do Teatro. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1974.// **O jovem Brecht (1918-1933)** **UM HOMEM É UM HOMEM** 1. Em 1926 estreia em Darmstadt a peça Um homem é um homem, em que Brecht vinha trabalhando desde 1924, e como entreato escreve a peça curta O filhote de elefante, que a crítica aproxima do surrealismo por seu subtítulo "A demonstrabilidade de toda e qualquer afirmação". 2. No filhote de elefante, o animal é acusado de assassinar a própria mãe, descobre-se que a mãe está viva e que o filhote nem é dela, mas, não obstante todas as evidências, ele é declarado culpado, e em face do absurdo inicia-se uma luta entre um ator e um espectador, com um cartaz que convida todos à luta de boxe, estando mais uma vez o modelo desse divertimento na competição esportiva. 3. O tema de Um homem é um homem é, entre outros, uma grande transformação: o empacotador Galy Gay sai em busca de peixe, encontra casualmente três soldados que haviam perdido um quarto companheiro na pilhagem de um pagode no Oriente e termina sendo transformado num feroz soldado, passando literalmente a ser Jeraiah Jip até o fim da peça. 4. Trata-se de desmontar um homem, tomar as peças soltas e com elas remontar um outro homem, e em tom declamado, numa fala intercalada, a viúva Begbick proclama a moral da peça, afirmando que com um homem se podem fazer muitas coisas e que aqui se desmonta um homem como um automóvel sem que ele perca o que quer que seja. 5. O texto já flerta com o marxismo, mas pouco, tanto que mais tarde Brecht o submete a pequenas modificações na cena final para deixar claro que a desmontagem de um homem apresenta algo de negativo, como a situação do pequeno-burguês alemão que se transforma em nazista, baseando-se a versão primitiva numa filosofia mais simples. 6. Na mesma época, Brecht escreve que crê que a superfície tem um grande futuro, que nos países cultos não há moda e que é uma honra igualar-se aos antepassados, alegrando-se ao ver que no teatro de variedades as bailarinas são apresentadas de modo sempre mais uniforme e que é agradável que sejam muitas e que se possa trocá-las. 7. A alergia de Brecht pela figura do herói se faz mais uma vez presente, pois Galy Gay não passa de um pequeno oportunista que se dispõe a fazer seu pequeno negócio, apenas um bom representante do homem-massa, e um texto famoso dito por um dos soldados expõe o que pensa o próprio Brecht. 8. Nesse texto, o soldado afirma que, numa perspectiva bastante ampla, trata-se de um acontecimento histórico, pois vai-se olhar a personalidade com uma lente, desmontar um caráter e saber o que ele tem no ventre, e diante de uma máquina o grande homem e o pequeno homem são iguais, sendo tudo relativo e o homem nada, ainda que se encontre no centro, mas relativamente. 9. Vê-se logo que tudo é objeto, e Brecht pretende apenas mostrar o que se passa em nosso estranho mundo e expor esse produto do mundo que é o homem-massa, cabendo mais uma vez ao espectador tirar as suas conclusões, já estando presente o elemento épico, ainda que lhe falte o devido embasamento teórico. 10. Por volta de 1928, numa entrevista a Jehring, Brecht declara que a teoria do drama épico é sua e que experimentaram produzir alguns dramas épicos, tendo ele escrito com a técnica épica Um homem é um homem, Bronnen escrito O expresso do Pólo Leste e a Fleisser feito o mesmo com os seus dramas de Ingoldstadt. 11. Não são a continuidade e a unidade que informam o desenvolvimento da ação dramática, pois os atores interrompem constantemente a ação com o recurso de canções e com explicações intercaladas sobre o sentido do que está acontecendo em cena, combatendo-se assim em todos os níveis o teatro de ilusão. 12. Daí o recurso também a cartazes e a projeções, com Galy Gay antes projetado no fundo e depois em primeiro plano com uma interpretação que deve ser fria e distanciada, e a dicção deve entrar no mesmo jogo, não aproximando a frase do espectador mas afastando-o dela para que ele seja levado a descobrir o sentido da peça. 13. Marianne Kesting dá por certa a influência do drama escolar humanístico do tempo da Reforma, e de certo modo já seria uma peça didática, pois se propõe uma tese à qual segue-se a respectiva demonstração, e pela primeira vez Brecht recorre à fábula e à parábola. 14. Brecht poderia ser quase um inovador a respeito, não encontrasse um escasso antecedente desse recurso que é a fábula no Egmont, de Goethe, que se passa nos Países Baixos do século XVII dentro de uma atmosfera insólita, e Brecht refere o expediente de Goethe e aproxima-o de seu próprio procedimento, estando ao menos um dos critérios na distância geográfica que fornece um pano de fundo de terra estrangeira, passando-se Um homem é um homem na Índia durante a colonização inglesa do princípio do século. 15. Com esse texto, de certa forma, Brecht encerra o seu primeiro ciclo, incluído o Marlowe, sendo cinco textos que são reminiscência de uma era dramatúrgica mais feliz e peças que mostram o grande dilúvio que se abate sobre o mundo burguês. 16. Incluir uma peça do nível de Um homem é um homem entre os exemplos do aprendizado inicial constitui sem dúvida um exagero, mas de agora em diante Brecht vai entregar-se a uma tarefa mais crítica, sempre mais cônscio de uma ideia do que deva ser a dramaturgia e dos meios de pô-la em cena. 17. Costuma-se dizer que Brecht supera com essa peça o expressionismo, que assimilado e submetido a um processo prático de triagem poderá enfim ser superado, e a observação é tão correta quanto parcial, pois Brecht está superando dialeticamente toda a experiência teatral da época, inclusive a dele mesmo, na busca de uma linguagem nova, suprimindo, conservando e superando. {{tag>Bornheim Brecht teatro humano}}