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paul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:a-tragedia-de-cymbeline-e-a-fraternidade

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paul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:a-tragedia-de-cymbeline-e-a-fraternidade [29/01/2026 19:46] – ↷ Page moved and renamed from paul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:a-tragedia-de-cymbeline-e-a-fraternidade:start to paul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:a-tragedia-de-cymbeline-e-a-fraternidade mccastropaul-arnold:esoterismo-de-shakespeare:a-tragedia-de-cymbeline-e-a-fraternidade [30/01/2026 05:00] (current) mccastro
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 Fazendo pela primeira vez ressoar muito alto um acordo que dominará no Conto de Inverno e na Tempestade, Shakespeare proclama que o Destino tudo regulou de antemão, que os homens não são senão seus instrumentos cegos ou clarividentes ((Não devemos esquecer, evidentemente, que o decreto real de 27 de maio de 1606 proibiu “o uso do santo nome de Deus em peças de teatro”. Isso explica o lugar dado, a partir de então, às divindades pagãs e às entidades metafísicas da Antiguidade. No entanto, isso não é suficiente para explicar as particularidades atribuídas pelo poeta a essas entidades e, em particular, essa visão bastante anticristã da Providência-Destino.)). Deixa ao tempo o cuidado de tudo desembaraçar e de trazer de volta a justiça, diz Pisânio ao rei: «A Fortuna traz ao porto mais de um barco sem governail» (IV, Cena 3, 46). E no sonho de Póstumo, Júpiter pousa sobre o peito do dorminhoco uma tabuleta onde lhe «agradou inscrever seu destino». Os «pequenos espíritos das regiões inferiores» queixam-se, como os humanos, da justiça do céu, da sorte dos humanos? É que ignoram como estes as vias da Providência que Júpiter enfim revela: Fazendo pela primeira vez ressoar muito alto um acordo que dominará no Conto de Inverno e na Tempestade, Shakespeare proclama que o Destino tudo regulou de antemão, que os homens não são senão seus instrumentos cegos ou clarividentes ((Não devemos esquecer, evidentemente, que o decreto real de 27 de maio de 1606 proibiu “o uso do santo nome de Deus em peças de teatro”. Isso explica o lugar dado, a partir de então, às divindades pagãs e às entidades metafísicas da Antiguidade. No entanto, isso não é suficiente para explicar as particularidades atribuídas pelo poeta a essas entidades e, em particular, essa visão bastante anticristã da Providência-Destino.)). Deixa ao tempo o cuidado de tudo desembaraçar e de trazer de volta a justiça, diz Pisânio ao rei: «A Fortuna traz ao porto mais de um barco sem governail» (IV, Cena 3, 46). E no sonho de Póstumo, Júpiter pousa sobre o peito do dorminhoco uma tabuleta onde lhe «agradou inscrever seu destino». Os «pequenos espíritos das regiões inferiores» queixam-se, como os humanos, da justiça do céu, da sorte dos humanos? É que ignoram como estes as vias da Providência que Júpiter enfim revela:
  
-<verse> +Aquele que mais amo, castigo-o para tornar mais doce meu benefício mais diferido. \\ 
-Aquele que mais amo, castigo-o para tornar mais doce meu benefício mais diferido. +Sua felicidade é eclodida, suas provações são consumadas. \\ 
-Sua felicidade é eclodida, suas provações são consumadas. +(Será) tornado mais feliz por suas aflições. (V, Cena, 4, 101-108). \\
-(Será) tornado mais feliz por suas aflições. (V, Cena, 4, 101-108). +
-</verse>+
  
 Tal é, diz ele, o sentido de suas tribulações, de todos esses eventos «enigmáticos... como o é a vida» ela mesma. Tal é, diz ele, o sentido de suas tribulações, de todos esses eventos «enigmáticos... como o é a vida» ela mesma.
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 Cloten «é uma criatura demasiado má mesmo para dela dizer mal», «um asno» que não sabe contar até vinte, um fátuo ambicioso, pretensioso, vulgar. Quando suas paixões são atravessadas, está «em frenesi» (frenzy); descreve-se-nos «brandindo a espada, a espuma na boca». Assemelha-se a Calibã até em sua linguagem: «Que as brumas do sul o apodreçam!» (II, Cena 3, 136) deseja ele a seu rival Póstumo. Mesmo o amor é nele, como em Calibã, uma forma do egoísmo. Desde que Imogène lhe resiste, ele a «odeia» e, como Calibã, busca «violá-la» com refinamentos de sádico: «Primeiro, eu o mato, ele (Póstumo), sob seus olhos dela; assim ela verá minha valentia que será desde então um suplício para seu desprezo. Uma vez ele no chão, quando eu houver terminado meu discurso de insulto sobre seu cadáver, e quando minha luxúria houver jantado — o que, como dito, farei para vexá-la, nas vestes que ela ama tanto — eu a levarei de volta à corte a golpes de punho, a sua casa a pontapés» (III, Cena 5, 141-149). Eis o personagem. E quando um pouco mais tarde ele se lança contra Guiderio que vai decapitá-lo crê fazê-lo tremer pelo simples enunciado de seu nome: «Se teu nome fosse Sapo ou Víbora ou Aranha, lhe responde o outro, eu disso seria antes comovido» (IV, Cena 2, 90-91). Veremos o que para Shakespeare significam tais injúrias; pois o autor de Macbeth conhecia como todos os escritores da época, as relações não simplesmente metafóricas mas substanciais entre essas bestas ignóbeis e as potências do mal. Cloten «é uma criatura demasiado má mesmo para dela dizer mal», «um asno» que não sabe contar até vinte, um fátuo ambicioso, pretensioso, vulgar. Quando suas paixões são atravessadas, está «em frenesi» (frenzy); descreve-se-nos «brandindo a espada, a espuma na boca». Assemelha-se a Calibã até em sua linguagem: «Que as brumas do sul o apodreçam!» (II, Cena 3, 136) deseja ele a seu rival Póstumo. Mesmo o amor é nele, como em Calibã, uma forma do egoísmo. Desde que Imogène lhe resiste, ele a «odeia» e, como Calibã, busca «violá-la» com refinamentos de sádico: «Primeiro, eu o mato, ele (Póstumo), sob seus olhos dela; assim ela verá minha valentia que será desde então um suplício para seu desprezo. Uma vez ele no chão, quando eu houver terminado meu discurso de insulto sobre seu cadáver, e quando minha luxúria houver jantado — o que, como dito, farei para vexá-la, nas vestes que ela ama tanto — eu a levarei de volta à corte a golpes de punho, a sua casa a pontapés» (III, Cena 5, 141-149). Eis o personagem. E quando um pouco mais tarde ele se lança contra Guiderio que vai decapitá-lo crê fazê-lo tremer pelo simples enunciado de seu nome: «Se teu nome fosse Sapo ou Víbora ou Aranha, lhe responde o outro, eu disso seria antes comovido» (IV, Cena 2, 90-91). Veremos o que para Shakespeare significam tais injúrias; pois o autor de Macbeth conhecia como todos os escritores da época, as relações não simplesmente metafóricas mas substanciais entre essas bestas ignóbeis e as potências do mal.
  
-<verse> +Quanto à rainha, essa «viúva que o rei acabara de desposar» \\ 
-Quanto à rainha, essa «viúva que o rei acabara de desposar» +e de quem ignoramos as origens sem dúvida fort baixas, \\ 
-e de quem ignoramos as origens sem dúvida fort baixas, +eis o retrato tão colorido. Falando de Cloten, \\ 
-eis o retrato tão colorido. Falando de Cloten, +um comparsa diz quase no início: «Que um diabo também \\ 
-um comparsa diz quase no início: «Que um diabo também +astucioso (craftly) como o é sua mãe — haja podido pôr no \\ 
-astucioso (craftly) como o é sua mãe — haja podido pôr no +mundo esse asno! Uma mulher que — esmaga tudo por seu \\ 
-mundo esse asno! Uma mulher que — esmaga tudo por seu +espírito» (II, Cena 1, 57-58). \\ 
-espírito» (II, Cena 1, 57-58).+ \\ 
 +Que deseja ela? O poder, por todos os meios, \\ 
 +mesmo o veneno. Ama somente a si mesma e a seu filho. Ela \\ 
 +finge ter pelo rei uma verdadeira paixão, mas no momento \\ 
 +de morrer, relata seu médico, «ela confessou que nunca \\ 
 +vos amou — apaixonada não por vós mas somente \\ 
 +pela grandeza que vós lhe dais — casada com vossa \\ 
 +realeza, ela era a esposa de vossa posição; — ela abominava \\ 
 +vossa pessoa» (V, Cena 5, 37-40). \\
  
-Que deseja ela? O poder, por todos os meios, 
-mesmo o veneno. Ama somente a si mesma e a seu filho. Ela 
-finge ter pelo rei uma verdadeira paixão, mas no momento 
-de morrer, relata seu médico, «ela confessou que nunca 
-vos amou — apaixonada não por vós mas somente 
-pela grandeza que vós lhe dais — casada com vossa 
-realeza, ela era a esposa de vossa posição; — ela abominava 
-vossa pessoa» (V, Cena 5, 37-40). 
-</verse> 
  
 Como age ela? Por todas as astúcias, todas as hipocrisias, todas as mentiras, pior ainda: pelo crime. «Ela confessou que tinha — para vós um veneno mineral mortal, o qual, se vós o houvésseis absorvido — devia de minuto em minuto, roer a vida e, tornando-vos languido, — fazer-vos perecer pouco a pouco. Durante esse tempo ela contava — em vos velando, em chorando, em vos cuidando e abraçando, — enganar-vos por suas aparências; sim, durante o tempo — que ela vos haveria circunvencido por suas malícias (craft ((A insistência na palavra “craft” (arte) em relação a ele talvez não seja sem intenção. O termo é utilizado em seu sentido mais pejorativo, próximo ao composto “witchcraft” (bruxaria): feitiçaria, malícia de feiticeiro.))) — ela haveria trabalhado para assegurar a coroa a seu filho» (V, Cena 5, 49-56). Como age ela? Por todas as astúcias, todas as hipocrisias, todas as mentiras, pior ainda: pelo crime. «Ela confessou que tinha — para vós um veneno mineral mortal, o qual, se vós o houvésseis absorvido — devia de minuto em minuto, roer a vida e, tornando-vos languido, — fazer-vos perecer pouco a pouco. Durante esse tempo ela contava — em vos velando, em chorando, em vos cuidando e abraçando, — enganar-vos por suas aparências; sim, durante o tempo — que ela vos haveria circunvencido por suas malícias (craft ((A insistência na palavra “craft” (arte) em relação a ele talvez não seja sem intenção. O termo é utilizado em seu sentido mais pejorativo, próximo ao composto “witchcraft” (bruxaria): feitiçaria, malícia de feiticeiro.))) — ela haveria trabalhado para assegurar a coroa a seu filho» (V, Cena 5, 49-56).
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 O resultado dessa educação? O resultado dessa educação?
  
-— o horror das riquezas: quando Imogène ofirere pagar os alimentos que acaba de consumir: «Dinheiro?» exclama Guiderio, e Arvírago acrescenta: «Que antes todo o ouro e toda a prata sejam mudados em lama! — Pois isso não vale melhor que aqueles que adoram os deuses de lodo» (III, Cena 6, 53-56). +  * o horror das riquezas: quando Imogène ofirere pagar os alimentos que acaba de consumir: «Dinheiro?» exclama Guiderio, e Arvírago acrescenta: «Que antes todo o ouro e toda a prata sejam mudados em lama! — Pois isso não vale melhor que aqueles que adoram os deuses de lodo» (III, Cena 6, 53-56). 
- +  o sentido da verdadeira fraternidade humana: «Irmão, ficai aqui, dizem os dois garotos a Imogène em traje de pajem. Não somos irmãos? (IV, Cena 2, 2-3). 
-— o sentido da verdadeira fraternidade humana: «Irmão, ficai aqui, dizem os dois garotos a Imogène em traje de pajem. Não somos irmãos? (IV, Cena 2, 2-3). +  o respeito da sabedoria e o desprezo da presunção: «Não temo senão aqueles que reverencio: os sábios», responderá Guiderio às provocações de Cloten (IV, Cena 2, 95). 
- +  o sentido da harmonia universal: «Todas as coisas solenes não respondem senão a eventos solenes» (Ibid., 191-192).
-— o respeito da sabedoria e o desprezo da presunção: «Não temo senão aqueles que reverencio: os sábios», responderá Guiderio às provocações de Cloten (IV, Cena 2, 95). +
- +
-— o sentido da harmonia universal: «Todas as coisas solenes não respondem senão a eventos solenes» (Ibid., 191-192).+
  
 Eis a filosofia dispensada pelo mundo da caverna sob a direção de um velho sábio. E é nesse mundo estranho, à margem da humanidade corrompida, que penetra bruscamente Imogène no instante mesmo em que sucumbia ao desespero e à violência. E de entrada, desde sua entrada em cena, suas próprias reflexões estão à uníssono com as desses trogloditas, à uníssono com as de Bassanio escolhendo a caixinha de chumbo: Eis a filosofia dispensada pelo mundo da caverna sob a direção de um velho sábio. E é nesse mundo estranho, à margem da humanidade corrompida, que penetra bruscamente Imogène no instante mesmo em que sucumbia ao desespero e à violência. E de entrada, desde sua entrada em cena, suas próprias reflexões estão à uníssono com as desses trogloditas, à uníssono com as de Bassanio escolhendo a caixinha de chumbo:
  
-<verse> +Os pobres mentiriam \\ 
-Os pobres mentiriam +que são acossados de aflições, sabendo \\ 
-que são acossados de aflições, sabendo +que é um castigo ou uma prova? Sim, nada de espantoso \\ 
-que é um castigo ou uma prova? Sim, nada de espantoso +que os ricos digam raramente a verdade. Decair na abundância \\ 
-que os ricos digam raramente a verdade. Decair na abundância +é mais grave que mentir por necessidade, e a falsidade \\ 
-é mais grave que mentir por necessidade, e a falsidade +é pior nos reis que nos mendigos. (III, Cena 6, 9-14.) \\
-é pior nos reis que nos mendigos. (III, Cena 6, 9-14.) +
-</verse>+
  
 É nessa disposição de espírito que ela descobre a caverna, ali se restaura, depois se faz acolher «como um irmão» por Belário e seus «filhos» que não suspeitam que ela é uma mulher e sua própria irmã. «Irmão, ficai aqui, diz Arvírago. Não somos irmãos?» E ela responde: «O homem deveria ser assim com o homem, mas as argilas diferem em dignidade — embora sejam ambas da mesma poeira» (IV, Cena 2, 4-6). E antes de deixá-la para retornar à caça, Guiderio insiste: «Amo-te... tanto e tão bem como amo meu pai» (Ibid., 16-18). É nessa disposição de espírito que ela descobre a caverna, ali se restaura, depois se faz acolher «como um irmão» por Belário e seus «filhos» que não suspeitam que ela é uma mulher e sua própria irmã. «Irmão, ficai aqui, diz Arvírago. Não somos irmãos?» E ela responde: «O homem deveria ser assim com o homem, mas as argilas diferem em dignidade — embora sejam ambas da mesma poeira» (IV, Cena 2, 4-6). E antes de deixá-la para retornar à caça, Guiderio insiste: «Amo-te... tanto e tão bem como amo meu pai» (Ibid., 16-18).
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 Então Imogène, reencontrando sua solidão e sua insuperável tristeza, retoma suas reflexões sobre o valor dos grandes (monstros do mar) e dos humildes (peixes requintados). O mal rói-lhe o coração. Ela provará o «cordial» da rainha que lhe entregou Pisânio e ela cai em um sono de morte, enquanto Guiderio decapitará Cloten e jogará sua cabeça no riacho. Tal é o início da cena mais que estranha imaginada, acreditava-se, por Shakespeare. Arvírago penetra primeiro na caverna onde descobrirá o corpo de Imogène, morta em aparência. E, em vez de vir anunciar esse infortúnio aos outros, faz ressoar na caverna uma música solene de uma infinita tristeza. «Que quer ele dizer, pergunta Guiderio a Belário? desde a morte de minha muito cara mãe — o instrumento não mais ressoara. Todas as coisas solenes — não respondem senão a eventos solenes. A causa?» (Ibid., 189-192). A causa, é a morte aparente de Imogène-Fiel que Arvírago traz em seus braços e que encontrara lá, estendida, parecendo dormir. «Sim, ele não faz senão dormir: — se partiu, fará de sua tumba um leito; sua tumba será assombrada por fadas; e os vermes não te visitarão» (Ibid., 215-218). «As mais belas flores enquanto durar o verão e que eu viva lá, Fiel, embalsamarão tua triste tumba; tu não faltarás — de flores que assemelhem teu rosto, pálida prímula — nem da campainha azulada como tuas veias, não — nem da folha da roseira brava (Ibid., 218-223). E enquanto Belário busca o corpo de Cloten para sepultá-lo na mesma tumba que a jovem — pois «grandes e pequenos apodrecendo lado a lado fazem uma só poeira» (Ibid., 246-247), — os dois jovens começam a cerimônia fúnebre. Primeiro «é preciso que coloquem a cabeça (de Imogène) para o leste. Meu pai, insiste Guiderio, tem uma razão para isso» (Ibid., 255-256). Depois dizem esta cantilena: Então Imogène, reencontrando sua solidão e sua insuperável tristeza, retoma suas reflexões sobre o valor dos grandes (monstros do mar) e dos humildes (peixes requintados). O mal rói-lhe o coração. Ela provará o «cordial» da rainha que lhe entregou Pisânio e ela cai em um sono de morte, enquanto Guiderio decapitará Cloten e jogará sua cabeça no riacho. Tal é o início da cena mais que estranha imaginada, acreditava-se, por Shakespeare. Arvírago penetra primeiro na caverna onde descobrirá o corpo de Imogène, morta em aparência. E, em vez de vir anunciar esse infortúnio aos outros, faz ressoar na caverna uma música solene de uma infinita tristeza. «Que quer ele dizer, pergunta Guiderio a Belário? desde a morte de minha muito cara mãe — o instrumento não mais ressoara. Todas as coisas solenes — não respondem senão a eventos solenes. A causa?» (Ibid., 189-192). A causa, é a morte aparente de Imogène-Fiel que Arvírago traz em seus braços e que encontrara lá, estendida, parecendo dormir. «Sim, ele não faz senão dormir: — se partiu, fará de sua tumba um leito; sua tumba será assombrada por fadas; e os vermes não te visitarão» (Ibid., 215-218). «As mais belas flores enquanto durar o verão e que eu viva lá, Fiel, embalsamarão tua triste tumba; tu não faltarás — de flores que assemelhem teu rosto, pálida prímula — nem da campainha azulada como tuas veias, não — nem da folha da roseira brava (Ibid., 218-223). E enquanto Belário busca o corpo de Cloten para sepultá-lo na mesma tumba que a jovem — pois «grandes e pequenos apodrecendo lado a lado fazem uma só poeira» (Ibid., 246-247), — os dois jovens começam a cerimônia fúnebre. Primeiro «é preciso que coloquem a cabeça (de Imogène) para o leste. Meu pai, insiste Guiderio, tem uma razão para isso» (Ibid., 255-256). Depois dizem esta cantilena:
  
-<verse> +Não temas mais o ardor do sol \\ 
-Não temas mais o ardor do sol +nem as fúrias do vento furioso, \\ 
-nem as fúrias do vento furioso, +tu cumpriste tuas tarefas terrenas, \\ 
-tu cumpriste tuas tarefas terrenas, +retornaste a teu lar e tocaste teus salários; \\ 
-retornaste a teu lar e tocaste teus salários; +garotos e garotas dourados devem todos, \\ 
-garotos e garotas dourados devem todos, +como os limpadores de chaminés, tornar-se pó. \\ 
-como os limpadores de chaminés, tornar-se pó. +Não temas mais a cólera dos grandes, \\ 
-Não temas mais a cólera dos grandes, +tu ultrapassaste os ataques do tirano: \\ 
-tu ultrapassaste os ataques do tirano: +não te preocupes mais com vestimentas e alimento; \\ 
-não te preocupes mais com vestimentas e alimento; +para ti o caniço é como o carvalho: \\ 
-para ti o caniço é como o carvalho: +cetro, ciência, medicina, \\ 
-cetro, ciência, medicina, +tudo segue esse caminho, torna-se pó. \\ 
-tudo segue esse caminho, torna-se pó. +Não temas mais a chama do relâmpago \\ 
-Não temas mais a chama do relâmpago +nem o raio temido do trovão; \\ 
-nem o raio temido do trovão; +não temas mais a calúnia, a censura brutal; \\ 
-não temas mais a calúnia, a censura brutal; +tu acabaste com alegrias e lágrimas: \\ 
-tu acabaste com alegrias e lágrimas: +todos os jovens amantes, todos os amantes \\ 
-todos os jovens amantes, todos os amantes +devem reunir-se a ti e tornar-se pó. \\ 
-devem reunir-se a ti e tornar-se pó. +Que nenhum exorcista te atormente! \\ 
-Que nenhum exorcista te atormente! +que nenhuma bruxaria te enfeitiçe! \\ 
-que nenhuma bruxaria te enfeitiçe! +Que os espectros sem sepulturas te respeitem! \\ 
-Que os espectros sem sepulturas te respeitem! +que nada de mau te aproxime! \\ 
-que nada de mau te aproxime! +Tenhas consumação na quietude, \\ 
-Tenhas consumação na quietude, +e que tua tumba seja venerada! (Ibid., 258-281.) \\
-e que tua tumba seja venerada! (Ibid., 258-281.) +
-</verse>+
  
 Depositam perto da tumba de Eurífila, lado a lado Imogène e o corpo de Cloten; aspergem-nos de flores e retiram-se sem cobri-los de terra, sob pretexto de jogar sobre os corpos, à meia-noite, outras flores, «pois as ervas que têm sobre elas o orvalho frio da noite convêm melhor para florear as tumbas» (Ibid., 283-285), como se fosse a tumba e não os corpos que se tratasse de florear. Apenas partiram, que Imogène desperta, esfrega os olhos e diante da estranheza dessa cena pergunta-se longamente se sonha: Depositam perto da tumba de Eurífila, lado a lado Imogène e o corpo de Cloten; aspergem-nos de flores e retiram-se sem cobri-los de terra, sob pretexto de jogar sobre os corpos, à meia-noite, outras flores, «pois as ervas que têm sobre elas o orvalho frio da noite convêm melhor para florear as tumbas» (Ibid., 283-285), como se fosse a tumba e não os corpos que se tratasse de florear. Apenas partiram, que Imogène desperta, esfrega os olhos e diante da estranheza dessa cena pergunta-se longamente se sonha:
  
-<verse> +Oh, deuses e deusas! \\ 
-Oh, deuses e deusas! +Essas flores são parecidas aos prazeres deste mundo; \\ 
-Essas flores são parecidas aos prazeres deste mundo; +esse cadáver sangrento é o cuidado que se mistura. \\ 
-esse cadáver sangrento é o cuidado que se mistura. +Espero que eu sonhe… Nossos olhos mesmos \\ 
-Espero que eu sonhe… Nossos olhos mesmos +são às vezes cegos como nossos julgamentos. Em verdade \\ 
-são às vezes cegos como nossos julgamentos. Em verdade +eu ainda tremo de medo; mas se resta \\ 
-eu ainda tremo de medo; mas se resta +no céu uma gota de piedade fosse ela tão pequena \\ 
-no céu uma gota de piedade fosse ela tão pequena +quanto o olho de um rei-pequeno, deuses temidos, dai-me! \\ 
-quanto o olho de um rei-pequeno, deuses temidos, dai-me! +O sonho está sempre lá; mesmo quando estou despertada \\ 
-O sonho está sempre lá; mesmo quando estou despertada +está fora de mim, como em mim, não imaginado, mas sentido. \\ 
-está fora de mim, como em mim, não imaginado, mas sentido. +Um homem decapitado! (Ibid., 295-308.) \\
-Um homem decapitado! (Ibid., 295-308.) +
-</verse>+
  
 Para perpetrar seu estupro, Cloten pusera as vestimentas de Póstumo; Imogène crê reconhecer seu marido nesse corpo sem cabeça; eis bem suas mãos, seus músculos, seu porte, mas «seu rosto de Júpiter»? «Um assassinato no céu!» Ela ensopa as faces com o sangue de Cloten, «para que pareçamos mais horríveis àqueles — que por acaso nos encontrassem». E exclamando: «Oh, meu senhor, meu senhor!» ela desaba sobre o corpo decapitado (Ibid., 308-332). É assim que os Romanos a descobrirão e interrogando-a sobre o sentido de «esse desastre», obterão dela essa resposta: «Não sou nada; ou senão — não ser nada valeria melhor» (Ibid., 367-368) pois seu marido está morto. E Lúcio lhe responde: «Enxuga tuas lágrimas: certas quedas são jeito de elevar-se a mais felicidade» (Ibid., 402-403). É quase palavra por palavra o oráculo de Júpiter. Para perpetrar seu estupro, Cloten pusera as vestimentas de Póstumo; Imogène crê reconhecer seu marido nesse corpo sem cabeça; eis bem suas mãos, seus músculos, seu porte, mas «seu rosto de Júpiter»? «Um assassinato no céu!» Ela ensopa as faces com o sangue de Cloten, «para que pareçamos mais horríveis àqueles — que por acaso nos encontrassem». E exclamando: «Oh, meu senhor, meu senhor!» ela desaba sobre o corpo decapitado (Ibid., 308-332). É assim que os Romanos a descobrirão e interrogando-a sobre o sentido de «esse desastre», obterão dela essa resposta: «Não sou nada; ou senão — não ser nada valeria melhor» (Ibid., 367-368) pois seu marido está morto. E Lúcio lhe responde: «Enxuga tuas lágrimas: certas quedas são jeito de elevar-se a mais felicidade» (Ibid., 402-403). É quase palavra por palavra o oráculo de Júpiter.
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 É a etapa última sobre o caminho da perfeição que Shakespeare nos descreve no Conto de Inverno. É a etapa última sobre o caminho da perfeição que Shakespeare nos descreve no Conto de Inverno.
  
 +{{tag>Shakespeare}}
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