rosset:anfitrion
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| + | ====== ANFÍTRION ====== | ||
| + | ==== Le Philosophe et les sortilèges ==== | ||
| + | Numa passagem particularmente interessante do Livro II do Seminário, dedicado ao Anfítrion de Plauto e de Molière, Lacan aborda o tema do duplo, que está profundamente ligado, tal como o do extraterrestre, | ||
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| + | Quem vai lá? - Eu. - Quem, eu? - Eu. Coragem, Sosia. | ||
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| + | Mas entre Sosia e seu duplo o combate é desigual: Mercúrio, o duplo, não tarda a vencer. Ele surra seu original em toda ocasião, recusa qualquer comprometimento (Sosia: Façamos em boa paz viver os dois Sosias; Mercúrio: Não, basta um só; e sou obstinado em não tolerar partilha) e acaba por arrancar de Sosia, de concessão em concessão (Sosia: E de mim eu começo a duvidar de verdade), uma abdicação completa, ou seja, uma renúncia pura e simples à sua identidade. Numa tirada notável, dirigida a Anfítrion irado que quer saber quem impediu seu criado de cumprir sua missão, Sosia traça assim o retrato de seu duplo triunfante: | ||
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| + | É preciso repetir vinte vezes da mesma forma? | ||
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| + | Eu, digo-vos; este eu mais robusto que eu; | ||
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| + | Este eu, que se apossou à força da porta; | ||
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| + | Este eu, que me fez andar na linha; | ||
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| + | Este eu, que quer ser o único eu; | ||
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| + | Este eu, de mim mesmo ciumento; | ||
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| + | Este eu valente, cuja fúria | ||
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| + | Ao eu covarde se fez conhecer; | ||
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| + | Enfim, este eu que está em nossa casa; | ||
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| + | Este eu, que se mostrou meu mestre; | ||
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| + | Este eu, que me cobriu de golpes. | ||
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| + | Sabe-se que a mesma desventura acontece a Anfítrion (duplicado ele por Júpiter) que não consegue recuperar nem sua esposa nem sua identidade, e isso por causa disto. Pois trata-se de uma forma de chifre muito particular, e muito refinada, que implica bem esta negação de si pelo outro que define todo ciúme, mas levada aqui a um grau extraordinariamente cruel: já que o outro, neste caso, não é outro senão a si mesmo. Proíbe-se Anfítrion de entrar em casa de sua mulher porque Anfítrion já está lá, ocupado em fazer amor com ela: | ||
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| + | MERCÚRIO: | ||
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| + | Vai-te, retira-te, | ||
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| + | E deixa Anfítrion nos prazeres que ele desfruta. | ||
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| + | ANFÍTRION: | ||
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| + | Como! Anfítrion está lá dentro? | ||
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| + | MERCÚRIO: | ||
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| + | Muito bem, | ||
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| + | Que, coberto com os louros de uma vitória plena, | ||
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| + | Está junto à bela Alcmene, | ||
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| + | A desfrutar das doçuras de uma amável conversa. | ||
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| + | Após a disputa de um capricho amoroso, | ||
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| + | Eles desfrutam do prazer de se terem reconciliado. | ||
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| + | Guarda-te de perturbar suas doces intimidades, | ||
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| + | Se não queres que ele puna | ||
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| + | O excesso de tuas temeridades. | ||
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| + | Encontra-se aqui, em primeiro lugar, a situação clássica e dolorosa do amante preterido (aquela que amas não pode receber-te, ocupada que está a fazer amor; contudo, não se te censura: se fores embora neste exato momento, sem pedir mais nada, nenhum mal te será feito). Mas aqui acontece algo que leva ao auge o mecanismo da expulsão que constitui o cerne do sofrimento causado pelo ciúme: nisto, o ciumento não precisa sequer ser negado, já que cessou simplesmente de ser aquele que teria de ser ciumento, e eventualmente expulso. Negá-lo-íamos de bom grado, se ele fosse alguém; mas eis que ele já não é nada, tendo passado do estado de rival importuno para o de puro não-rival, por não ser (já que o eu que ele pretende ser está noutro lugar, presentemente ocupado a " | ||
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