umberto-eco:start
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| umberto-eco:start [28/01/2026 19:23] – mccastro | umberto-eco:start [11/04/2026 10:54] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Eco, Umberto ====== | ||
| + | Umberto Eco (1932-2016) | ||
| + | |||
| + | //Palestra proferida no Festival de Literatura de Mântua, em setembro de 2000.// | ||
| + | |||
| + | A lenda segundo a qual Stálin teria perguntado quantas divisões o Papa possuía é desmentida pelos fatos: existem forças imateriais que não se medem, mas que têm peso — entre elas a tradição literária, rede de textos produzidos pela humanidade para seu próprio deleite e não para fins práticos. | ||
| + | * A potência das raízes quadradas, com suas leis rígidas que sobreviveram tanto aos decretos de Stálin quanto ao próprio Papa, ilustra esse tipo de força intangível. | ||
| + | * Os textos literários chegaram à humanidade pela voz oral, pela pedra, pelo papel e hoje pelo livro eletrônico — suporte que não altera a potência de Dom Quixote. | ||
| + | |||
| + | A literatura mantém a língua viva como patrimônio coletivo, pois a língua segue seu próprio caminho, impermeável a decretos políticos ou acadêmicos. | ||
| + | * Os fascistas italianos tentaram impor mescita no lugar de bar, coda di gallo no lugar de cocktail, rete no lugar de goal, e a língua não obedeceu. | ||
| + | * Sem Dante e seu " | ||
| + | * Vinte anos de retórica fascista não deixaram traço no italiano contemporâneo, | ||
| + | * O " | ||
| + | * Sem Homero não haveria civilização grega, sem a tradução da Bíblia por Lutero não haveria identidade alemã, sem Púchkin não haveria língua russa, sem os épicos fundadores não haveria civilização indiana. | ||
| + | |||
| + | A literatura mantém viva também a língua individual, e os jovens que frequentam as grandes livrarias contemporâneas entram em contato com estilos elaborados aos quais seus pais e avós jamais foram expostos. | ||
| + | * Os que praticam o " | ||
| + | * Os que matam por ociosidade não foram corrompidos pela linguagem digital — foram excluídos do universo da literatura e dos lugares onde um lampejo de valores poderia alcançá-los. | ||
| + | |||
| + | A leitura de obras literárias impõe um exercício de fidelidade e respeito ao texto, ainda que dentro de certa liberdade de interpretação. | ||
| + | * A heresia crítica segundo a qual se pode fazer qualquer coisa com uma obra literária é falsa: a liberdade interpretativa deve ser guiada pelo respeito à intenção do texto. | ||
| + | * Certas proposições sobre personagens literários — "Anna Kariênina se suicida", | ||
| + | * Ninguém que afirme que Hamlet casou com Ofélia ou que Superman não é Clark Kent merece o mesmo respeito reservado a opiniões teológicas divergentes. | ||
| + | |||
| + | O texto literário sinaliza com autoridade suprema o que deve ser tomado como relevante e o que não deve servir de ponto de partida para interpretações sem freio. | ||
| + | * Em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, a mão trêmula de Julien Sorel e o primeiro tiro que erra o alvo permitem duas interpretações — intenção homicida covarde ou impulso passional vago —, mas o destino da bala perdida é irrelevante porque o texto o exclui da especulação. | ||
| + | * Em Armance, também de Stendhal, o não dito sobre a impotência do protagonista convida o leitor a completar o que a história não explicita. | ||
| + | * Em Os Noivos, de Manzoni, a frase "a infeliz respondeu" | ||
| + | * Em Os Três Mosqueteiros, | ||
| + | |||
| + | O universo da literatura oferece um modelo, ainda que fictício, de verdade — e protege contra interpretações delirantes. | ||
| + | * Afirmar que D' | ||
| + | * O mundo literário é um universo em que é possível estabelecer se um leitor tem senso de realidade ou é vítima de suas próprias alucinações. | ||
| + | |||
| + | Os personagens literários migram: existem como fatos registrados num texto — partitura imutável — e Anna Kariênina se suicida no mesmo sentido em que a Quinta Sinfonia de Beethoven está em dó menor. | ||
| + | * Ulisses, Jasão, Rei Artur, Parsifal, Alice, Pinóquio, D' | ||
| + | * Chapeuzinho Vermelho existe em versões profundamente diferentes: na de Perrault a menina é devorada e a história termina aí; na dos irmãos Grimm o caçador mata o lobo e a salva. | ||
| + | * As crianças conhecem a " | ||
| + | * Madame Bovary, Édipo, Werther são indivíduos com vida própria além de suas partituras originais, sobre os quais qualquer pessoa pode fazer afirmações verdadeiras — inclusive quem nunca leu o texto original. | ||
| + | |||
| + | Esses personagens existem como habitus cultural, disposição social, e moldaram o comportamento humano a ponto de se tornarem padrões de referência coletiva. | ||
| + | * Dizer que alguém tem complexo de Édipo, apetite gargantuesco, | ||
| + | * O mesmo vale para situações e objetos: a sebe de Leopardi, as águas claras e frescas de Petrarca, o jantar bestial de Dante, o punhado de pó de Eliot tornaram-se metáforas obsessivas que dizem quem somos e para onde vamos. | ||
| + | * A diferença entre a fantasia privada sobre a morte de um ente querido e o suicídio de Werther é que esta segunda é um fato público sobre o qual toda a comunidade de leitores concorda — tanto que justificamos de algum modo quem se mata por causa de Werther, sabendo que este é personagem fictício. | ||
| + | |||
| + | A era do hipertexto eletrônico permite reescrever narrativas existentes ad infinitum, mudando o destino dos personagens — prática que tem precedentes em Mallarmé, nos surrealistas, | ||
| + | * Programas disponíveis na internet permitem escrever histórias em grupo e alterar os desfechos das grandes narrativas: fazer o príncipe Andrei viver, reconciliar Emma Bovary com Charles, enviar Chapeuzinho Vermelho ao encontro de Pinóquio. | ||
| + | * Tal exercício pode ser educativo — como transcrever Chopin para bandolim ajuda a entender por que o timbre do piano era parte integral da Sonata op. 35 — mas não substitui a função educativa da literatura. | ||
| + | |||
| + | A função essencial da literatura reside na lição sobre o destino e a morte: as histórias "já feitas" | ||
| + | * Lotman, retomando o conselho de Tchékhov sobre a espingarda pendurada na parede, observa que o verdadeiro ensinamento não é saber se ela disparará, mas aceitar que não somos nós que decidimos — e sentir, através dessa frustração, | ||
| + | * A grandeza trágica das páginas de Hugo sobre Waterloo em Os Miseráveis reside precisamente no fato de que as coisas aconteceram como aconteceram, | ||
| + | * A beleza de Guerra e Paz está na morte de Andrei, por mais que ela nos entristece; o espanto doloroso das grandes tragédias vem do fato de que seus heróis, podendo escapar, mergulham num abismo que muitas vezes cavaram com as próprias mãos. | ||
| + | * Hugo resume: "Era possível a Napoleão vencer aquela batalha? Respondemos que não. Por quê? Por causa de Wellington? Por causa de Blücher? Não. Por causa de Deus." | ||
| + | * A narrativa hipertextual ensina muito sobre liberdade e criatividade — mas as histórias imutáveis ensinam a morrer. | ||
