wolff:wolff-1997-quem-age
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| wolff:wolff-1997-quem-age [28/01/2026 16:03] – mccastro | wolff:wolff-1997-quem-age [17/02/2026 18:34] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== QUEM AGE? (1997) ====== | ||
| + | |||
| + | WOLFF, Francis. Dire le monde. Paris: PUF, 1997 | ||
| + | |||
| + | ==== A questão «quem?» ==== | ||
| + | |||
| + | * A interrogação pelo «quem?» não se distingue meramente da pergunta «o que é?» pela natureza da resposta esperada, mas constitui uma modalidade de inquirição que visa identificar no mundo um ser dotado das mesmas determinações de realidade, determinidade, | ||
| + | |||
| + | * Contudo, a especificidade do «quem?» não se esgota na busca pela singularidade do nome próprio, uma vez que outras questões como «onde?» e «quando?» também visam determinações singulares através de topônimos ou datas; a diferença radical reside no fato de que a resposta ao «quem?» não designa apenas um elemento passível de ser falado, um objeto de discurso isolado no mundo, mas aponta para um ente capaz de ocupar a posição de sujeito da enunciação, | ||
| + | |||
| + | ==== Sujeitos pessoais e predicados de ação ==== | ||
| + | |||
| + | * A constituição das pessoas como entidades distintas das coisas opera-se fundamentalmente através da atribuição de uma classe específica de predicados, os predicados de ação, que não descrevem meros eventos que ocorrem a um sujeito, mas atos causados por ele; um ato define-se, nesta perspectiva, | ||
| + | |||
| + | * O enunciado de imputação, | ||
| + | |||
| + | ==== A necessidade da imputação ==== | ||
| + | |||
| + | * A necessidade de postular a existência de pessoas e atos não deriva de uma constatação empírica neutra, mas impõe-se como a condição de possibilidade de todo discurso prático e, especificamente, | ||
| + | |||
| + | * O discurso ético e jurídico pressupõe, portanto, a validade da imputação, | ||
| + | |||
| + | ==== A pessoa e o ato, conceitos intersectivos ==== | ||
| + | |||
| + | * A análise crítica revela que os conceitos de «pessoa» e «ato» são construções híbridas e intersectivas, | ||
| + | |||
| + | * Reciprocamente, | ||
| + | |||
| + | ==== A impossibilidade da imputação ==== | ||
| + | |||
| + | * A tentativa de fundar a responsabilidade prática sobre a estrutura predicativa da linguagem conduz a uma antinomia insolúvel, um quiasma onde as exigências da identidade pessoal e da novidade da ação se anulam mutuamente em vez de se sustentarem. Quanto mais se «coisifica» a pessoa para garantir a identidade do culpado ao longo do tempo, mais seus atos aparecem como emanações necessárias de sua natureza ou caráter, tornando-se eventos naturais previsíveis e inimputáveis sob o prisma da liberdade; inversamente, | ||
| + | |||
| + | * O discurso penal e moral debate-se nesta aporia, oscilando entre julgar o criminoso pela sua natureza (o que ele é, tornando o crime um sintoma) ou pelo seu ato (o que ele fez, isolando o feito do autor), sem jamais conseguir, através da lógica predicativa, | ||
| + | |||
| + | ==== Os conceitos híbridos do discurso prático: vontade, identidade pessoal, liberdade ==== | ||
| + | |||
| + | * Diante da inconsistência lógica da imputação, | ||
| + | |||
| + | * De modo análogo, o conceito de Identidade Pessoal, formulado por Locke, transfere a estrutura da substância para o sujeito moral, utilizando a continuidade da consciência como critério para garantir que o agente presente seja o mesmo que o agente passado, viabilizando a retribuição forense; a Liberdade, por sua vez, é o conceito encarregado de mascarar a contradição entre a determinação do caráter e a indeterminação da escolha, oscilando perpetuamente entre a liberdade de indiferença (ato sem causa) e a liberdade de espontaneidade (ato conforme a natureza). Todos esses conceitos são artefatos teóricos desenhados para salvar a aparência de consistência do discurso prático predicativo. | ||
| + | |||
| + | ==== A terceira pessoa e a primeira pessoa ==== | ||
| + | |||
| + | * O fracasso dos conceitos metafísicos em fundamentar a ação decorre do fato de serem modelados sobre a terceira pessoa gramatical, tratando o agente como um «ele», um objeto de discurso sobre o qual se fala e ao qual se atribuem propriedades ou feitos retrospectivamente. O conceito de pessoa é, em sua gênese, um conceito judiciário que pressupõe o ato como um fato consumado (passado) e o agente como um réu a ser identificado (terceira pessoa), impondo uma estática que é incompatível com a dinâmica da ação em curso. | ||
| + | |||
| + | * A verdadeira compreensão da agência exige o abandono do esquema predicativo e judiciário em favor de uma abordagem baseada na primeira pessoa, no «eu» que fala e age no presente; o agente real não é uma substância que subsiste sob as mudanças, mas aquele que se enuncia como «eu», instaurando uma relação com o mundo que não é de conhecimento ou atribuição, | ||
| + | |||
| + | ==== O eu como indicador ==== | ||
| + | |||
| + | * O «eu» distingue-se radicalmente do conceito de pessoa por não ser um nome, que designa uma entidade fixa, nem um verbo, que descreve um processo, mas um indicador ou dêitico cuja referência é essencialmente ocasional e reflexiva, apontando exclusivamente para a instância singular da sua própria enunciação. Enquanto os nomes funcionam pela obliteração do ato de nomear em favor do objeto nomeado, os indicadores como «eu», «aqui» e «agora» exibem o ato de fala como parte integrante do seu significado, | ||
| + | |||
| + | * O «eu» opera a junção paradoxal entre a singularidade absoluta do evento (cada enunciação é única) e a identidade da referência (o locutor designa-se a si mesmo), escapando à dicotomia entre a coisa inerte e o evento fugaz; ele não é uma coisa que fala, mas a emergência de uma subjetividade que se constitui no e pelo ato de se dizer, realizando a unidade indissolúvel entre o fato de ser e o fato de dizer. | ||
| + | |||
| + | ==== O eu como condição da existência das coisas ==== | ||
| + | |||
| + | * A análise da individuação demonstra que nem os nomes próprios nem as descrições definidas são capazes, por si sós, de constituir os indivíduos singulares que povoam o mundo, pois os nomes pressupõem a existência prévia do indivíduo para nomeá-lo e as descrições permanecem no nível das generalidades conceituais que poderiam aplicar-se a múltiplos objetos. A individuação última do real repousa na indicação, | ||
| + | |||
| + | * O «eu» revela-se, assim, como a condição transcendental da individuação, | ||
| + | |||
| + | ==== O eu como condição de possibilidade da ação ==== | ||
| + | |||
| + | * A identidade do agente não é a de um substrato que preexiste aos seus atos, mas a de um «eu» que se produz e se confirma a cada ato, numa relação de pseudo-reflexividade onde o agente não é a causa eficiente do ato (como um evento causaria outro), nem o ato é um predicado analítico do agente. Na fórmula «eu ajo» ou «eu falo», não há dualidade ontológica entre uma substância e um acidente, mas a manifestação de uma única realidade dinâmica onde o dizer «eu» e o agir são co-extensivos; | ||
| + | |||
| + | * Essa constituição do agente é inseparável da dimensão interlocutiva, | ||
| + | |||
| + | ==== A causa dos atos ==== | ||
| + | |||
| + | * A aporia tradicional entre liberdade e determinismo dissolve-se quando se abandona a ontologia do evento (que vê os atos como elos numa cadeia causal de terceira pessoa) e a ontologia da pessoa (que vê os atos como emanações de uma natureza fixa), em favor de uma ontologia do ato baseada na primeira pessoa. Do ponto de vista do «eu», a pergunta pela causa do ato não remete a eventos mentais antecedentes (como desejos ou crenças vistos como causas eficientes), | ||
| + | |||
| + | * Dizer «eu ajo porque...» não é descrever um mecanismo determinista, | ||
| + | |||
| + | ==== O interrogativo ético ==== | ||
| + | |||
| + | * O fundamento da ética não reside num imperativo categórico que dita a lei a um sujeito passivo, mas num interrogativo ético primordial — «quem age?» ou «estou agindo?» — pelo qual o indivíduo suspende a naturalidade do curso dos eventos para se interrogar sobre a sua própria implicação no mundo. Antes de saber o que deve fazer (moral), o sujeito deve constituir-se como alguém que pode fazer (ética), transformando a indiferença dos fatos em campo de ação pessoal; o mal radical, nesta perspectiva, | ||
| + | |||
| + | * A universalidade da lei moral, longe de ser um dado abstrato que se impõe de fora, só ganha realidade quando assumida por um «eu» singular que se institui como legislador; a obediência cega à lei «universal» sem a mediação do «eu» crítico e agente é a porta aberta para a barbárie burocrática, | ||
