schopenhauer:schopenhauer-mvr1-estetica
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| + | ====== ESTÉTICA (MVR1) ====== | ||
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| + | Quando se levam em conta os diferentes lados desse pensamento único a ser comunicado, ele se mostra como aquilo que se nomeou seja Metafísica, | ||
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| + | De fato, embora se possa dizer que a lógica está para o pensamento racional como o baixo fundamental para a música, e, também, em termos menos precisos, que a ética está para a virtude como a estética para a arte, tem-se de notar, em contrapartida, | ||
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| + | Também a estética, e mesmo a ética, pode ter utilidade na prática, embora em grau muito menor e em geral apenas negativamente; | ||
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| + | Se, portanto, não há homens absolutamente incapazes de satisfação estética, | ||
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| + | Por consequência, | ||
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| + | Por meio de todas essas considerações espero ter tornado claro de que espécie e envergadura é a participação que possui a condição subjetiva da satisfação estética, ou seja, a libertação do conhecer a serviço da vontade, o esquecimento de si-mesmo como indivíduo e a elevação da consciência ao puro sujeito do conhecer, atemporal e destituído de vontade, independente de todas as relações. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §38] | ||
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| + | Ora, junto com esse lado subjetivo da contemplação estética sempre entra em cena simultaneamente, | ||
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| + | Antes, porém, de passarmos à consideração mais detalhada desse lado objetivo e das realizações da arte a ele relacionadas, | ||
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| + | Nesse sentido, pode-se inferir que o conhecer puro, livre e isento de todo querer é o mais altamente aprazível e, nele mesmo, possui uma substancial participação na fruição estética. – [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §38] | ||
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| + | Tal é a base de nossa alegria estética, que, no principal, enraíza-se integralmente no fundamento subjetivo da satisfação estética, e é alegria do puro conhecer e seus caminhos. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §38] | ||
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| + | A todas essas considerações que intentam salientar a parte subjetiva da satisfação estética, vale dizer, que essa satisfação é a alegria do simples conhecimento intuitivo enquanto tal, em oposição à Vontade, liga-se imediatamente à seguinte explanação daquela disposição que se denominou sentimento do sublime. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §39] | ||
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| + | Sim, é notável como o reino vegetal em particular convida à consideração estética, como que a exige. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §39] | ||
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| + | Enquanto esse vir-ao-encontro da natureza e a significação e distinção de suas formas mediante as quais nos falam as Ideias nelas individualizadas for o que nos tira do conhecimento das meras relações que servem à vontade, pondo-nos no estado de contemplação estética, para assim nos elevar a puro sujeito do conhecer destituído de Vontade, é simplesmente o belo que age sobre nós, e o sentimento aí despertado é o da beleza. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §39] | ||
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| + | Penso ser mais apropriado para a minha exposição primeiro trazer diante dos olhos essas gradações e, em geral, os graus mais fracos de impressão do sublime, embora aqueles de receptividade estética não tão grande e fantasia não tão vivaz só possam compreender os exemplos que logo depois serão fornecidos dos graus mais elevados e distintos do sublime – únicos nos quais podem se deter, podendo portanto deixar de lado os primeiros exemplos dos graus mais débeis da mencionada impressão. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §39] | ||
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| + | Aí aparece intuitivamente diante dos olhos a nossa dependência, | ||
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| + | Um deles, bem inferior, encontra-se nas naturezas-mortas dos neerlandeses, | ||
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| + | Na pintura de gênero e na escultura o excitante consiste nas suas figuras nuas, cujo posicionamento, | ||
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| + | Trata-se do repugnante, o qual, assim como o excitante em sentido estrito, desperta a vontade do espectador e, com isso, destrói a pura consideração estética. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §40] | ||
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| + | Pois é apenas uma modificação especial deste lado o que diferencia o sublime do belo, a saber, se o estado do puro conhecer destituído de Vontade, pressuposto e exigido por toda contemplação estética, apareceu por si mesmo sem resistência, | ||
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| + | Pois em cada um deles o objeto da consideração estética não é a coisa isolada, mas a Ideia que nela se esforça por revelação, | ||
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| + | Quando nomeamos um objeto belo, dizemos que ele é objeto de nossa consideração estética, e isso envolve dois fatores. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §41] | ||
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| + | As belas jardinagem e arquitetura podem apenas ajudá-las a desdobrar suas qualidades distintamente, | ||
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| + | Mesmo edifícios ruins ainda são passíveis de consideração estética: as Ideias das qualidades gerais da sua matéria permanecem reconhecíveis, | ||
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| + | Todavia, a fonte da fruição estética residirá ora mais na apreensão da Ideia conhecida, ora mais na bem-aventurança e tranquilidade espiritual do conhecer puro, livre de todo querer e individualidade e do tormento ligado a ela. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §42] | ||
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| + | A predominância de um ou outro componente da fruição estética dependerá de a Ideia apreendida intuitivamente ser um grau elevado ou mais baixo de objetidade da Vontade. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §42] | ||
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| + | Assim, tanto na consideração estética (na efetividade, | ||
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| + | Se, ao contrário, o objeto da consideração ou da exposição estética forem animais e homens, a fruição residirá mais na apreensão objetiva dessas Ideias, as quais são a manifestação mais clara da Vontade, pois expõem a grande variedade de figuras, a riqueza e o significado profundo | ||
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| + | Cada qualidade desta é também sempre fenômeno de uma Ideia e, como tal, passível de uma consideração estética, isto é, conhecimento da Ideia que nela se expõe. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §43] | ||
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| + | Em conformidade com o que foi dito é absolutamente indispensável à compreensão e fruição estética de uma obra da arquitetura ter um conhecimento intuitivo e imediato de sua matéria, relacionado ao peso, à rigidez e à coesão. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §43] | ||
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| + | Porque as Ideias trazidas à nítida intuição pela arquitetura são os graus mais baixos de objetidade da Vontade e, por consequência, | ||
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| + | Nesse sentido, o oposto da arquitetura e o outro extremo na série das belas artes é o drama, o qual leva a conhecimento as Ideias mais significativas; | ||
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| + | Portanto, na medida em que o reino vegetal (que sem intermediação da arte se oferece em todo lugar à fruição estética) é objeto da arte, pertence ele antes de tudo à pintura de paisagem. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §44] | ||
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| + | Em naturezas-mortas, | ||
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| + | O efeito da pintura de paisagem propriamente dita é, de fato e no todo, também desse tipo: só que, como as Ideias expostas são graus mais elevados de objetidade da Vontade e, portanto, mais expressivas e significativas, | ||
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| + | Nessas exposições, | ||
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| + | A paz do sujeito que conhece essas Ideias e que silenciou a própria vontade está aqui de fato presente, como em toda consideração estética; apesar de o seu efeito não ser sentido, pois nos ocupa a agitação e a veemência da Vontade exposta. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §44] | ||
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| + | Ora, se nenhum objeto atrai tão rapidamente para a intuirão estética quanto a figura e o belo semblante humanos, cuja visão nos arrebata instantaneamente com uma satisfação inexprimível, | ||
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| + | A escultura grega apela à intuição, pelo que é estética. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro III §50] | ||
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| + | Todavia, em virtude da verdade amplamente confirmada da expressão de Leibniz, a música, aparte sua significação estética ou interior, e considerada só de maneira empírica e exterior, é tão-somente o meio de apreender, imediatamente e in concreto, grandes números e relações numéricas complexas, que do contrário só poderíamos apreender mediatamente, | ||
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| + | Teria ainda muito a adicionar sobre a forma como a música é percebida, a saber, única e exclusivamente por meio do tempo, com total exclusão do espaço, também sem influência do conhecimento da causalidade, | ||
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| + | É sempre uma exceção se um semelhante decurso de vida sofre uma interferência e, devido a um conhecer independente do serviço da vontade e direcionado à essência do mundo em geral, conduz à demanda pela contemplação estética ou à demanda pela renúncia ética. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §60] | ||
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| + | Deve-se recordar do terceiro livro que a alegria estética no belo consiste em grande parte no fato de que nós, ao entrarmos no estado de pura contemplação, | ||
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| + | Em vão Jean Paul escreveu seus belos parágrafos “alta dignificação da loucura filosófica na cátedra e da poética no teatro” (escola estética superior); Goethe também já havia escrito em vão: So schwätzt und lehrt man ungestört, / Wer mag sich mit den Narr’n befassen? / Gewöhnlich glaubt der Mensch, wenn er nur Worte hört, / Es musse sich dabei doch auch was denken lassen . [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | A estética transcendental é uma obra tão extraordinariamente meritória, que, sozinha, teria bastado para eternizar o nome de Kant. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Por conseguinte, | ||
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| + | Após a detalhada discussão, na estética transcendental, | ||
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| + | Nesse sentido, que distância entre a estética transcendental e a analítica transcendental! Lá, que clareza, determinidade, | ||
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| + | Na estética transcendental todas as proposições são efetivamente demonstradas a partir de fatos inegáveis da consciência; | ||
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| + | Nesse sentido, assim como a estética transcendental demonstra um fundamento a priori para a matemática, | ||
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| + | A partir daí Kant não estava mais livre, não estava mais no estado de investigação e observação puras daquilo que se encontra presente na consciência, | ||
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| + | Se fosse diferente, não haveria aquela grande lacuna entre a estética transcendental e a lógica transcendental, | ||
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| + | Quase todos os partidos filosóficos e manuais doutrinários a admitiram e repetiram, até mesmo com reelaboração, | ||
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| + | Sobre a refutação detalhada da teologia especulativa, | ||
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| + | No que tange à execução da tarefa, não havia necessidade alguma, em vista da refutação da prova ontológica da existência de Deus, de uma crítica à razão, pois também sem a pressuposição da estética e da analítica transcendentais é bastante fácil tornar claro que aquela prova ontológica nada é senão um jogo sutil e astuto com conceitos, sem nenhuma força de convencimento. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Por fim temos de reconhecer – o que também deu origem à doutrina cristã da eleição pela graça – que no principal e em seu interior a virtude é em certa medida inata como o gênio e, assim, os professores de estética, com todas as suas forças reunidas, são tão incapazes de atribuir a alguém a capacidade de produções geniais, isto é, de autênticas obras de arte, quanto o são todos os professores de ética e pregadores da virtude de transformar um caráter não nobre num caráter virtuoso e nobre. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | O que agradava como belo, o que não, o que devia ser imitado, almejado, o que devia ser evitado, quais regras, ao menos negativamente, | ||
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| + | E especial com essa intenção, Alexandre Baumgarten elaborou uma estética geral de todo belo, em que partiu do conceito de perfeição do conhecimento sensível, portanto intuitivo. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Em referência à crítica da faculdade de juízo estética, antes de tudo se nos impõe a observação de que Kant mantém o método que é peculiar a toda a sua filosofia (por mim considerado em detalhe mais acima), quero dizer, o partir do conhecimento abstrato para fundamentação do intuitivo, de tal modo que o primeiro serve, por assim dizer, de camera obscura, na qual o segundo é fixado e examinado. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Ora, assim como na crítica da razão pura as formas do juízo deviam dar informação sobre o conhecimento de todo o nosso mundo intuitivo, também na crítica da faculdade de juízo estética Kant não parte do belo mesmo, intuitivo, imediato, mas do juízo sobre o belo, do chamado, e muito feiamente, juízo de gosto. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Com estas três faculdades de conhecimento, | ||
