paul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:venus-e-adonis
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| + | ====== « Vênus e Adônis », « O Rapto de Lucrécia » e Os Sonetos ====== | ||
| + | //ARNOLD, Paul. Ésotérisme de Shakespeare. Paris: Mercure de France, 1955.// | ||
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| + | === Apêndice I === | ||
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| + | Shakespeare dedicou Vênus e Adônis ao senhor Henry Wriothesley, | ||
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| + | Foi um sucesso de livraria e quase um sucesso de escândalo. O ardente apelo de Vênus exaltando a lubricidade chocou os espíritos puritanos. Davies de Hereford ficou « ofuscado por essa ciência do amor » e ainda mais pelo interesse que as damas tinham nessa leitura: « Nossas damas mais castas, escreve ele, leem esses versos em segredo e, mesmo quando não fazem outro mal, perdem-se em especulações voluptuosas ». Daí a dizer que Vênus e Adônis não é senão um « apelo para a voluptuosidade sexual », há apenas um passo que tal comentarista moderno transpõe alegremente. Outros, mais numerosos, identificam Adônis a Southampton, | ||
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| + | Southampton — Harry — tinha então dezenove anos. Burleigh, primeiro ministro da rainha Elizabeth, encarregado da vigilância do jovem conde após a morte de seu pai, partidário de Maria Stuart, esforçou-se por casá-lo com sua neta, filha do conde de Oxford, Elisabeth de Vere, de quem ele assegurava a tutela. Lady Southampton mãe de Harry, apoiou esse projeto. Mas Harry, por razões perfeitamente desconhecidas (as suposições correm soltas, da parte sobretudo dos defensores da sodomia de Harry e de Shakespeare), | ||
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| + | Tudo isso — que pouco nos interessa — parece lógico, e essas poucas incidências bastam aos comentadores para explicar o nascimento dessa admirável série de sonetos. Mas releiamo-los. | ||
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| + | Das mais belas criaturas desejamos uma progênie, \\ | ||
| + | para que assim a rosa da beleza nunca morra \\ | ||
| + | e que quando a mais madura cai sob o golpe do tempo \\ | ||
| + | seu terno herdeiro possa levar sua memória: \\ | ||
| + | mas tu, noivo do brilho de teus próprios olhos, \\ | ||
| + | nutres a chama de tua luz com tua própria substância, | ||
| + | Tem piedade do mundo, senão glutão como tu és \\ | ||
| + | e o túmulo, devorareis o que é devido ao mundo. \\ | ||
| + | (SONETO I.) | ||
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| + | Onde está o louco que quer ser o túmulo \\ | ||
| + | de seu amor-próprio para deter a posteridade? | ||
| + | Em não tendo comércio senão contigo mesmo \\ | ||
| + | roubas teu doce tu mesmo a ti mesmo: \\ | ||
| + | ah, quando a natureza te chamar a morrer, \\ | ||
| + | que conta aceitável poderás deixar? \\ | ||
| + | Tua beleza não empregada será posta no túmulo contigo, \\ | ||
| + | se a empregasses, | ||
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| + | Essas horas que formaram por seu doce trabalho \\ | ||
| + | o olhar mais amável que jamais habitou um olho \\ | ||
| + | fariam de tiranos para esse mesmo olhar \\ | ||
| + | e o que é feio triunfaria sobre o que é belo. (SONETO V.) | ||
| + | |||
| + | Ora, em Vênus e Adônis, a deusa do amor, manifestamente aborrecida pelo poeta como pelo próprio Adônis, repete traço por traço e quase palavra por palavra os mesmos argumentos. Procurando vencer a pudicícia e a castidade do adolescente, | ||
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| + | Desprezando uma castidade sem fruto (fruitless chastity) \\ | ||
| + | as vestais faltando amor e as freiras que a si mesmas se amam \\ | ||
| + | quereriam espalhar sobre a terra o deserto, \\ | ||
| + | e a estéril penúria de filhas e de filhos. \\ | ||
| + | Sê pródigo: a lâmpada que queima a noite \\ | ||
| + | consume seu óleo para emprestar ao mundo sua luz. \\ | ||
| + | Teu corpo é outra coisa senão um túmulo que engole \\ | ||
| + | semelhança sepultando essa posteridade \\ | ||
| + | que pelos direitos do tempo deverias ter \\ | ||
| + | se não a enterras nas trevas obscuras? \\ | ||
| + | Se o fizeres, o mundo te marcará seu desprezo, \\ | ||
| + | pois por teu orgulho uma esperança tão bela será destruída. \\ | ||
| + | Assim és tu mesmo por ti mesmo destruído; \\ | ||
| + | um mal pior que a guerra civil, \\ | ||
| + | ou que aquele dos homens que com uma mão desesperada se fere a si mesmo \\ | ||
| + | ou do assassino que tira a vida a seu filho. \\ | ||
| + | O câncer podre da ferrugem rói o tesouro oculto, \\ | ||
| + | mas o ouro que se colocou produz mais ouro. | ||
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| + | É manifesto que os dois apelos se assemelham, partem de uma mesma filosofia (ou de um mesmo sofisma), tendem aos mesmos fins por um mesmo arsenal de metáforas e ideias. E posto que é claro e palpável que o poema inteiro de Vênus e Adônis passa condenação sobre a deusa, acusa sua lubricidade, | ||
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| + | Adônis, discípulo da casta Diana caçadora, é « desdenhoso do prazer » (unapt to toy) e « gelado quanto ao desejo » (frosty in desire); « não tem apetite » para o prazer (leaden appetite). Casto até o heroísmo, será vencido « não pela voluptuosidade (not in lust) mas pela força », a violência, a armadilha da deusa desdenhada. Conformando suas metáforas à imagética ocultista, os elisabetanos opunham à castidade « gelada », o « calor » e « a vermelhidão » do desejo. É por isso que todo calor, mesmo aquele do sol, repugna a Adônis, « o sol o queima no rosto », e se é « vermelho », é de « pudor » (shame). Vênus por outro lado, é « vermelha e quente como o carvão de um fogo ardente ». « Seu sangue ferve » e o calor do sol lhe parece « apenas tépido ». Tais são os efeitos dessa « luxúria » (lust) que lhe inspira gestos loucos e uma « linguagem luxuriosa » (lustful). Tal é a oposição Diana-Vênus sobre a qual repousa a tragédia de Adônis e a filosofia do poema inteiro: deusa da castidade contra deusa da carne. | ||
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| + | Comentadores modernos que amam os sistemas e as simetrias primárias procuraram opor Vênus e Adônis ao Rapto de Lucrécia, publicado um ano mais tarde e dedicado ao mesmo Southampton. Ao « apelo para a voluptuosidade sexual » faria par um « poema em honra da castidade conjugal ». | ||
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| + | Nada mais inexato. A situação é idêntica nos dois poemas: à castidade faz face a figura gorgônica, a voluptuosidade condenável. Lucrécia « a casta » tem « a brancura da virtude » (virtue’s white); seu queixo é branco como o pano de sua cama, e se uma vermelhidão sobe a seu rosto, é a do pudor, aquela que « a Virtude reclama à Beleza », como ocorre com Adônis. Tarquínio ao contrário, como Vênus, é possuído pela « luxúria » (lust) e o « desejo carmesim ». É dominado pela « ardor (heat) louca e falsa », « a vontade ardente ». E da mesma forma que Vênus queima do « desejo » que « vê melhor a noite », da mesma forma Tarquínio « encontra seu cúmplice na noite onde vigiam luxúria e assassinato ». | ||
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| + | O paralelo vai mais longe ainda. A situação respectiva dos casais é a mesma: um dos parceiros sente pelo outro um desejo ilícito — seja consumação antes do casamento (Vênus), seja desejo adúltero (Tarquínio). É em nome da única castidade que uma e outra vítimas recusam o prazer e morrem. Mas tomemos bem cuidado! Não se trata, no pensamento de Shakespeare, | ||
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| + | Quem veste uma roupa sem forma e inacabada? \\ | ||
| + | Quem colhe o botão antes que uma única folha tenha crescido? \\ | ||
| + | Se as coisas primaveris são diminuídas nem que seja um pouco, \\ | ||
| + | elas murcham em sua primazia, não têm mais nenhum valor. \\ | ||
| + | O potro que se montou e selou em sua juventude \\ | ||
| + | carecerá de orgulho e nunca se torna forte. | ||
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| + | E ainda: | ||
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| + | Bela rainha, diz ele, se deves ter amor por mim, \\ | ||
| + | mede meu pudor à minha idade demasiado verde: \\ | ||
| + | antes que eu me conheça a mim mesmo, não procures me conhecer; \\ | ||
| + | o pescador não pega o alevino, \\ | ||
| + | a ameixa madura deve cair; verde ela se agarra ao ramo, \\ | ||
| + | ou se a colhem demasiado cedo é azeda ao gosto. | ||
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| + | Não se poderia ser mais claro: Adônis não recusa a união dos corpos; recusa a união apressada, prematura, o efeito da voluptuosidade, | ||
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| + | E da mesma forma a castidade de Lucrécia não é uma castidade virginal, posto que é a esposa, segundo a lei, de Colatino a quem não recusou seu corpo. Da mesma forma que Desdêmona reclamará altamente « os direitos sagrados (ritos) (do matrimônio) pelos quais ela ama » Otelo, da mesma forma Lucrécia emprestou seu corpo ao esposo. | ||
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| + | Da continência, | ||
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| + | Tal é a oposição que Shakespeare entende marcar entre os parceiros. Enquanto Tarquínio busca um « prazer terrestre » (earth’s delight), uma « pressa não santificada » (unhallow’d), | ||
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| + | Tal é o sentido profundo da estupenda « psicologia do vício » que contém O Rapto de Lucrécia: | ||
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| + | O prazer se sacia rápido e logo nos repugna. \\ | ||
| + | Tarquínio saciado \\ | ||
| + | seu gosto afinado, tratando-se da digestão \\ | ||
| + | devora seu desejo que vivia de sua glutonaria devoradora. \\ | ||
| + | Pois o prazer é passageiro e se paga por pesadas penas: \\ | ||
| + | Seu prazer de um instante gera meses de pena; \\ | ||
| + | tal corre e ronca seu prazer evanescido, detestado. \\ | ||
| + | Quer esquecê-lo e tem pressa de ver aparecer o dia. | ||
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| + | E mais adiante: | ||
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| + | Ó pecado demasiado insondável para que o pensamento sem forma \\ | ||
| + | possa alguma vez te compreender no silêncio da imaginação! \\ | ||
| + | O ébrio Desejo deve vomitar o que engoliu \\ | ||
| + | antes de avistar sua própria abominação. \\ | ||
| + | Enquanto a luxúria se ergue em seu orgulho \\ | ||
| + | nenhum grito pode abater seu calor ou refrear seu desejo arrebatado \\ | ||
| + | até que, como um cavalo exausto, a teimosia (self-will) se canse. | ||
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| + | O amor-paixão é um mal coeterno à humanidade por um decreto dos deuses, um decreto de Vênus que, à morte de Adônis, exclama: | ||
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| + | Pois tu estás morto, eu predigo aqui \\ | ||
| + | que doravante a dor escoltará o amor: \\ | ||
| + | acompanhar-se-á de ciúme, \\ | ||
| + | começará no prazer mas terminará na aspereza; \\ | ||
| + | sem nunca encontrar igualdade, será colocado demasiado alto ou demasiado baixo; \\ | ||
| + | nenhum prazer de amor igualará sua pena. \\ | ||
| + | Será volúvel, falso e pleno de perfídia; \\ | ||
| + | flor, será murchado num piscar de olhos, \\ | ||
| + | o corpo envenenado, a face coberta \\ | ||
| + | de doçura que enganará o olho mais justo. \\ | ||
| + | Destruirá a força, emudecerá o sábio, o homem avaro ou \\ | ||
| + | galanteador, | ||
| + | tornará louco furioso e estúpido, suspeitoso ou cegamente confiante, \\ | ||
| + | severo para o justo, clemente para a injustiça, covarde, vil, medroso. \\ | ||
| + | Será causa de guerra e de eventos nefastos, \\ | ||
| + | criará a divisão entre o pai e o filho; \\ | ||
| + | e alimentará todas as rebeliões... \\ | ||
| + | nunca mais aqueles que amarem verdadeiramente encontrarão a felicidade ((They that love best, their loves shall not enjoy!)). | ||
| + | |||
| + | Assim, reencontramos o Amor em seu papel de corruptor, de agente do Mal, no qual o representavam constantemente os contemporâneos de Shakespeare. E como em Chapman e em Lyly, é Cynthia, a Lua que se opõe à « manifestação », ao mundo das formas: | ||
| + | |||
| + | Cynthia, de vergonha, vela seu luzeiro prateado até que a Natureza não tenha sido condenada por traição, por ter roubado ao céu as formas divinas onde te moldou, a despeito do céu para fazer vergonha ao astro do dia e ao astro da noite. \\ | ||
| + | \\ | ||
| + | E é por isso que ela (Cynthia) subornou as Parcas a fim de contrariar a obra da Natureza e misturar à beleza as enfermidades e à perfeição pura a impura fealdade, \\ | ||
| + | \\ | ||
| + | Segue uma longa lista de misérias e de doenças das quais uma só bastaria para « derrubar a beleza em menos de um minuto ». \\ | ||
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| + | Assim, como para Chapman, Cynthia a Lua é aqui a implacável inimiga de Vênus e de seu mundo das formas « de repente destruído, dissolvido, aniquilado ». Certamente, no longo poema os desenvolvimentos sobre Cynthia tomam muito pouco lugar e aparecem como um tema literário episódico, tradicional, | ||
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| + | Há em Vênus e Adônis uma outra alusão mitológica que se situa na mesma perspectiva filosófica. | ||
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| + | A rainha doente de amor estava em suor, pois onde estavam deitados a sombra os tinha deixado, e Titã, fatigado no calor do meio-dia, com olhos ardentes os considerava ardentemente (holly), desejando que Adônis tomasse as rédeas de sua atrelagem, para que como ele pudesse se estender ao lado de Vênus. | ||
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| + | Hesíodo, que se praticava na Sereia, nos ensina que os Titãs eram os pais dos deuses e dos homens, do sol, da lua e da terra. É deles que são saídas todas as raças, toda a criação, por outras palavras toda fragmentação da unidade primitiva. Um dos mitos mais essenciais dos Mistérios eleusinos mantinha os mistas do crime dos Titãs atraindo para baixo Dionísio e o desmembrando: | ||
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| + | E é precisamente nesse papel que Shakespeare nos representa aqui Titã: ardente, lubrico, queimando por se acasalar com a deusa do Desejo, hostil a Adônis, à castidade. Nada obrigava o poeta a introduzir esse episódio sem relação com seu tema aparente. Não é verossímil que o tenha feito sem premeditação, | ||
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| + | Não é mais verossímil que Shakespeare, | ||
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