watts:alan-watts-amor
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| watts:alan-watts-amor [28/01/2026 18:20] – mccastro | watts:alan-watts-amor [17/02/2026 18:34] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== AMOR ====== | ||
| + | |||
| + | //Excerto do livro "A Vida Contemplativa"// | ||
| + | |||
| + | O desejo humano difere do animal por ser, no fundo, insaciável. O homem se caracteriza por uma fome de infinito, de uma eternidade de vida, amor e alegria que, saiba-o ele ou não. Não pode ser outra coisa que não Deus. Admitindo-se a existência de Deus, conclui-se ser Ele o objetivo final, verdadeiro, do homem, pois o apetite de um organismo vivo revela a sua função. O estômago anseia por alimento porque sua função é digeri-lo. A fome e o paladar físicos podem por vezes enganar-se quanto ao seu verdadeiro objetivo, desejando exclusivamente caviar em lugar de uma dieta equilibrada; | ||
| + | |||
| + | Admitindo-se, | ||
| + | |||
| + | O amor consciente de Deus somente é possível de ser exercido por uma alma livre. Em um sentido, o homem ama inevitavelmente a Deus porque o finito natural e necessariamente anseia ou tende para o infinito; entretanto, o finito, por seu próprio poder, jamais pode atingir ou envolver o infinito. Por mais alto que se suba ou voe, jamais se consegue atingir o céu. Deus está fora do alcance do amor natural {eros), embora este aponte para Ele. O homem, entretanto, está capacitado para um outro tipo de amor que permite atingir Deus, o qual, de acordo com a útil distinção de Nygren, chamaremos de agape. ((O uso dos vocábulos eros e agape para indicar esses dois tipos de amor é puramente moderno. No grego koine e clássico, essas palavras não fazem tal distinção e, na literatura bíblica, agape se refere a ambos os tipos de amor. Cf., João 3:16 e I João 2:15. Para maiores esclarecimentos, | ||
| + | |||
| + | A diferença entre os dois é que, enquanto eros traduz um desejo possessivo de absorver Deus, agape é um desejo deliberado, consciente e livre de se dar a Deus. O homem é capaz desses dois tipos de "amor e deseja ambos, eros e agape, para se engrandecer e se perder, para absorver o infinito e mergulhar no infinito. Mas uma auto-dedicação tão absoluta é um poder da liberdade somente. O amor sob compulsão é eros — nunca agape — daí a razão de um casamento feliz jamais poder ser feito sob a influência de um afrodisíaco. A aquiescência a uma união de almas tão profunda deve ser espontânea. O homem é, portanto, capaz de agape; o tipo de união com Deus a que está destinado é de um nível particularmente alto, uma união de amor recíproco, um casamento espiritual. A união do homem com Deus deve ser mutuamente voluntária. A união de criaturas inferiores com Deus é voluntária apenas da Sua parte. Mas o eros não pode atingir o seu objetivo sem o agape. | ||
| + | |||
| + | Quando dizemos que o homem é feito à imagem de Deus, queremos dizer que ele é livre. Esta é uma das mais profundas intuições humanas, e que somente pode ser contestada ao preço da submissão do pensamento racional. Se você argumenta que não tem liberdade, deixa implícito que foi compelido a argumentar desse modo e que, assim, sua opinião não é uma decisão racional e livre, mas um mecanismo compulsivo de significação semelhante à de um tique nervoso. Todo pensamento e ação racional presume uma relativa liberdade de arbítrio. | ||
| + | |||
| + | A liberdade de amar a Deus, de se dar a Deus, envolve também a liberdade de não amar. Se uma alma livre recusa o agape, ela se submete à dominação do eros, que, embora em si não contenha nada de mal, adquire maldade quando escolhido livremente de preferência ao agape. O homem baixa de condição quando prefere o desejo natural ao amor espiritual como princípio de vida; ele submete sua liberdade, seu próprio espírito, ao desejo ardente, insaciável e sempre frustrado de sua alma natural e se torna temporariamente incapaz do agape. O agape, entretanto, é Deus; o agape no homem é, portanto, a presença de Deus no homem, que, recusada, torna impossível amar a Deus, porquanto Deus só pode ser amado com Seu próprio poder e Seu próprio amor, existentes na alma humana. | ||
| + | |||
| + | Todos os problemas, todos os males da vida humana provêm dessa recusa em amar a Deus, e não podemos dizer quando isso se verificou pela primeira vez nem por que aconteceu. Sabemos apenas que nos encontramos atualmente em uma situação de malignidade, | ||
| + | |||
| + | Isto, sem dúvida, não é uma solução para o problema da origem do mal, para o qual, aliás, não há solução conhecida e sobre o qual as especulações não têm consequência prática. Compreender a origem do mal não implica estar livre dele. A origem está em nosso íntimo e não a podemos ver e examinar, da mesma forma que não podemos virar-nos e olhar em nossos próprios olhos. | ||
| + | |||
| + | Nossa preocupação é com os resultados presentes dessa recusa, que nos são bastante familiares. Sabemos, por experiência, | ||
