kolakowski:kolakowski-1981-amor
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| + | ====== AMOR (1981) ====== | ||
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| + | 4) “... major autem harum est caritas”. Ao contrário das duas virtudes de que falamos, a caridade não dá lugar a equívoco; com efeito, a palavra caridade não conhece | ||
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| + | A partir deste ponto de vista importam as seguintes qualidades do Eros: o caráter total do desejo, a experiência da originalidade, | ||
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| + | Quanto ao primeiro ponto: o amor é o desejo da total superação da distância com relação ao amado, o desejo de uma união total. Contém então a experiência da separação insuportável, | ||
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| + | Quanto ao segundo ponto: o amor contém a experiência eufórica da originalidade, | ||
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| + | A experiência da inicialidade — que o movimento do amor implica — está dada também como vislumbre da realização absoluta; aponta, portanto, a uma situação determinada miticamente. | ||
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| + | Quanto ao terceiro ponto: no amor, particularmente naquele em que é concebível a correspondência (impensável no amor intelectual a Deus, de Spinoza, assim como no amor à humanidade), | ||
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| + | Quanto ao quarto ponto: a confiança que cria o movimento amoroso não está ligada ao cálculo, à pretensão, ao dever. No amor mútuo ninguém está obrigado a nada, ninguém está autorizado a nada. A correspondência é um dom da graça, e a graça não se pode ganhar nem exigir: ela é recebida gratuitamente e pode ser perdida por nada. Também por esta qualidade o vínculo amoroso supera qualquer comunicação concreta; e o faz porque não é uma relação entre indivíduos empíricos, mas sim um encontro, no esforço do intercâmbio mútuo, entre realidades indefectíveis e incondicionadas. | ||
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| + | Quanto ao quinto ponto: o amor é a espera de uma realização que está ausente no tempo. As realidades míticas se destacam pelo fato de que, segundo a interpretação detalhada de Mircea Eliade, o que ocorre com elas escapa à influência real do tempo histórico; não é algo que tenha sucedido no momento marcado em nosso calendário, | ||
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| + | Mesmo em uma certa desconsideração com respeito ao resto do mundo ou na crueldade que a paixão amorosa frequentemente leva em si descobrimos os traços da submersão que exclui a tudo, daquele caráter último, não mediado, que define nosso vínculo com a realidade mítica. | ||
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| + | Quanto ao sexto ponto: o enaltecimento no amor compreende tudo no enaltecido. Portanto, não passa das partes ao todo, mas transporta a perfeição do todo a cada parte separada. Na paixão teopática, assim como na paixão corporal, redescobrimos essa estrutura. Se a divinidade é o lugar da adoração, então deve ser enaltecido tudo o que provém dela; as teodiceias são tentativas falidas de racionalizar este desejo de encontrar uma expressão para o caráter inevitavelmente total no amor; não obstante, como racionalizações, | ||
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| + | Tampouco o enaltecimento que aceita tudo de antemão relaciona-se as qualidades empíricas, mas sim ao que o mito realiza mediante sua presença. | ||
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| + | Em consequência, | ||
