schopenhauer:schopenhauer-mvr1-absoluto
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| + | ====== ABSOLUTO (MVR1) ====== | ||
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| + | O leitor sempre me encontrará no ponto de vista da reflexão, isto é, da deliberação racional, nunca no ponto de vista da inspiração chamado intuição intelectual, | ||
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| + | A filosofia da identidade, nascida em nosso tempo e de todos conhecida, poderia não ser compreendida sob a citada oposição, na medida em que não torna o sujeito nem o objeto o ponto de partida propriamente dito, mas um terceiro, o absoluto cognoscível por intuição-racional , que não é sujeito nem objeto, mas o indiferenciado. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro I §7] | ||
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| + | Embora a ausência completa de qualquer intuição-racional me impeça de falar da mencionada indiferenciação e do absoluto, todavia, na medida em que tenho acesso a todos os protocolos dos contempladores-racionais , também abertos a nós profanos, tenho de observar que a dita filosofia não pode ser excluída da oposição anteriormente estabelecida entre os dois erros, já que, apesar da identidade entre sujeito e objeto (não pensável, e intuível apenas intelectualmente, | ||
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| + | Porém, o que aqui será mencionado encontra em grande parte o seu lugar em outro contexto, a saber, no apêndice deste livro, em que se contesta a existência da chamada razão prática de Kant, que ele (certamente por comodidade) expõe como fonte imediata de todas as virtudes e sede de um deve absoluto (ou seja, caído do céu). [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro I §16] | ||
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| + | Por exemplo, se é conforme a dada lei natural que, uma vez na reunião de certos estofos sob determinadas circunstâncias, | ||
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| + | Obviamente tudo isso perde a significação no espaço infinito (pois o movimento no espaço absoluto não difere do repouso), o que justamente tem de ser reconhecido – como já teria de ser leito imediatamente com o esforço e o vagar sem fim definido – como expressão daquela nulidade, daquela ausência de um fim último, própria do esforço da Vontade | ||
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| + | O ponto de vista dado e o modo de abordagem indicado já sugerem que neste livro de ética não se devem esperar prescrições nem doutrinas do dever, muito menos o estabelecimento de um princípio moral absoluto parecido a uma receita universal para a produção de todas as virtudes. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §53] | ||
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| + | Ora, visto que o mundo efetivo e cognoscível jamais recusará matéria e realidade também para nossas considerações éticas, tampouco quanto o recusou para as considerações anteriores, nada será menos necessário do que procurarmos refúgio em conceitos negativos e vazios de conteúdo, para assim fazer acreditar que dizemos algo quando levantamos solenemente as sobrancelhas e pronunciamos “absoluto”, | ||
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| + | Dessa forma, bom absoluto é uma contradição. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §65] | ||
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| + | Não há bem supremo algum, bom absoluto algum para ela, mas sempre apenas um bom temporário. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §65] | ||
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| + | Todavia, caso queiramos conferir uma posição honorífica ou, por assim dizer, emérita a uma antiga expressão que não gostaríamos de deixar por completo em desuso, podemos, metafórica e figurativamente, | ||
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| + | É até possível pensar que um Estado perfeito ou mesmo um dogma acerca das recompensas e punições após a morte (a que se concede crédito absoluto) previnam todo crime. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §66] | ||
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| + | A despeito dos dogmas, costumes e regiões tão fundamentalmente diferentes, a aspiração e a vida interior deles é em absoluto a mesma; também os seus preceitos: por exemplo, Tauler fala da pobreza completa que se deve procurar e que consiste na renúncia total a tudo aquilo que é passível de proporcionar um consolo ou gozo mundano; evidentemente porque tudo isto fornece nova alimentação à Vontade, cuja mortificação completa é intentada. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §68] | ||
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| + | Porém, numa consideração mais acurada, não existe o nada absoluto, não existe um nihil negativum propriamente dito, nem sequer ele é pensável; mas, qualquer nada deste gênero, considerado de um ponto de vista superior, ou subsumido em um conceito mais amplo, é sempre apenas um nihil privativum. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §71] | ||
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| + | Até mesmo uma contradição lógica é um nada relativo: embora não seja um pensamento da razão, nem por isso é um nada absoluto. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §71] | ||
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| + | Segue-se de tudo o que foi dito que todo nihil negativum ou nada absoluto, se subordinado a um conceito mais elevado, aparece como um mero nihil privativum, ou nada relativo, o qual, portanto, sempre pode trocar o sinal com aquilo que ele nega; de tal maneira que isto é pensado como negação, e aquilo, entretanto, como posição. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Livro IV §71] | ||
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| + | Acredito que um preconceito antigo e arraigado, que carece de toda investigação, | ||
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| + | Tão pouco pensável quanto uma necessidade absoluta é um acaso absoluto. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | A inconcebilidade de uma tal coisa é justamente o conteúdo negativamente expresso do princípio de razão, que portanto teria primeiro de ser abolido, a fim de pensar um acaso absoluto. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | A validade do princípio de razão está tão arraigada na forma da consciência que é absolutamente impossível representar algo objetivo sem que dele se pudesse mais exigir um “por que”; portanto, não se pode postular um Absoluto absoluto, como uma venda nos olhos. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Que a comodidade faça esta ou aquela pessoa deter-se em algum lugar e arbitrariamente assumir tal absoluto, em nada adianta contra aquela inabalável certeza a priori, mesmo que, ao fazê-lo, assuma um ar e feições pomposas. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | De fato, todo o discurso sobre o absoluto, este tema quase exclusivo das filosofias ensaiadas desde Kant, nada é senão a prova cosmológica incognito. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Se os senhores querem absolutamente ter um absoluto, gostaria de pôr-lhes um à mão, e que satisfaz todas as exigências de uma tal coisa, e bem melhor do que suas esgarçadas figuras de nuvens: trata-se da matéria. [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
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| + | Que mais se pode exigir de um absoluto? – Mas àqueles aos quais a crítica da razão não surtiu efeito algum dever-se-ia antes bradar: | ||
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| + | A possibilidade de que a série causai finde algum dia num estado de repouso absoluto, isto o podemos pensar, mas de maneira alguma a possibilidade de um começo absoluto | ||
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| + | A possibilidade de que a série causai finde algum dia num estado de repouso absoluto, isto o podemos pensar, mas de maneira alguma a possibilidade de um começo absoluto | ||
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| + | De resto, no que me concerne, tenho de confessar: em minha limitação, | ||
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| + | Ademais, o lugar de nascimento desse filho da razão prática, o deve absoluto ou imperativo categórico, | ||
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| + | O conteúdo do “deve” absoluto, lei fundamental da razão prática é, pois, o famoso: “Age de tal maneira que a máxima de tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”. – [tr. Jair Barboza; SMVR1: Apêndice §71] | ||
