schopenhauer:schopenhauer-mvr1-fenomeno-e-vontade
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| + | ====== FENÔMENO E VONTADE (MVR1) ====== | ||
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| + | Em consequência, | ||
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| + | Contudo, esquece-se que o indivíduo, a pessoa, não é vontade como coisa-em-si, | ||
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| + | Gostaria no momento apenas de indicar que o fenômeno da Vontade em si e sem-fundamento está ele mesmo enquanto tal submetido à lei de necessidade, | ||
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| + | Até agora se considerou como fenômeno da Vontade apenas aquelas mudanças que não têm outro fundamento senão o motivo, ou seja, uma representação; | ||
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| + | Não só as ações do corpo, mas ele mesmo, como mostrado anteriormente, | ||
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| + | Ora, para esclarecer esse ponto e demonstrar a identidade de uma Vontade una e indivisa em todos os seus tão diferentes fenômenos, tanto nos mais tênues quanto nos mais nítidos, temos de antes considerar a relação existente entre a Vontade como coisa-em-si e o seu fenômeno, noutros termos, entre o mundo como Vontade e o mundo como representação, | ||
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| + | Mais e menos concernem tão-somente ao fenômeno, isto é, à visibilidade, | ||
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| + | Tal pluralidade atinge apenas o fenômeno da Vontade, não ela mesma. MVR1: Livro II §25 | ||
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| + | Portanto, enquanto cada homem deve ser visto como um fenômeno particularmente determinado e característico da Vontade, em certa medida até mesmo como uma Ideia própria, nos animais, ao contrário, o caráter individual falta por completo, posto que apenas a espécie possui | ||
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| + | Todos os fenômenos desta são exteriorizações de forças universais da natureza, vale dizer, exteriorizações de graus de objetivação da Vontade, que de maneira alguma se objetivam (como na natureza orgânica) pela intermediação da diferença de individualidades a expressarem parcialmente o todo da Ideia, mas, antes, exprimem a si mesmos unicamente na espécie, expondo a esta por completo e sem desvio em cada fenômeno particular. MVR1: Livro II §26 | ||
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| + | lhe atinge nem aos graus imediatos de sua objetivação, | ||
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| + | Novo fenômeno da Vontade. MVR1: Livro II §26 | ||
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| + | A força mesma é fenômeno da Vontade e, enquanto tal, não está submetida às figuras do princípio de razão, ou seja, é sem-fundamento. MVR1: Livro II §26 | ||
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| + | Toda causa na natureza é causa ocasional, apenas dá a oportunidade, | ||
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| + | Apenas a entrada em cena, o tornar-se-visível neste lugar, neste tempo, é produzido pela causa, e nesse sentido depende | ||
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| + | Os motivos não determinam o caráter do homem, mas tão-somente o fenômeno desse caráter, logo as ações e atitudes, a feição exterior de seu decurso de vida, não sua significação íntima e conteúdo: estes últimos procedem do caráter, que é fenômeno imediato da Vontade, portanto sem-fundamento. MVR1: Livro II §26 | ||
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| + | Com isso cada movimento, embora seja fenômeno da Vontade, sempre tem de ter uma causa a partir da qual é explanável em referência à determinado tempo e determinado lugar, ou seja, não em geral, segundo a sua essência íntima, mas como fenômeno particular. MVR1: Livro II §27 | ||
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| + | Com acerto, portanto, Kant diz que é absurdo esperar por um Newton do ramo de relva, isto é, por aquele que reduza o ramo de relva a fenômenos de forças físicas e químicas, das quais o ramo seria uma concreção casual, por consequência um mero jogo da natureza sem aparecimento de uma Ideia própria, noutros termos, a Vontade não se manifestaria imediatamente num grau mais elevado e específico, | ||
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| + | Assim, se não se perder de vista a diferença entre fenômeno e coisa-em-si, | ||
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| + | Quando os muitos fenômenos da Vontade entram em conflito nos graus mais baixos de sua objetivação, | ||
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| + | Do mesmo modo, cada fenômeno da Vontade, inclusive os que se expõem no organismo humano, travam uma luta duradoura contra as diversas forças físicas e químicas que, como Ideias mais elementares, | ||
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| + | Ora, posto que cada corpo tem de ser visto como fenômeno de uma única e mesma Vontade, e esta, entretanto, expõe-se necessariamente como um esforço, então o estado originário de cada orbe celeste condensado não pode ser o repouso, mas o movimento, o esforço para adiante no espaço infinito, sem repouso e alvo. MVR1: Livro II §27 | ||
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| + | Podemos, por fim, reconhecer a aqui considerada luta de todos os fenômenos da Vontade entre si inclusive na mera matéria, na medida em que a essência do fenômeno desta, corretamente enunciada por Kant, são as forças de atração e repulsão, de modo que já a matéria possui sua existência apenas devido a uma luta de forças que se empenham contrariamente. MVR1: Livro II §27 | ||
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| + | Com isso podemos observar o fenômeno bastante notável de que a atuação cega da Vontade e a ação iluminada pelo conhecimento invadem uma o domínio da outra da maneira mais surpreendente em dois tipos de fenômeno. MVR1: Livro II §27 | ||
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| + | Em verdade, não é apenas o caráter empírico de cada homem, mas também o caráter empírico de cada espécie animal, sim, de cada espécie vegetal e até mesmo de cada força originária da natureza inorgânica que deve ser visco como fenômeno de um caráter inteligível, | ||
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| + | Ora, visto que é a Vontade única e indivisa – justamente por isso inteiramente condizente consigo mesma – que manifesta a si em toda a Ideia como se se manifestasse num ato, segue-se que o fenômeno da Vontade, embora entre em cena numa diversidade de partes e estados, tem de mostrar novamente aquela unidade na concordância completa de tais partes e estados. MVR1: Livro II §28 | ||
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| + | Tudo isso foi anteriormente objeto de detalhadas considerações Igualmente, cada ato isolado da vontade de um indivíduo que conhece (e que enquanto tal é apenas fenômeno da Vontade como coisa-em-si) possui necessariamente um motivo, sem o qual o ato nunca entraria em cena. MVR1: Livro II §29 | ||
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| + | Do mesmo modo, cada fenômeno isolado da natureza, ao entrar em cena neste lugar, neste tempo, é determinado por uma causa suficiente, mas a força que nele se manifesta não possui em geral causa alguma, pois é um grau de fenômeno da coisa-em-si, | ||
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| + | Pois o indivíduo é o sujeito do conhecer na sua referência a um fenômeno particular e determinado da Vontade, a esta servil. MVR1: Livro III §34 | ||
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| + | Um tal fenômeno isolado da Vontade está submetido ao princípio de razão em todas as suas figuras, e todo conhecimento relacionado ao fenômeno também segue, por sua vez, o princípio de razão. MVR1: Livro III §34 | ||
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| + | Por conseguinte, | ||
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| + | Porém, o Espírito da Terra sorriria, dizendo: “A fonte, a partir da qual os indivíduos e suas forças brotam, é inesgotável e infinita como tempo e espaço: pois aqueles são, tanto quanto estas formas de todo fenômeno, apenas fenômeno, visibilidade da Vontade. MVR1: Livro III §35 | ||
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| + | O fundamento disso, todavia, não é fraqueza da razão, mas em parte energia incomum do fenômeno todo da Vontade que é o indivíduo genial e que se exterioriza mediante grande veemência de todos os atos volitivos; em parte também reside no fato de, no gênio, o conhecimento intuitivo ser preponderante, | ||
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| + | Assim como o homem é ímpeto tempestuoso e obscuro do querer (indicado pelo pólo dos órgãos genitais, como seu foco), e simultaneamente sujeito eterno, livre, sereno, do puro conhecer (indicado pelo pólo do cérebro), assim também, em conformidade com essa oposição, o sol é fonte de luz, é condição do modo mais perfeito de conhecimento e, justamente por isso, do que há mais aprazível nas coisas, e simultaneamente é fonte de calor, da primeira condição de qualquer vida, isto é, de todo fenômeno da Vontade em graus mais elevados. MVR1: Livro III §39 | ||
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| + | Então, no imperturbável espectador dessa cena, a duplicidade de sua consciência atinge o mais elevado grau: ele se sente simultaneamente como indivíduo, fenômeno efêmero da Vontade que o menor golpe daquelas forças pode esmagar, indefeso contra a natureza violenta, dependente, entregue ao acaso, um nada que desaparece em face de potências monstruosas, | ||
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| + | Quando nos perdemos na consideração da grandeza infinita do mundo no espaço e no tempo, quando meditamos nos séculos passados e vindouros, ou também quando consideramos o céu noturno estrelado, tendo inumeráveis mundos efetivamente diante dos olhos e a incomensurabilidade do cosmo se impõe à consciência – sentimo-nos nessa consideração reduzidos a nada, sentimo-nos como indivíduo, como corpo vivo, como fenômeno transitório da Vontade, uma gota no oceano, condenados a desaparecer, | ||
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| + | O sentimento do sublime nasce aqui pela percepção do nada esvaecente de nosso próprio corpo em face de uma grandeza que, por seu turno, se encontra apenas em nossa representação, | ||
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| + | Nesse sentido podemos dizer: a objetivação adequada da Vontade por meio de um simples fenômeno espacial é beleza em sentido objetivo; a planta não passa de um fenômeno assim, meramente espacial da Vontade; ora, como nenhum movimento e, em consequência, | ||
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| + | Assim como o simples fenômeno espacial da Vontade pode objetivá-la perfeita ou imperfeitamente em cada grau determinado, | ||
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| + | Logo, assim como a beleza é a exposição correspondente da Vontade em geral por meio de seu simples fenômeno espacial, a graça é a exposição correspondente da Vontade por meio de seu fenômeno temporal, isto é, a expressão perfeitamente correta e apropriada de cada ato da vontade mediante movimento e posição que a objetiva. MVR1: Livro III §45 | ||
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| + | Graça e beleza, perfeitas e unidas, são o fenômeno mais distinto da Vontade no grau mais elevado de sua objetivação. MVR1: Livro III §45 | ||
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| + | Pois a música nunca expressa o fenômeno, mas unicamente a essência íntima, o em-si de todos eles, a Vontade mesma. MVR1: Livro III §52 | ||
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| + | Pois a música, | ||
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| + | Como a Vontade é a coisa-em-si, | ||
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| + | Nascimento e morte pertencem exclusivamente ao fenômeno da Vontade, logo, à vida, à qual é essencial expor-se em indivíduos, | ||
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| + | O objetivo, manifestamente, | ||
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| + | A forma desse fenômeno é tempo, espaço e causalidade, | ||
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| + | Que geração e morte devam ser consideradas como algo pertencente à vida e essencial ao fenômeno da Vontade, advêm do fato de ambas se apresentarem apenas como expressão altamente potenciada Daquilo a partir do que consiste todo o restante da vida, que nada mais é, em toda parte, senão uma alteração contínua da matéria sob a permanência invariável da forma. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | A morte é um sono no qual a individualidade é esquecida: tudo o mais desperta de novo, ou, antes, permaneceu desperto [Também a seguinte consideração pode servir (àquele para a qual ela não é demasiado sutil) na compreensão distinta de que o indivíduo é apenas o fenômeno, não a coisa-em-si / Cada indivíduo é, por um lado, sujeito do conhecer, isto é, a condição complementar da possibilidade de todo o mundo objetivo, e, por outro, fenômeno singular da Vontade, da mesma que se objetiva em cada coisa / Mas essa duplicidade de nosso ser não repousa numa unidade subsistente por si, do contrário poderíamos ser conscientes de nós em nós mesmos independentemente dos objetos do conhecer e do querer, o que absolutamente não podemos mas, assim que descemos em nós para conseguir isso e direcionamos o conhecimento para o nosso interior, querendo conhecer-nos plenamente de uma vez, perdemo-nos num vazio sem fundo, sentindo-nos semelhantes a uma esfera oca de cristal, da qual soa uma voz, cuja causa, entretanto, não encontramos ali; quando queremos assim apreender a nós, nada obtemos senão, assustados, um fantasma instável]. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | Antes de tudo temos de reconhecer distintamente que a forma do fenômeno da Vontade, portanto a forma da vida ou da realidade, é, propriamente dizendo, apenas o presente, não o futuro, nem o passado. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | Passado e futuro contêm meros conceitos e fantasmas, por consequência o tempo presente é a forma essencial e inseparável do fenômeno da Vontade. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | Entretanto, trouxemos agora à consciência distinta que, embora o fenômeno particular da Vontade principie e finde temporalmente, | ||
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| + | Daí se segue que o egoísmo do indivíduo (este fenômeno particular da Vontade iluminado pelo sujeito do conhecer) pode, a partir da visão que expomos, tão pouco haurir alimento e consolo para seu desejo de afirmar-se por um tempo infinito, quanto o poderia a partir do conhecimento de que após sua morte o restante mundo exterior permanece no tempo, o que é apenas a expressão daquela mesma visão, porém considerada de maneira objetiva, logo, temporalmente. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | Mas também só como fenômeno alguém é diferente das outras coisas do mundo; como coisa-em-si é a Vontade que aparece em tudo, a morte removendo a ilusão que separa a consciência própria das demais: e isto é a perduração. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | Armado com o conhecimento que lhe conferimos, veria com indiferença a morte voando em sua direção nas asas do tempo, considerando-a como uma falsa aparência, um fantasma impotente, amedrontador para os fracos, mas sem poder algum sobre si, que sabe: ele mesmo é a Vontade, da qual o mundo inteiro é objetivação ou cópia; ele, assim, tem não só uma vida certa mas também o presente por todo o tempo, presente que é propriamente a forma única do fenômeno da Vontade; portanto, nenhum passado ou futuro infinitos, no qual não existiria, pode lhe amedrontar, pois considera a estes como uma miragem vazia e um Véu de Maya. MVR1: Livro IV §54 | ||
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| + | Por outro lado, entretanto, este mesmo mundo na totalidade de seus fenômenos é para nós objetidade da Vontade, que, por não ser ela mesma fenômeno, representação ou objeto, mas coisa-em-si, | ||
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| + | Cada coisa como fenômeno, como objeto, é absolutamente necessária; | ||
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| + | A existência em geral desse objeto e O modo de sua existência, | ||
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| + | Ora, em conformidade à liberdade dessa Vontade, o objeto poderia não existir, ou originária e essencialmente ser algo inteiramente outro; mas em tal caso toda a cadeia na qual ele é um membro, ela mesma fenômeno da Vontade, também seria inteiramente outra. MVR1: Livro IV §55 | ||
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| + | Todavia, o homem é o fenômeno mais perfeito da Vontade, como mostrado no livro segundo e, em vista da própria conservação, | ||
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| + | Entrementes, | ||
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| + | A liberdade da Vontade como coisa-em-si, | ||
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| + | Pois a pessoa já é o fenômeno determinado pelo querer livre e, desde que este entra na forma de todo objeto, o princípio de razão, a pessoa desenvolve de fato a unidade da Vontade na pluralidade de suas ações, que, entretanto, devido à unidade extratemporal daquele querer em si, expõe-se com a legalidade de uma força natural. MVR1: Livro IV §55 | ||
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| + | No entanto, a quem ficou claro que a essência inteira do homem é Vontade, e ele mesmo é apenas fenômeno dessa Vontade; fenômeno que, por seu turno, tem por forma necessária o princípio de razão, cognoscível já a partir do sujeito, figurando, neste caso, como lei de motivação; | ||
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| + | Foi Kant, todavia, cujo mérito a este respeito é em especial magnânimo, o primeiro a demonstrar a coexistência dessa necessidade com a liberdade da Vontade | ||
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| + | A Vontade é o primário e originário; | ||
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| + | Em realidade, à medida que o fenômeno da Vontade se torna cada vez mais perfeito, o sofrimento se torna cada vez mais manifesto. MVR1: Livro IV §56 | ||
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| + | Entretanto, o esforço contínuo que constitui a essência de cada fenômeno da Vontade adquire nos graus mais elevados de objetivação dela seu primeiro e mais universal fundamento, pois, aqui, a Vontade aparece num corpo vivo com o seu mandamento férreo de alimentação. MVR1: Livro IV §57 | ||
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| + | Um poder externo é tão pouco capaz de mudar essa Vontade, ou suprimi-la, quanto um poder estranho é capaz de livrá-lo dos tormentos da vida, fenômeno da Vontade. MVR1: Livro IV §59 | ||
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| + | Saniasis, mártires, santos de todas as crenças e nomes, suportaram voluntariamente de bom grado todos os martírios, visto que neles a Vontade de vida se suprimia; depois, até mesmo a lenta destruição do fenômeno da Vontade de vida lhes era bem-vinda. MVR1: Livro IV §59 | ||
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| + | A procriação, | ||
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| + | A justificativa para o sofrimento é o fato de a Vontade afirmar-se a si neste fenômeno, e esta afirmação é justificada e equilibrada pelo fato de a Vontade portar o sofrimento. MVR1: Livro IV §60 | ||
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| + | Em conformidade com o dito, a negação do próprio corpo já se expõe como uma contradição da Vontade com seu fenômeno, pois, embora também aqui o corpo objetive, nos genitais, a Vontade de propagação, | ||
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| + | Por outro lado, a quem pratica a injustiça apresenta-se por si mesmo o conhecimento de que ele, em si, é a mesma Vontade que também aparece no outro corpo, afirmando-se com tanta veemência num único fenômeno que, ao transgredir os limites do próprio corpo é de suas forças, torna-se negação exatamente dessa Vontade no outro fenômeno e, por conseguinte, | ||
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| + | Em verdade, o nosso horror em face do homicídio cometido e também o nosso tremor em vir a cometê-lo correspondem ao apego sem limites à vida, inerente a todo ser vivo como fenômeno da Vontade de vida (adiante lançaremos mais luz sobre aquele sentimento que acompanha a prática da injustiça e do mal, noutros termos, o peso de consciência, | ||
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| + | Ora, o sofrer injustiça é uma ocorrência na experiência, | ||
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| + | O fenômeno, a objetidade de uma única e mesma Vontade de vida, é o mundo em toda a pluralidade de suas partes e figuras. MVR1: Livro IV §63 | ||
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| + | Vê o padecimento, | ||
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| + | Verá que a diferença entre quem inflige o sofrimento e quem tem de suportá-lo é apenas fenômeno e não atinge a coisa-em-si, | ||
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| + | Se os olhos dos dois fossem abertos, quem inflige o sofrimento reconheceria que vive em tudo aquilo que no vasto mundo padece tormento, e, se dotado de faculdade de razão, ponderaria em vão por que foi chamado à existência para um tão grande sofrimento, cuja culpa ainda não percebe; o atormentado notaria que toda maldade praticada no mundo, ou que já o foi, também procede daquela Vontade constituinte de sua própria essência, que aparece nele, reconhecendo mediante este fenômeno e sua afirmação que ele mesmo assumiu todo sofrimento procedente da Vontade, e isso com justiça, suportando-os enquanto for essa Vontade. – MVR1: Livro IV §63 | ||
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| + | Como o homem é fenômeno da Vontade iluminado pelo mais claro conhecimento, | ||
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| + | Tudo o que, em se tratando de um grau comum de querer é sentido apenas numa medida modesta, produzindo também apenas um grau comum de disposição turvada, desperta, porém, na pessoa cujo fenômeno da Vontade atinge a crueldade extrema, necessariamente um tormento interior que vai além de toda medida, uma intranquilidade eterna, uma dor incurável; com isso, ela procura indiretamente o alívio do qual não é capaz diretamente, | ||
| + | |||
| + | Por mais que o Véu de Maya envolva espessamente os sentidos da pessoa má, noutros termos, por mais firmemente que ela se enrede no principio individuationis, | ||
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| + | Porém, este também nasce de um segundo e imediato conhecimento intimamente associado àquele primeiro, a saber, o da força com a qual a Vontade de vida se afirma no indivíduo mau e vai muito além de seu fenômeno individual até a completa negação da mesma Vontade que aparece em outro indivíduo. MVR1: Livro IV §65 | ||
| + | |||
| + | Reconhece a si como fenômeno concentrado da Vontade de vida, sente até que ponto está entregue à vida e com isto aos inumeráveis sofrimentos essenciais a esta, pois possui tempo sem fim e espaço sem fim para suprimir a diferença entre possibilidade e efetividade e, assim, transformar todos os tormentos até agora por ele meramente conhecidos em tormentos sentidos. MVR1: Livro IV §65 | ||
| + | |||
| + | Os milhões de anos de constante renascimento decerto subsistem apenas em conceito, bem como só em conceito existem todo o passado e todo o futuro: o tempo preenchido, ou seja, a forma do fenômeno da Vontade é apenas o presente, e para o indivíduo o tempo é sempre novo. MVR1: Livro IV §65 | ||
| + | |||
| + | Ao contrário do homem mau, não afirma só o próprio fenômeno da Vontade, negando todos os demais como se fossem simples máscaras com essência totalmente diferente da sua. MVR1: Livro IV §66 | ||
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| + | Por consequência, | ||
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| + | O homem nobre nota que a diferença entre si e outrem, que para o mau é um grande abismo, pertence apenas a um fenômeno passageiro e ilusório; | ||
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| + | Quando às vezes em meio aos nossos duros sofrimentos sentidos, ou devido ao conhecimento vivo do sofrimento alheio e ainda envoltos pelo Véu de Maya o conhecimento da nulidade e amargura da vida se aproxima de nós e gostaríamos de renunciar decisivamente para sempre ao espinho de suas cobiças e fechar a entrada a qualquer sofrimento, purificar-nos e santificar-nos, | ||
| + | |||
| + | Por outros termos, não mais adianta amar os outros como a si mesmo, por eles fazer tanto, como se fosse por si, mas nasce uma repulsa pela essência da qual seu fenômeno é expressão, vale dizer, uma repulsa pela Vontade de vida, núcleo e essência de um mundo reconhecido como povoado de penúrias. MVR1: Livro IV §68 | ||
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| + | Essencialmente fenômeno da Vontade, | ||
| + | |||
| + | Ora, após o exposto no segundo livro sobre a ligação de todos os fenômenos da Vontade, acredito poder assumir que, com o fenômeno mais elevado da Vontade, também o mais abaixo dela seria abolido, ou seja, o mundo animal. MVR1: Livro IV §68 | ||
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| + | Quem atingiu um tal patamar ainda sempre sente – como corpo animado pela vida, fenômeno concreto da Vontade – uma tendência natural à volição de todo tipo, porém a refreia intencionalmente, | ||
| + | |||
| + | Se, ao fim, advém a morte, que extingue este fenômeno da Vontade, cuja essência aqui há muito expirou pela livre negação de si mesma, exceto no fraco resto que aparece na vitalidade do corpo – então essa morte é muito bem-vinda e alegremente recebida como a redenção esperada. MVR1: Livro IV §68 | ||
| + | |||
| + | Seja-me aqui permitido, a fim de exprimir como após a mortificação da Vontade a morte do corpo (que é apenas fenômeno da Vontade, com cuja supressão ele portanto perde todo significado) não é tida como amarga, mas é muito bem-vinda, citar as próprias palavras daquela santa penitente, embora não sejam elegantemente empregadas: “Midi de la gloire; jour ou il n’y a plus de nuit; vie qui ne craint plus la mort, dans la mort même: parce que la mort a vaincu la mort, et que celui qui a souffert la première mort, ne goûtera plus la seconde mort” [“Zênite da glória. MVR1: Livro IV §68 | ||
| + | |||
| + | Pois, visto que o corpo é a Vontade mesma apenas na forma da objetidade ou como fenômeno do mundo como representação, | ||
| + | |||
| + | Seus atos criminosos de antanho não mais angustiam a sua consciência moral; penitenciam-nos de bom grado com a morte, e livres veem findar o fenômeno daquela Vontade, que agora lhes é estranha e gera repugnância. MVR1: Livro IV §68 | ||
| + | |||
| + | Um mundo que fosse o fenômeno de uma Vontade incomparavelmente mais veemente que a atual, exibiria sofrimentos tão mais intensos que, em verdade, seria um inferno. MVR1: Livro IV §68 | ||
| + | |||
| + | Quando destrói o fenômeno individual, ele de maneira alguma renuncia à Vontade de vida, mas tão-somente à vida. MVR1: Livro IV §69 | ||
| + | |||
| + | O sofrimento se aproxima e, enquanto tal, abre-lhe a possibilidade de negação da Vontade, porém ele a rejeita ao destruir o fenômeno da Vontade, o corpo, de tal forma que a Vontade permanece inquebrantável. – MVR1: Livro IV §69 | ||
| + | |||
| + | Ora, como o mero fenômeno, na medida em que é um membro na cadeia das causas, ou seja um corpo dotado de vida, continua a existir no tempo, que contém apenas fenômenos, a Vontade, que se manifesta através desse fenômeno, entra desse modo em contradição consigo mesma, pois nega o que o fenômeno expressa. MVR1: Livro IV §70 | ||
| + | |||
| + | Por outro lado, a doutrina cristã simboliza a graça, a negação da vontade, a redenção, no Deus tornado homem que, livre de toda pecaminosidade, | ||
| + | |||
| + | Os contínuos ímpetos e esforços sem alvo, sem repouso em todos o graus de objetidade nos quais e através dos quais o mundo subsiste, as multifacetadas formas seguindo-se uma à outra em gradação, todo o fenômeno da Vontade, por fim até mesmo as formas universais do fenômeno, tempo e espaço, e também a última forma dele, sujeito e objeto: tudo isso é suprimido com a Vontade. MVR1: Livro IV §71 | ||
| + | |||
| + | Entretanto, esta consideração é a única que nos pode consolar duradouramente, | ||
| + | |||
| + | Kant, decerto, não chegou ao conhecimento de que o fenômeno é o mundo como representação e a coisa-em-si é a Vontade. MVR1: Apêndice §71 | ||
| + | |||
| + | Contudo, na consciência comum não clareada pela filosofia, a vontade é de imediato confundida com seu fenômeno, e aquilo que pertence exclusivamente à Vontade é atribuído a este. MVR1: Apêndice §71 | ||
| + | |||
| + | Contudo, ao mesmo tempo, cada um não se reconhece, com crítica filosófica e clareza de consciência, | ||
| + | |||
| + | Só este seria o caminho direto para o conhecimento daquilo que não é fenômeno, consequentemente também não é encontrado segundo as leis do fenômeno, mas é aquilo que se manifesta pelo fenômeno, torna-se cognoscível, | ||
