zizek:de-socrates-em-diante
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| + | ====== DE SÓCRATES EM DIANTE ====== | ||
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| + | O MELHOR PONTO DE PARTIDA para esboçar o que procuro alcançar na minha obra é Alain Badiou, que começa A verdadeira vida com a afirmação provocativa de que, desde Sócrates, a função da filosofia é corromper a juventude, aliená-la (ou, melhor dizendo, “estranhá-la” no sentido de verfremden de Brecht) da ordem ideológico-política predominante, | ||
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| + | Isso significa que devemos simplesmente escolher um lado nessa disjuntiva entre “corromper a juventude” ou garantir uma estabilidade significativa? | ||
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| + | Vivemos em uma era extraordinária em que não há nenhuma tradição na qual possamos basear nossa identidade, nenhum quadro de universo significativo que nos permita levar uma vida além da reprodução hedonista. Esta Nova Desordem Mundial, esta civilização sem mundo que surge aos poucos, sem dúvida afeta os jovens que oscilam entre a intensidade de viver plenamente (o prazer sexual, as drogas, o álcool, até mesmo a violência) e o desejo de triunfar (estudar, fazer carreira na profissão, ganhar dinheiro... dentro da ordem capitalista existente). A transgressão permanente torna-se assim a norma. Lembremos a encruzilhada atual da sexualidade ou da arte: existe algo mais enfadonho, oportunista ou estéril do que sucumbir à ordem do superego de inventar incessantemente novas transgressões e provocações artísticas (a performance do artista que se masturba no palco ou se corta de forma masoquista, o escultor que exibe cadáveres de animais em decomposição ou excrementos humanos) ou o mandato paralelo de participar de formas de sexualidade cada vez mais “ousadas”? | ||
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| + | A única alternativa radical a essa loucura parece ser a loucura ainda pior do fundamentalismo religioso, um recuo violento para alguma tradição ressuscitada artificialmente. A ironia suprema é que um retorno brutal a algum tipo de tradição ortodoxa (uma inventada, é claro) se apresenta como a “incitação ao pensamento” definitiva: os jovens terroristas suicidas não são a forma mais radical de uma juventude corrupta? A principal tarefa da minha obra é, portanto, discernir essa encruzilhada e encontrar uma saída. | ||
