jullien:2009:transformacao
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| + | ====== 2 TRANSFORMAÇÃO ====== | ||
| + | //JULLIEN, François. Les Transformations silencieuses. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2009// | ||
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| + | Pois não devemos nos enganar sobre a dificuldade que encontramos em pensar a transformação que, por princípio, eu acredito, é sempre " | ||
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| + | A transição literalmente faz um buraco no pensamento europeu, reduzindo-o ao silêncio. A prova está no que Platão diz, ou melhor, no que ele não diz, sobre isso (a respeito do Uno no Parmênides ((Platon, | ||
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| + | Ora, vejo nisso menos uma falha do pensamento platônico, que se leva ao extremo, do que um sintoma. Poderia-se acreditar que esse buraco negro que afeta o pensamento da transição alcança apenas Platão, preso como está em sua teoria da participação das Formas-Ideias e da separação das essências? Aristóteles cedo o criticou e sabemos, por outro lado, que o autor da Física é o pensador da mudança. Contudo, Aristóteles está, no entanto, em melhores condições de pensar o estatuto desse " | ||
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| + | **II. Sob a transformação: | ||
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| + | 1. A dificuldade de pensar a transformação, | ||
| + | * Não se trata de faltar visão penetrante ou audição fina o bastante para distinguir o microscópico. | ||
| + | * A transição designa explicitamente a passagem que permite ir de uma forma à seguinte, no entre-formas, | ||
| + | * Nesse ponto o pensamento para, nada mais tem a dizer, e por isso a transformação é necessariamente tida por silenciosa. | ||
| + | 2. A transição abre literalmente um buraco no pensamento europeu e o reduz ao silêncio, como mostra Platão a propósito do Um do Parmênides, | ||
| + | * Como apreender a passagem ou o entremeio, metaxu, que o simples depois apenas indica, mantendo os dois momentos justapostos, | ||
| + | * Logicamente, | ||
| + | * Platão só pode ater-se à separação estanque dos dois tempos: um é o tempo em que se participa da mobilidade, outro aquele em que não se participa. | ||
| + | * Para passar da contiguidade à continuidade, | ||
| + | 3. Esse buraco negro não é falha exclusiva de Platão, preso à participação nas Formas-ideias e à separação das essências, mas sintoma, pois mesmo Aristóteles, | ||
| + | * A nota média é grave em relação à aguda e aguda em relação à grave, e o cinza é negro em relação ao branco e branco em relação ao negro. | ||
| + | * Segundo Aristóteles, | ||
| + | * Ele decompõe a mudança ao constituir-se como ponto ao mesmo tempo de chegada e de partida. | ||
| + | 4. O cinza de Aristóteles não é cinza, cor em que um vira o outro sem ser mais nem um nem outro, em que branco e negro, confundindo-se, | ||
| + | 5. Aristóteles e Platão parecem assustar-se diante do que seria, no indistinto da transição, | ||
| + | * Temendo o absurdo, Aristóteles tropeça no que estaria ao mesmo tempo engendrando-se e já engendrado sem ainda sê-lo, e sua frase, ao enfrentá-lo, | ||
| + | * Aquilo de que ela se aproxima demais não pertence à ordem do quê, do Ser e do algo. | ||
| + | 6. Transição é um termo-limite, | ||
| + | * Graças à modificação, | ||
| + | * Reciprocamente, | ||
| + | 7. As estações, que não cessaram de inspirar o pensamento chinês, exemplificam esse binômio, pois a modificação ocorre do inverno à primavera ou do verão ao outono, quando o frio se inverte em calor ou o calor em frio, e a continuação da primavera ao verão ou do outono ao inverno, quando o quente se torna mais quente ou o frio mais frio, alternando-se os dois momentos de modo que mesmo a modificação, | ||
| + | 8. Para sair do pensamento do Ser, é preciso remontar aos partidos ancorados na língua e na antropologia, | ||
| + | * A mesma palavra vazia do chinês, er, significa ao mesmo tempo mas e de modo que. | ||
| + | * A fórmula bian er tong traduz-se ao mesmo tempo como modificação mas continuação, | ||
| + | * Pensar a transição implica conceber indissociavelmente que a modificação rompe com a continuação, | ||
| + | * Só pela modificação a continuação permanece ativa e perdura, sendo o ponto de vista chinês não o da essência e da identificação, | ||
| + | * Há assim comunicação contínua, sentido conexo de tong, entre modificação e continuação, | ||
| + | 9. A própria escrita exemplifica a transição, | ||
| + | * No branco, o pensamento que recai reencontra, ao descontinuar, | ||
| + | * Quando se param os remos, o movimento de remar, isto é, de escrever, é interrompido, | ||
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