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| + | ====== «O QUE É?» E «POR QUE?» (1997) ====== | ||
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| + | WOLFF, Francis. Dire le monde. Paris: PUF, 1997 | ||
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| + | ==== A perenidade das interrogações filosóficas fundamentais e sua estrutura dual ==== | ||
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| + | * As indagações «o que é?» e «por que?», apesar das mutações históricas dos conceitos e das demandas culturais, permanecem como os dois modos de interrogação fundamentais e ineludíveis para qualquer tentativa de compreensão teórica do mundo, resistindo à pretensão positivista de substituí-las pelo «como» ou à estratégia antiessencialista de dissolvê-las em circunstâncias de «onde» e «quando». A história da filosofia pode ser interpretada como a alternância cíclica entre a primazia de uma e de outra — //Platão// e Descartes inclinando-se para a essência, // | ||
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| + | ==== A metafísica do «o que é?»: o mundo das coisas e a identidade absoluta ==== | ||
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| + | * A radicalização filosófica da pergunta ordinária «o que é isto?» pressupõe e projeta um mundo constituído por coisas singulares, reais e completamente determinadas, | ||
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| + | * Neste horizonte ontológico governado pela questão da essência, a única relação possível é a de equivalência — reflexiva, simétrica e transitiva —, onde «ser» significa estritamente «ser o mesmo que» ou «ser a própria essência», | ||
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| + | ==== A metafísica do «por que?»: o mundo dos eventos e a regressão infinita ==== | ||
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| + | * A interrogação «por que?», quando levada à sua radicalidade filosófica, | ||
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| + | * O mundo ideal projetado por essa interrogação é uma série infinita de eventos encadeados causalmente, | ||
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| + | ==== O imperativo do estancamento e a contradição do princípio metafísico ==== | ||
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| + | * Diante da vertigem da regressão infinita imposta pela lógica do «por que», a tradição metafísica, | ||
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| + | * Essa manobra revela uma tensão insolúvel: a necessidade do fundamento exige a busca pela razão (o «por que»), mas a descoberta do fundamento exige a suspensão dessa mesma busca, convertendo o evento explicativo em uma entidade que é o que é (o «o que é»). O princípio metafísico surge, portanto, como um híbrido conceitual que tenta satisfazer a demanda de explicação total paralisando o movimento que a constitui, impondo uma finitude necessária a um processo que, por sua natureza lógica, tenderia ao infinito. | ||
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| + | ==== A situação mediana do mundo real e os conceitos híbridos ==== | ||
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| + | * O nosso mundo real situa-se numa posição mediana e imperfeita entre esses dois mundos ideais incompatíveis — o da identidade absoluta e o da causalidade infinita —, o que se evidencia na contaminação mútua dos dois grandes princípios de raciocínio: | ||
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| + | * De modo análogo, o conceito de Deus oscila entre a exigência grega de um Ser Supremo absolutamente idêntico e imóvel, que responde à pergunta «o que é o ser?», e a exigência hebraica de uma Vontade Criadora e causa histórica, que responde à pergunta «por que há algo?», resultando na teologia racional como uma tentativa de conciliar a identidade ontológica com a causalidade transitiva. Os conceitos de Substância e Fundamento funcionam como os pilares dessa arquitetura mestiça: a substância é a coisa que permanece (identidade) servindo de suporte ao que lhe acontece (evento), submetendo o «por que» ao «o que é»; o fundamento é a razão de ser (causalidade) que se põe como autossuficiente (ipseidade), | ||
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| + | ==== A virada crítica: o isomorfismo entre linguagem e mundo ==== | ||
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| + | * A impossibilidade de aceder plenamente aos mundos puros da essência ou da causa não deve ser lamentada como uma finitude cognitiva, mas compreendida positivamente através da análise crítica da linguagem, assumindo-se um isomorfismo onde o mundo nos aparece estritamente segundo a estrutura da nossa linguagem predicativa. O mundo das coisas puras corresponderia a uma linguagem-mundo nominal, feita exclusivamente de nomes próprios que capturariam a essência total de cada indivíduo, permitindo saber tudo de uma só vez, mas impossibilitando qualquer discurso articulado; o mundo dos eventos puros corresponderia a uma linguagem-mundo verbal, feita de verbos impessoais que expressariam o fluxo total do devir, permitindo explicar tudo, mas impedindo a referência a qualquer sujeito estável. | ||
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| + | * O nosso mundo, estruturado na forma «S é P», é o correlato de uma linguagem que opera a síntese predicativa entre um sujeito (que mimetiza a estabilidade da coisa sem ser uma essência absoluta) e um predicado (que mimetiza a acidentalidade do evento sem ser um fluxo puro). A cópula «é» constitui a cola lógica que permite atribuir o devir ao ser, o evento à coisa, possibilitando a interlocução e a objetividade ao custo de renunciar tanto ao conhecimento absoluto da essência singular quanto à explicação causal total. | ||
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| + | ==== A fecundidade da predicação e a alegria da finitude ==== | ||
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| + | * A estrutura predicativa do nosso linguagem-mundo revela que a realidade não é nem um agregado de mônadas incomunicáveis nem um fluxo heraclitiano inapreensível, | ||
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| + | * Longe de ser uma deficiência, | ||
