====== 0 Introdução ====== //BLUMENBERG, Hans. Paradigmen zu einer Metaphorologie. Bonn: H. Bouvier & Co., 1960. (Publicado inicialmente no Archiv für Begriffsgeschichte, vol. 6, 1960).// 1. Se a filosofia moderna tivesse seguido o programa metodológico de Descartes até a conclusão definitiva que ele julgava alcançável, esse estado final, definido pela clareza e distinção exigidas pela primeira regra do Discurso do Método, corresponderia a uma terminologia perfeita e puramente conceitual, em que tudo pode e deve ser definido, sem nada logicamente provisório nem moral provisória, e todas as formas de linguagem figurada se revelariam expedientes transitórios destinados a ser superados pela lógica, expressão da mesma precipitação que a primeira regra manda evitar. 2. Chegada a seu estado conceitual final, a filosofia perderia todo interesse legítimo pela história de seus conceitos, cujo valor seria apenas crítico e destrutivo, o de demolir o fardo opaco da tradição que Descartes chama prevenção, correspondente aos ídolos de Bacon, sendo a história mera precipitação e antecipação anuladas pela recuperação metódica da presença atual, o que Vico foi o primeiro a perceber ao opor-lhe uma lógica da fantasia, segundo a qual a clareza e a distinção cartesianas pertencem só ao criador em relação à sua obra, verum ipsum factum, restando aos mortais apenas a clareza do que eles mesmos fizeram, o universo de suas imagens, artefatos, conjecturas e projeções, isto é, da imaginação no novo sentido produtivo desconhecido da Antiguidade. 3. Na tarefa de uma lógica da fantasia insere-se de modo exemplar a discussão da metáfora, antes confinada aos capítulos sobre figuras nos manuais de retórica, classificação nada casual, pois para a Antiguidade o logos era adequado à totalidade do existente e cosmos e logos eram correlatos, de modo que a metáfora não enriquecia os meios expressivos, contribuindo apenas para o efeito persuasivo do discurso, e o orador e o poeta nada podiam dizer que não pudesse ser dito conceitualmente, mudando só o modo; a força da persuasão, experiência elementar da pólis a ponto de Platão apresentar no Timeu a fase decisiva da cosmogonia como persuasão da Necessidade, levou a filosofia a interpretá-la como qualidade da própria verdade, e a subordinação platônica da retórica, selada pelos Padres da Igreja, reduziu seus objetos a armamento técnico da verdade, sem que se perguntasse se a translatio podia fazer mais que despertar prazer, embora as metáforas sempre tenham produzido um excedente expressivo, cabendo à metaforologia detectar a perplexidade lógica que a metáfora supre, mais visível justamente onde a teoria não a admite. 4. A questão fundamental é sob que condições as metáforas podem reivindicar legitimidade na linguagem filosófica, podendo ser, primeiro, resíduos no caminho do mito ao logos, indicadores da provisoriedade cartesiana da situação histórica da filosofia diante do ideal regulador do logos puro, cabendo então à metaforologia desmascarar sua inautenticidade, ou, hipoteticamente, elementos fundadores da linguagem filosófica, translações que resistem à reconversão em propriedade e logicidade, as metáforas absolutas, cuja existência tornaria tarefa essencial de uma história conceitual ampliada determinar e analisar sua função expressiva conceitualmente irresgatável, abalaria a teleologia cartesiana da logicização que define as metáforas residuais, poria em dúvida a equivalência entre linguagem figurada e imprópria, já negada por Vico, que contudo recaiu no esquema cartesiano ao reservar a linguagem da fantasia a uma época anterior, e obrigaria a repensar a relação entre logos e imaginação, vista não mais como substrato a ser convertido em conceitos até se esgotar, mas como esfera catalisadora da qual o universo dos conceitos se renova continuamente sem consumir essa reserva fundadora. 5. No parágrafo 59 da Crítica da Faculdade de Julgar, Kant tematiza sob o nome de símbolo, sem usar o termo metáfora, o procedimento da transposição da reflexão, partindo de que a realidade dos conceitos só se assegura por intuições, por exemplos nos conceitos empíricos, por esquemas nos conceitos puros do entendimento e, nas ideias da razão, às quais nenhuma intuição sensível corresponde adequadamente, por uma representação que só partilha com o referente a forma da reflexão, de modo que seus símbolos, distintos das caracterizações como meros meios de reprodução e ilustrados por exemplos como o pratum ridet de Quintiliano, correspondem quase exatamente às metáforas, e a metáfora absoluta aparece como transposição da reflexão sobre um objeto da intuição para um conceito totalmente diverso, ao qual talvez nenhuma intuição possa corresponder diretamente, modelo de função pragmática que fornece uma regra da reflexão aplicável ao uso da ideia, princípio não da determinação teórica do objeto em si, mas da determinação prática do que sua ideia deve ser para nós, razão pela qual todo conhecimento de Deus é simbólico, evitando antropomorfismo e deísmo, e a metáfora da máquina aplicada ao Estado despótico indica semelhança não entre Estado e moinho manual, mas entre as regras de reflexão sobre ambos e sua causalidade, assunto que, segundo Kant, foi pouco discutido e merece investigação mais profunda. 6. Uma paradigmática metaforológica só pode preparar o terreno para essa investigação mais profunda, delimitando onde se supõe estarem as metáforas absolutas e testando critérios para identificá-las, sendo absolutas apenas por resistirem a pretensões terminológicas e não se dissolverem em conceitualidade, não por não poderem ser substituídas, representadas ou corrigidas por outras, razão pela qual também têm uma história, mais radical que a dos conceitos, pois sua transformação revela a metacinética dos horizontes históricos de sentido e dos modos de ver em que os conceitos se modificam, o que define a relação da metaforologia com a história dos conceitos em sentido terminológico como auxiliar, já que ela busca escavar a subestrutura do pensamento, a solução nutritiva das cristalizações sistemáticas, e mostrar com que coragem o espírito se antecipa em suas imagens e projeta sua história na coragem de suas conjecturas. {{tag>Blumenberg metáfora verdade mito simbolismo}}