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| + | ====== o intraduzível em Descartes (2014:C3) ====== | ||
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| + | Heidegger chamou a atenção para as duas maneiras de colocar a questão do “ser” de alguém em relação ao que é, uma reificando, a outra apropriada ao fato de que estamos lidando com alguém e não com algo. De acordo com ele, quando alguém pergunta sobre si mesmo, sobre seu próprio ser, ele deve perguntar quem sou eu e não o que sou eu. | ||
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| + | Mas, como vimos, é exatamente isso que Descartes faz várias vezes nas Meditações. Ele não apenas pergunta o que ele é como ser pensante, mas às vezes faz a pergunta “quem? No entanto, e é aqui que as coisas se complicam, é preciso ler em latim para ver isso, porque a tradução francesa do duque de Luynes (revisada e corrigida por Descartes) não manteve esse lado pessoal da pergunta. Em francês, imediatamente após a conquista de “Je suis, j' | ||
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| + | Mas eu ainda não sei com suficiente clareza o que sou, eu que tenho certeza de que sou (...) (AT, IX, 19). | ||
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| + | Na tradução, Descartes diz que não sabe o que é, como se houvesse um quid. Mas o texto em latim diz: | ||
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| + | Nondum vero satis intelligo, quisnam sim ego ille, qui jam necessario sum (AT, VII, 25)((Michèle Beyssade oferece esta tradução interpretativa: | ||
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| + | Essa frase é notável em pelo menos dois aspectos. | ||
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| + | Por um lado, a questão colocada é de fato carregada pela palavra “quis” e não por “quid”. Se seguirmos Heidegger em sua dicotomia, poderíamos muito bem ter aqui um exemplo de egologia negativa, de um pensamento do eu que escapa ao substancialismo. | ||
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| + | Por outro lado, a pergunta é feita na primeira pessoa, embora Descartes continue, nessa frase, a substantivar o pronome “ego”. Ele já havia feito isso em francês no Discurso sobre o Método, onde fala de “ce moi”. Mas quando ele diz “ce moi” nesse texto, ele imediatamente o identifica com a alma, de modo que ele fala dela na terceira pessoa: | ||
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| + | (...) A partir disso, eu soube que eu era uma substância cuja essência ou natureza é apenas pensar, e que, para ser, não precisa de nenhum lugar, nem depende de nenhuma coisa material. De tal modo que esse eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinto do corpo, e até mesmo que é mais fácil de conhecer do que este último, e que, mesmo que não fosse, não deixaria de ser tudo o que é (AT, VI, 33). | ||
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| + | Na Segunda Meditação, | ||
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| + | Étienne Balibar aponta que as traduções francesas desse texto são imprecisas []. Elas perdem algo do que o texto diz. No entanto, ele não diz isso para acusar os tradutores de não entenderem o texto, mas para apontar que a frase é “intraduzível para o francês”. De fato, ele escreve com razão, a frase em questão também não é traduzível (sem perda) para o latim. | ||
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| + | Por que ela é intraduzível? | ||
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| + | Se construirmos o verbo “ser” na terceira pessoa, teremos: “Eu me pergunto o que é esse Ego que agora é necessariamente (ou que agora necessariamente sabemos que é)”. Se traduzíssemos dessa forma, nossa doutrina egológica assumiria francamente a substantivação do pronome “me”: teríamos de construir a frase na terceira pessoa. | ||
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| + | Se agora colocarmos o verbo “ser” na primeira pessoa, nossa frase se tornará: “Eu me pergunto quem eu sou, se é necessariamente verdade agora que eu sou”. Aqui, a egologia busca preservar o estilo egotista: é de mim mesmo que falarei quando, mais tarde, disser que sou um espírito puro e não um ser humano. De mim, isso significa: do indivíduo particular que eu sou. | ||
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| + | Em suma”, conclui Balibar, ‘Descartes escreveu em latim algo que em francês se lê: “Qui suis-je moi ce lui qui suis maintenant nécessairement”. | ||
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| + | Qual é, em sua opinião, o problema revelado por essa impossibilidade de tradução? Se a frase mistura inextricavelmente as duas pessoas verbais, é porque ela quer fazer uma pergunta de essência (sobre a natureza de um ego) que é, ao mesmo tempo, uma pergunta de identidade (quem sou eu?). Um leitor que tenha em mente as teses de Heidegger sobre a diferença entre essas duas questões deve concluir que é difícil fazer a pergunta sobre a identidade sem fazer a pergunta sobre a essência. | ||
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| + | Esse diagnóstico será confirmado se consultarmos agora o meticuloso comentário de Vincent Carraud sobre essa mesma frase. | ||
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| + | Carraud também concentra seu comentário na discrepância interna dessa frase: ela está na terceira pessoa, já que a palavra “ego” está substantivada, | ||
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| + | Or je ne comprends pas encore assez qui je suis, ce moi qui “suis” désormais nécessairement []. | ||
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| + | Essa tradução é obviamente impossível. | ||
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| + | Carraud insiste no fato de que Descartes, na IIª Meditação, | ||
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| + | Como Carraud interpreta o “ego ille” de Descartes? Ele corretamente descarta a construção de “ego” como um pronome, seguido por um relativo, como se houvesse: “Moi, qui suis celui-là qui | ||
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