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paul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:venus-e-adonis

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 +====== « Vênus e Adônis », « O Rapto de Lucrécia » e Os Sonetos ======
  
 +//ARNOLD, Paul. Ésotérisme de Shakespeare. Paris: Mercure de France, 1955.//
 +
 +=== Apêndice I ===
 +
 +Shakespeare dedicou Vênus e Adônis ao senhor Henry Wriothesley, conde de Southampton. Era, disse ele, o primogênito de sua imaginação. O pequeno livro saiu das prensas do stratfordiano Richard Field, a 18 de abril de 1593, algumas semanas antes do assassinato de Christopher Marlowe que acabara de completar os dois primeiros cantos de seu Hero e Leandro de tema filosófico análogo.
 +
 +Foi um sucesso de livraria e quase um sucesso de escândalo. O ardente apelo de Vênus exaltando a lubricidade chocou os espíritos puritanos. Davies de Hereford ficou « ofuscado por essa ciência do amor » e ainda mais pelo interesse que as damas tinham nessa leitura: « Nossas damas mais castas, escreve ele, leem esses versos em segredo e, mesmo quando não fazem outro mal, perdem-se em especulações voluptuosas ». Daí a dizer que Vênus e Adônis não é senão um « apelo para a voluptuosidade sexual », há apenas um passo que tal comentarista moderno transpõe alegremente. Outros, mais numerosos, identificam Adônis a Southampton, citando em apoio esses versos do Soneto LIII: « Se se descreve Adônis, o retrato é pobremente imitado de ti » (Describe Adonis, and the counterfeit — is poorly imitated after you).
 +
 +Southampton — Harry — tinha então dezenove anos. Burleigh, primeiro ministro da rainha Elizabeth, encarregado da vigilância do jovem conde após a morte de seu pai, partidário de Maria Stuart, esforçou-se por casá-lo com sua neta, filha do conde de Oxford, Elisabeth de Vere, de quem ele assegurava a tutela. Lady Southampton mãe de Harry, apoiou esse projeto. Mas Harry, por razões perfeitamente desconhecidas (as suposições correm soltas, da parte sobretudo dos defensores da sodomia de Harry e de Shakespeare), Harry resistiu, adiou o casamento de ano em ano e deve ter finalmente pago uma indenização por « ruptura de contrato »; Elisabeth Vere casou-se, no início de 1595, com William Stanley a quem amava havia muito tempo e que, após a morte prematura de seu irmão, se tornara conde de Derby, um dos partidos mais invejáveis da Inglaterra. Admite-se geralmente que os sonetos shakespearianos que apelam para o casamento de seu protetor refletem a opinião de lady Southampton e incitam o amigo a ceder às instâncias de sua mãe.
 +
 +Tudo isso — que pouco nos interessa — parece lógico, e essas poucas incidências bastam aos comentadores para explicar o nascimento dessa admirável série de sonetos. Mas releiamo-los.
 +
 +Das mais belas criaturas desejamos uma progênie, \\
 +para que assim a rosa da beleza nunca morra \\
 +e que quando a mais madura cai sob o golpe do tempo \\
 +seu terno herdeiro possa levar sua memória: \\
 +mas tu, noivo do brilho de teus próprios olhos, \\
 +nutres a chama de tua luz com tua própria substância, espalhando a fome onde reina a abundância... \\
 +Tem piedade do mundo, senão glutão como tu és \\
 +e o túmulo, devorareis o que é devido ao mundo. \\
 +(SONETO I.)
 +
 +Onde está o louco que quer ser o túmulo \\
 +de seu amor-próprio para deter a posteridade?... \\
 +Em não tendo comércio senão contigo mesmo \\
 +roubas teu doce tu mesmo a ti mesmo: \\
 +ah, quando a natureza te chamar a morrer, \\
 +que conta aceitável poderás deixar? \\
 +Tua beleza não empregada será posta no túmulo contigo, \\
 +se a empregasses, ela viveria para ser tua executora testamentária. (SONETO IV.)
 +
 +Essas horas que formaram por seu doce trabalho \\
 +o olhar mais amável que jamais habitou um olho \\
 +fariam de tiranos para esse mesmo olhar \\
 +e o que é feio triunfaria sobre o que é belo. (SONETO V.)
 +
 +Ora, em Vênus e Adônis, a deusa do amor, manifestamente aborrecida pelo poeta como pelo próprio Adônis, repete traço por traço e quase palavra por palavra os mesmos argumentos. Procurando vencer a pudicícia e a castidade do adolescente, Vênus exclama:
 +
 +Desprezando uma castidade sem fruto (fruitless chastity) \\
 +as vestais faltando amor e as freiras que a si mesmas se amam \\
 +quereriam espalhar sobre a terra o deserto, \\
 +e a estéril penúria de filhas e de filhos. \\
 +Sê pródigo: a lâmpada que queima a noite \\
 +consume seu óleo para emprestar ao mundo sua luz. \\
 +Teu corpo é outra coisa senão um túmulo que engole \\
 +semelhança sepultando essa posteridade \\
 +que pelos direitos do tempo deverias ter \\
 +se não a enterras nas trevas obscuras? \\
 +Se o fizeres, o mundo te marcará seu desprezo, \\
 +pois por teu orgulho uma esperança tão bela será destruída. \\
 +Assim és tu mesmo por ti mesmo destruído; \\
 +um mal pior que a guerra civil, \\
 +ou que aquele dos homens que com uma mão desesperada se fere a si mesmo \\
 +ou do assassino que tira a vida a seu filho. \\
 +O câncer podre da ferrugem rói o tesouro oculto, \\
 +mas o ouro que se colocou produz mais ouro.
 +
 +É manifesto que os dois apelos se assemelham, partem de uma mesma filosofia (ou de um mesmo sofisma), tendem aos mesmos fins por um mesmo arsenal de metáforas e ideias. E posto que é claro e palpável que o poema inteiro de Vênus e Adônis passa condenação sobre a deusa, acusa sua lubricidade, exalta a pureza de Adônis, pode-se perguntar em que medida Shakespeare foi sincero ao compor os sonetos, retomando traço por traço os argumentos da corrupção a fim de adjurar o amigo, se é que se deve buscar alguma realidade concreta por trás do poema.
 +
 +Adônis, discípulo da casta Diana caçadora, é « desdenhoso do prazer » (unapt to toy) e « gelado quanto ao desejo » (frosty in desire); « não tem apetite » para o prazer (leaden appetite). Casto até o heroísmo, será vencido « não pela voluptuosidade (not in lust) mas pela força », a violência, a armadilha da deusa desdenhada. Conformando suas metáforas à imagética ocultista, os elisabetanos opunham à castidade « gelada », o « calor » e « a vermelhidão » do desejo. É por isso que todo calor, mesmo aquele do sol, repugna a Adônis, « o sol o queima no rosto », e se é « vermelho », é de « pudor » (shame). Vênus por outro lado, é « vermelha e quente como o carvão de um fogo ardente ». « Seu sangue ferve » e o calor do sol lhe parece « apenas tépido ». Tais são os efeitos dessa « luxúria » (lust) que lhe inspira gestos loucos e uma « linguagem luxuriosa » (lustful). Tal é a oposição Diana-Vênus sobre a qual repousa a tragédia de Adônis e a filosofia do poema inteiro: deusa da castidade contra deusa da carne.
 +
 +Comentadores modernos que amam os sistemas e as simetrias primárias procuraram opor Vênus e Adônis ao Rapto de Lucrécia, publicado um ano mais tarde e dedicado ao mesmo Southampton. Ao « apelo para a voluptuosidade sexual » faria par um « poema em honra da castidade conjugal ».
 +
 +Nada mais inexato. A situação é idêntica nos dois poemas: à castidade faz face a figura gorgônica, a voluptuosidade condenável. Lucrécia « a casta » tem « a brancura da virtude » (virtue’s white); seu queixo é branco como o pano de sua cama, e se uma vermelhidão sobe a seu rosto, é a do pudor, aquela que « a Virtude reclama à Beleza », como ocorre com Adônis. Tarquínio ao contrário, como Vênus, é possuído pela « luxúria » (lust) e o « desejo carmesim ». É dominado pela « ardor (heat) louca e falsa », « a vontade ardente ». E da mesma forma que Vênus queima do « desejo » que « vê melhor a noite », da mesma forma Tarquínio « encontra seu cúmplice na noite onde vigiam luxúria e assassinato ».
 +
 +O paralelo vai mais longe ainda. A situação respectiva dos casais é a mesma: um dos parceiros sente pelo outro um desejo ilícito — seja consumação antes do casamento (Vênus), seja desejo adúltero (Tarquínio). É em nome da única castidade que uma e outra vítimas recusam o prazer e morrem. Mas tomemos bem cuidado! Não se trata, no pensamento de Shakespeare, nem de um vulgar conformismo de moral burguesa, nem de um esoterismo teórico à Chapman. Adônis, responde assim a Vênus:
 +
 +Quem veste uma roupa sem forma e inacabada? \\
 +Quem colhe o botão antes que uma única folha tenha crescido? \\
 +Se as coisas primaveris são diminuídas nem que seja um pouco, \\
 +elas murcham em sua primazia, não têm mais nenhum valor. \\
 +O potro que se montou e selou em sua juventude \\
 +carecerá de orgulho e nunca se torna forte.
 +
 +E ainda:
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 +Bela rainha, diz ele, se deves ter amor por mim, \\
 +mede meu pudor à minha idade demasiado verde: \\
 +antes que eu me conheça a mim mesmo, não procures me conhecer; \\
 +o pescador não pega o alevino, \\
 +a ameixa madura deve cair; verde ela se agarra ao ramo, \\
 +ou se a colhem demasiado cedo é azeda ao gosto.
 +
 +Não se poderia ser mais claro: Adônis não recusa a união dos corpos; recusa a união apressada, prematura, o efeito da voluptuosidade, do fogo ilícito; recusa a ardor da luxúria, o impulso da natureza que Vênus confunde com o amor. Como Biron, sabe que cada coisa vem em sua estação e que o amor deve ser o fruto da razão, a união dos corpos deve ser amadurecida, refletida, voluntária, como aquela que a Princesa propõe ao rei de Navarra em *Trabalhos de Amor Perdidos*. E antes de se jogar na armadilha da voluptuosidade que « não quer conhecer », Adônis buscará « uma vida na morte onde se ri e chora e isso quase ao mesmo tempo».
 +
 +E da mesma forma a castidade de Lucrécia não é uma castidade virginal, posto que é a esposa, segundo a lei, de Colatino a quem não recusou seu corpo. Da mesma forma que Desdêmona reclamará altamente « os direitos sagrados (ritos) (do matrimônio) pelos quais ela ama » Otelo, da mesma forma Lucrécia emprestou seu corpo ao esposo.
 +
 +Da continência, eis o que reclama Adônis; necessidade da continência, submissão do corpo ao espírito, eis o que exalta. E Lucrécia, por seu exemplo, confirma que só é condenável a voluptuosidade em si, o prazer da carne que não seja proposto pelo dever. Encontramos na Tempestade, a « teoria » desse ensino aplicado a Fernando e Miranda « que fizeram voto de não provar os direitos do leito — antes que a tocha de Hímen seja acesa ». Shakespeare-Próspero nos disse então longamente por que não se deve consumar « antes que as cerimônias santas possam ser cumpridas com o rito pleno e sagrado » e por que « impôs provas » ao amor de Fernando, por que lhe reclama até a hora do casamento a mais absoluta « temperança » que « abata a ardor de seu sangue ».
 +
 +Tal é a oposição que Shakespeare entende marcar entre os parceiros. Enquanto Tarquínio busca um « prazer terrestre » (earth’s delight), uma « pressa não santificada » (unhallow’d), Lucrécia só aprova « o voto sagrado do matrimônio » (holy wedlock vow). É que no pensamento do poeta a voluptuosidade é um mal, um encantamento de alguma potência maligna. Tarquínio é « encantado pelo feitiço ignóbil da luxúria », dominado por « o brutal desejo demente » (brain-sick), por « a luxúria assassina » (slaughter’d lust). Vênus fez de Marte « seu cativo e seu escravo », tornou-o estúpido, obnubilado (foil); ela revira os cabelos de Adônis com uma « demência cega » (blind fold fury). Vimos em Cimbeline e na Tempestade que aos olhos de Shakespeare, demência ou fúria na paixão equivale a possessão demoníaca. E sabemos por Lyly e Chapman que a Górgona e Tellus mantêm o homem sob o feitiço das paixões e que não há outra salvação senão opor a razão e a contenção ao arrastamento da carne. É isso certamente, um ponto comum entre o cristianismo e as religiões de mistérios; mas é a essência mesma, o ponto de partida da tradição esotérica recordada acima.
 +
 +Tal é o sentido profundo da estupenda « psicologia do vício » que contém O Rapto de Lucrécia:
 +
 +O prazer se sacia rápido e logo nos repugna. \\
 +Tarquínio saciado \\
 +seu gosto afinado, tratando-se da digestão \\
 +devora seu desejo que vivia de sua glutonaria devoradora. \\
 +Pois o prazer é passageiro e se paga por pesadas penas: \\
 +Seu prazer de um instante gera meses de pena; \\
 +tal corre e ronca seu prazer evanescido, detestado. \\
 +Quer esquecê-lo e tem pressa de ver aparecer o dia.
 +
 +E mais adiante:
 +
 +Ó pecado demasiado insondável para que o pensamento sem forma \\
 +possa alguma vez te compreender no silêncio da imaginação! \\
 +O ébrio Desejo deve vomitar o que engoliu \\
 +antes de avistar sua própria abominação. \\
 +Enquanto a luxúria se ergue em seu orgulho \\
 +nenhum grito pode abater seu calor ou refrear seu desejo arrebatado \\
 +até que, como um cavalo exausto, a teimosia (self-will) se canse.
 +
 +O amor-paixão é um mal coeterno à humanidade por um decreto dos deuses, um decreto de Vênus que, à morte de Adônis, exclama:
 +
 +Pois tu estás morto, eu predigo aqui \\
 +que doravante a dor escoltará o amor: \\
 +acompanhar-se-á de ciúme, \\
 +começará no prazer mas terminará na aspereza; \\
 +sem nunca encontrar igualdade, será colocado demasiado alto ou demasiado baixo; \\
 +nenhum prazer de amor igualará sua pena. \\
 +Será volúvel, falso e pleno de perfídia; \\
 +flor, será murchado num piscar de olhos, \\
 +o corpo envenenado, a face coberta \\
 +de doçura que enganará o olho mais justo. \\
 +Destruirá a força, emudecerá o sábio, o homem avaro ou \\
 +galanteador, arruinará o rico, enriquecerá o pobre, \\
 +tornará louco furioso e estúpido, suspeitoso ou cegamente confiante, \\
 +severo para o justo, clemente para a injustiça, covarde, vil, medroso. \\
 +Será causa de guerra e de eventos nefastos, \\
 +criará a divisão entre o pai e o filho; \\
 +e alimentará todas as rebeliões... \\
 +nunca mais aqueles que amarem verdadeiramente encontrarão a felicidade ((They that love best, their loves shall not enjoy!)).
 +
 +Assim, reencontramos o Amor em seu papel de corruptor, de agente do Mal, no qual o representavam constantemente os contemporâneos de Shakespeare. E como em Chapman e em Lyly, é Cynthia, a Lua que se opõe à « manifestação », ao mundo das formas:
 +
 +Cynthia, de vergonha, vela seu luzeiro prateado até que a Natureza não tenha sido condenada por traição, por ter roubado ao céu as formas divinas onde te moldou, a despeito do céu para fazer vergonha ao astro do dia e ao astro da noite. \\
 + \\
 +E é por isso que ela (Cynthia) subornou as Parcas a fim de contrariar a obra da Natureza e misturar à beleza as enfermidades e à perfeição pura a impura fealdade, \\
 + \\
 +Segue uma longa lista de misérias e de doenças das quais uma só bastaria para « derrubar a beleza em menos de um minuto ». \\
 +
 +Assim, como para Chapman, Cynthia a Lua é aqui a implacável inimiga de Vênus e de seu mundo das formas « de repente destruído, dissolvido, aniquilado ». Certamente, no longo poema os desenvolvimentos sobre Cynthia tomam muito pouco lugar e aparecem como um tema literário episódico, tradicional, antes que como uma ideia-força que o poeta teria vontade de pôr em luz, à maneira de um Chapman. Não importa. Cynthia aparece bem no lugar esperado, no papel que lhe atribuem, na época, os ocultistas.
 +
 +Há em Vênus e Adônis uma outra alusão mitológica que se situa na mesma perspectiva filosófica.
 +
 +A rainha doente de amor estava em suor, pois onde estavam deitados a sombra os tinha deixado, e Titã, fatigado no calor do meio-dia, com olhos ardentes os considerava ardentemente (holly), desejando que Adônis tomasse as rédeas de sua atrelagem, para que como ele pudesse se estender ao lado de Vênus.
 +
 +Hesíodo, que se praticava na Sereia, nos ensina que os Titãs eram os pais dos deuses e dos homens, do sol, da lua e da terra. É deles que são saídas todas as raças, toda a criação, por outras palavras toda fragmentação da unidade primitiva. Um dos mitos mais essenciais dos Mistérios eleusinos mantinha os mistas do crime dos Titãs atraindo para baixo Dionísio e o desmembrando: símbolo do nascimento do Múltiplo, símbolo da Criação, da Gênese. A « vida titânica » equivalia à vida formal destinada a desaparecer para reformar a unidade primitiva, tal como Dionísio ao final do mito reencontra sua integridade. Os Titãs são por essência os progenitores.
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 +E é precisamente nesse papel que Shakespeare nos representa aqui Titã: ardente, lubrico, queimando por se acasalar com a deusa do Desejo, hostil a Adônis, à castidade. Nada obrigava o poeta a introduzir esse episódio sem relação com seu tema aparente. Não é verossímil que o tenha feito sem premeditação, sem vontade deliberada de pôr o acento no símbolo platônico do Um e do Múltiplo que recordava há pouco a própria Vênus predizendo a danação da terra-Natureza « por ter roubado ao céu as formas divinas onde moldou » Adônis.
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 +Não é mais verossímil que Shakespeare, que deu ao mito de Adônis transmitido pelas Metamorfoses de Ovídio o desenvolvimento mais completo, tenha ignorado o último episódio. Sabe-se que Adônis morto inspirou amor a Prosérpina rainha dos infernos e que por causa disso ela recusou devolvê-lo à terra dos homens. Num desses julgamentos de Salomão de que abunda a mitologia grega, os deuses decidiram que Adônis partilharia seu tempo entre Vênus e Prosérpina. Esotericamente essa fábula era o equivalente, no plano humano, do mito de Dionísio dilacerado pelos Titãs e reencontrando periodicamente sua integridade: símbolos dos ciclos da alma humana encarnada, morta pelas paixões depois reencontrando sua integridade primitiva ao regressar ao Empíreo, para recomeçar perpetuamente a mesma roda.
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 +{{tag>Shakespeare}}

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