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descombes:2014:eu-e-mim

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 +====== Eu e mim ======
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 +Uma particularidade da língua francesa, em comparação, por exemplo, com o alemão ou o inglês, é a possibilidade de reforçar o pronome “je” por meio da aposição de um “moi”. O francês pode, assim, expressar por meio de formas distintas as duas possibilidades do latim: “amo”, “ego amo” (“eu amo”, “eu, eu amo”).
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 +Quando o filósofo deseja substantivar o pronome de primeira pessoa, deve fazê-lo com “je” ou com “moi”? Dirá-se “o eu” ou “o mim”? Por muito tempo, o uso foi dizer “o mim”. Mas, há algum tempo, encontra-se na literatura filosófica de língua francesa um substantivo “o eu” onde antes se encontraria “o mim”. Qual é o que está em jogo nessa divergência? Visto que se trata, na realidade, de saber como traduzir em nossas línguas modernas a palavra latina “ego”, vale a pena abordar esse problema a partir das dificuldades que um tradutor pode enfrentar.
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 +Kant escreveu um texto notável, que costuma-se citar quando se trata da primeira pessoa. Ele escreve no § 1 de sua Antropologia:
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 +<quote>Possuir o Eu (das Ich) em sua representação: esse poder eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos na Terra. Por isso, ele é uma pessoa […] ((Kant, Antropologia do ponto de vista pragmático, § 1, trad. Michel Foucault, Paris, Vrin, 1964.))</quote>
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 +Como observa Étienne Balibar, o tradutor (francês) desse texto deve tomar duas decisões: uma sobre a maneira de traduzir “das Ich” para o francês e outra sobre se se trata da palavra ou do objeto que essa palavra deve designar.
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 +Primeiro, a primeira decisão: deve-se traduzir “das Ich” por “o Eu” ou por “o Eu-próprio”? Balibar defende a escolha de Foucault, que fala em possuir o Eu (com letra maiúscula!) em sua representação. De fato, escreve ele, o poder de que Kant fala aqui não é o de descrever um objeto (que é a própria pessoa), mas o de assumir na primeira pessoa o que se diz a respeito dela. Por essa razão, pode-se objetar o seguinte: em francês, a palavra que permite enfatizar que se assume uma posição é justamente “moi”. O sujeito ressalta que sua opinião é de fato a sua, aquela que ele defende, dizendo, por exemplo: “Eu penso assim”. Além disso, é justamente a palavra latina “ego” que é utilizada na proposição fundadora das filosofias do sujeito: ego cogito, ego sum. Como os comentaristas de Descartes corretamente destacaram, é preciso traduzir a frase canônica “ego cogito” por “eu, eu penso” ((Étienne Gilson observa que o latim “ego cogito” transmite com mais firmeza o pensamento de Descartes do que o francês “je pense” (em seu comentário sobre Descartes, Discours de la méthode, Paris, Vrin, 1962, p. 292). Eu que penso, pelo menos eu existo, seja lá o que for do resto.))”.
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 +Em seguida, segunda decisão: o tradutor deve determinar se colocará ou não aspas nessa palavra. Trata-se da palavra “Ich” ou do objeto assim designado? Como se vê, fazer essa pergunta é cair novamente na dificuldade anterior, já que agora se trata de um objeto que chamamos de “eu”. O locutor que fala na primeira pessoa indica, com isso, que está falando de si mesmo. Sim, mas como ele indica isso? Aqui, Balibar destaca, com razão, o desconforto do filósofo quando precisa dizer a que a palavra “eu” supostamente se refere: se a palavra “Ich” tem o sentido de indicar algo que o sujeito encontra em sua representação, então ela designa um Ich, ou seja, “esse ‘algo’ que não é uma coisa ((“EU, MIM, EU MESMO”, op. cit., p. 646.))”. Qual é, de fato, a função da palavra “Ich” na frase? É, escreve Balibar, “representar o irrepresentável que o Ich nomeia para si mesmo (für sich selbst)”. Isso significa que a dificuldade permanece intacta. Aquilo que não é uma coisa, o ser que não é representável como objeto e que é representado justamente como não sendo representável: todas essas circunlocuções apenas reproduzem o constrangimento de ter que considerar o pronome “eu” como uma espécie de nome próprio que se refere a um eu. Precisamos de algo a ser designado se quisermos sustentar que a palavra “eu” é referencial, mas parece que nada serve para isso, que nenhum objeto pode ser identificado como aquilo mesmo que esse nome designou. Chegados a esse impasse, somos tentados a concluir que, se a palavra “eu” se apresenta como um nome, ela permanece, no entanto, um nome sem referência a nenhum objeto: daí a concluir que essa palavra não tem nenhuma função na frase, que é supérflua, há apenas um passo ((“EU, MIM, SI”, op. cit., p. 646.))
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 +No fim das contas, essas duas decisões se resumem a uma só. Se Kant quer se referir à palavra alemã “Ich”, então deveremos traduzir seu “das Ich” como se ele tivesse escrito “das ‘Ich’”, e, nesse caso, poderemos, às vezes, traduzi-lo para o francês como “le Je”, entendendo-se por isso a palavra “je ». Mas se Kant quer dizer que o homem pode representar algo a que chama das Ich, convém traduzir pelo substantivo “o eu”, sendo a ideia de que o homem encontra no conteúdo de sua representação algo sobre o qual pode dizer: sou eu. E é então que surge o difícil problema apontado por Balibar: esse objeto, justamente, não é um objeto; esse algo que é representado parece, no entanto, impossível de ser apresentado em uma representação.
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 +No caso em questão, parece que é preciso traduzir o “das Ich” de Kant por “o ‘eu’” ali onde Kant trata do progresso que o pequeno Charles faz quando deixa de dizer “Charles quer comer” para passar a dizer “Eu quero comer”. Ele escreve no mesmo parágrafo:
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 +É preciso observar que a criança, que já sabe falar com bastante correção, só começa bem tarde (talvez um ano depois) a dizer “eu”; antes disso, ela fala de si na terceira pessoa (Charles quer comer, andar, etc.); e parece que, para ela, uma luz acaba de se acender quando começa a dizer “eu” (durch Ich zu sprechen); a partir desse dia, ele nunca mais volta à outra maneira de falar. Antes, ele apenas se sentia; agora, ele pensa em si mesmo ((Ibid.)).
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 +Por outro lado, parece preferível usar a palavra “eu” como substantivo, portanto sem aspas, para traduzir a primeira frase: o que o homem possui em sua representação é o eu. Ter a palavra “eu” em sua linguagem é ter o meio de manifestar que se sabe quem é esse Carlos que quer comer. Quem é Carlos? Na primeira pessoa, a resposta será: sou eu, é de mim que estou falando. Aqui, dizer que estou falando do “eu” seria apenas um maneirismo. Além disso, substituir meu “eu” pelo meu “mim” não mudaria nada em termos de conteúdo: mal se fala do “eu” (em vez do “mim”) e já se faz dele o objeto a ser qualificado e descrito, o que basta para opô-lo ao sujeito falante.
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 +{{tag>Descombes eu}}
  

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