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rosset:rosset-200813-18-a-ilusao-cega

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 Na ilusão, quer dizer, na forma mais corrente de afastamento do real, não se observa uma recusa de percepção propriamente dita. Nela a coisa não é negada: mas apenas deslocada, colocada em outro lugar. Mas no que concerne à aptidão para ver, o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro. Esta verdade aparentemente paradoxal se torna perceptível a partir do momento cm que pensamos no que se passa com a pessoa cega, tal como nos mostra a experiência concreta e cotidiana, ou ainda o romance e o teatro. Alceste, por exemplo, em O misantropo, vê bem, de forma perfeita e total, que Célimène é uma coquete: esta percepção, que ele acolhe todo dia sem protestar, nunca é posta em questão. E, no entanto, Alceste está cego: não por não ver, mas por não associar seus atos à sua percepção. O que vê é colocado como fora de circuito: o coquetismo de Célimène é percebido e admitido, mas estranhamente separado dos efeitos que seu reconhecimento deveria normalmente acarretar no plano prático. Pode-se dizer que a percepção do iludido é como que cindida em dois: o aspecto teórico (que designa justamente “aquilo que se vê”, de théorein) emancipa-se artificialmente do aspecto prático (“aquilo que se faz”). Aliás, é por isso que este homem afinal de contas "normal” que é o iludido está, no íntimo, muito mais  doente do que o neurótico: porque, de maneira diferente do segundo, ele é deliberadamente incurável. Aquele que está cego é incurável não por ser cego, mas sim por ser dotado de visão: porque é impossível lhe “fazer ver de outra forma” algo que já viu e que ainda vê. Toda “advertência” é vã: não se poderia “advertir” alguém que já tem, debaixo dos olhos, aquilo que se pretende que ele veja. No recalcamento, na forclusão, o real pode eventualmente reaparecer, se acreditarmos na psicanálise, graças a um “retorno do recalcado”, nos sonhos e nos atos falhos. Mas, na ilusão, esta esperança é vã: o real não voltará jamais, porque já está aí. Observaremos de passagem a que ponto o doente de que os psicanalistas se ocupam representa um caso anódino e, em suma, benigno, em comparação com o homem normal. Na ilusão, quer dizer, na forma mais corrente de afastamento do real, não se observa uma recusa de percepção propriamente dita. Nela a coisa não é negada: mas apenas deslocada, colocada em outro lugar. Mas no que concerne à aptidão para ver, o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro. Esta verdade aparentemente paradoxal se torna perceptível a partir do momento cm que pensamos no que se passa com a pessoa cega, tal como nos mostra a experiência concreta e cotidiana, ou ainda o romance e o teatro. Alceste, por exemplo, em O misantropo, vê bem, de forma perfeita e total, que Célimène é uma coquete: esta percepção, que ele acolhe todo dia sem protestar, nunca é posta em questão. E, no entanto, Alceste está cego: não por não ver, mas por não associar seus atos à sua percepção. O que vê é colocado como fora de circuito: o coquetismo de Célimène é percebido e admitido, mas estranhamente separado dos efeitos que seu reconhecimento deveria normalmente acarretar no plano prático. Pode-se dizer que a percepção do iludido é como que cindida em dois: o aspecto teórico (que designa justamente “aquilo que se vê”, de théorein) emancipa-se artificialmente do aspecto prático (“aquilo que se faz”). Aliás, é por isso que este homem afinal de contas "normal” que é o iludido está, no íntimo, muito mais  doente do que o neurótico: porque, de maneira diferente do segundo, ele é deliberadamente incurável. Aquele que está cego é incurável não por ser cego, mas sim por ser dotado de visão: porque é impossível lhe “fazer ver de outra forma” algo que já viu e que ainda vê. Toda “advertência” é vã: não se poderia “advertir” alguém que já tem, debaixo dos olhos, aquilo que se pretende que ele veja. No recalcamento, na forclusão, o real pode eventualmente reaparecer, se acreditarmos na psicanálise, graças a um “retorno do recalcado”, nos sonhos e nos atos falhos. Mas, na ilusão, esta esperança é vã: o real não voltará jamais, porque já está aí. Observaremos de passagem a que ponto o doente de que os psicanalistas se ocupam representa um caso anódino e, em suma, benigno, em comparação com o homem normal.
  
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