deleuze:1981:consciencia-sonho
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| + | ====== A CONSCIÊNCIA É APENAS UM SONHO DE OLHOS ABERTOS (EFP:23-26) ====== | ||
| + | <tabbox Daniel Lins & Fabien Pascal Lins> | ||
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| + | Espinosa propõe aos filósofos um novo modelo: o corpo. Propõe-lhe instituir o corpo como modelo: “Não sabemos o que pode o corpo...”. Esta declaração de ignorância é uma provocação: | ||
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| + | Todavia, uma das teses teóricas mais célebres de Espinosa é conhecida pelo nome de paralelismo: | ||
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| + | Trata-se de mostrar que o corpo ultrapassa o conhecimento que dele temos, e o pensamento não ultrapassa menos a consciência que dele temos. Não há menos coisas no espírito que ultrapassam a nossa consciência que coisas no corpo que superam nosso conhecimento. É, pois, por um único e mesmo movimento que chegaremos, se for possível, a captar a potência do corpo para além das condições dadas do nosso conhecimento, | ||
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| + | E isso porque a consciência é naturalmente o lugar de uma ilusão. A sua natureza é tal que ela recolhe efeitos, mas ignora as causas. A ordem das causas define-se pelo seguinte: cada corpo na extensão, cada ideia ou cada espírito no pensamento são constituídos por relações características que subsumem as partes desse corpo, as partes dessa ideia. Quando um corpo “encontra” outro corpo, uma ideia, outra ideia, tanto acontece que as duas relações se compõem para formar um todo mais potente, quanto que um decompõe o outro e destrói a coesão das suas partes. Eis o que é prodigioso tanto no corpo como no espírito: esses conjuntos de partes vivas que se compõem e decompõem segundo leis complexas. | ||
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| + | A ordem das causas é então uma ordem de composição e de decomposição de relações que afeta infinitamente toda a natureza. Mas nós, como seres conscientes, | ||
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| + | Como a consciência acalma a sua angústia? Como pode Adão imaginar-se feliz e perfeito? Por meio de uma tripla ilusão. Considerando que a consciência recolhe apenas efeitos, ela vai suprir a sua ignorância invertendo a ordem das coisas, tomando os efeitos pelas causas (ilusão das causas finais): o efeito de um corpo sobre o nosso, ela vai convertê-la em causa final da ação do corpo exterior; e fará da ideia desse efeito a causa final de suas próprias ações. Desde esse momento, tomar-se-á a si própria por causa primeira e invocará o seu poder sobre o corpo (ilusão dos decretos livres). Nos casos em que a consciência não pode mais imaginar-se causa primeira, nem organizadora dos fins, invoca um Deus dotado de entendimento e de vontade, operando por causas finais ou decretos livres, para preparar para o homem um mundo na medida de sua glória e dos seus castigos (ilusão teológica).[Ética, | ||
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| + | <tabbox Robert Hurley> | ||
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| + | Spinoza offers philosophers a new model: the body. He proposes to establish the body as a model: “We do not know what the body can do ... ” This declaration of ignorance is a provocation. We speak of consciousness and its decrees, of the will and its effects, of the thousand ways of moving the body, of dominating the body and the passions—but we do not even know what a body can do.[Ethics, III, 2, scholium.] Lacking this knowledge, we engage in idle talk. As Nietzsche will say, we stand amazed before consciousness, | ||
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| + | Yet, one of the most famous theoretical theses of Spinoza is known by the name of parallelism·, | ||
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| + | What does Spinoza mean when he invites us to take the body as a model? It is a matter of showing that the body surpasses the knowledge that we have of it, and that thought likewise surpasses the consciousness that we have of it. There are no fewer things in the mind that exceed our consciousness than there are things in the body that exceed our knowledge. So it is by one and the same movement that we shall manage, if possible, to capture the power of the body beyond the given conditions of our knowledge, and to capture the power of the mind beyond the given conditions of our consciousness. One seeks to acquire a knowledge of the powers of the body in order to discover, in a parallel fashion, the powers of the mind that elude consciousness, | ||
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| + | The fact is that consciousness is by nature the locus of an illusion. Its nature is such that it registers effects, but it knows nothing of causes. The order of causes is defined by this: each body in extension, each idea or each mind in thought are constituted by the characteristic relations that subsume the parts of that body, the parts of that idea. When a body “encounters” another body, or an idea another idea, it happens that the two relations sometimes combine to form a more powerful whole, and sometimes one decomposes the other, destroying the cohesion of its parts. And this is what is prodigious in the body and the mind alike, these sets of living parts that enter into composition with and decompose one another according to complex laws. The order of causes is therefore an order of composition and decomposition of relations, which infinitely affects all of nature. But as conscious beings, we never apprehend anything but the effects of these compositions and decompositions: | ||
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| + | How does consciousness calm its anguish? How can Adam imagine himself happy and perfect? Through the operation of a triple illusion. Since it only takes in effects, consciousness will satisfy its ignorance by reversing the order of things, by taking effects for causes (the illusion of final causes)', | ||
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| + | <tabbox Original> | ||
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| + | Spinoza propose aux philosophes un nouveau modèle : le corps. Il leur propose d’instituer le corps en modèle : « On ne sait pas ce que peut le corps... > Cette déclaration d’ignorance est une provocation : nous parlons de la conscience et de ses décrets, de la volonté et de ses effets, des mille moyens de mouvoir le corps, de dominer le corps et les passions — mais nous ne savons même pas ce que peut un corps [Ethique, III, 2, scolie.]. Nous bavardons, faute de savoir. Comme dira Nietzsche, on s’étonne devant la conscience, mais, « ce qui est surprenant, c’est bien plutôt le corps... » | ||
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| + | Pourtant, une des thèses théoriques les plus célèbres de Spinoza est connue sous le nom de parallélisme : elle ne consiste pas seulement à nier tout rapport de causalité réelle entre l’esprit et le corps, mais interdit toute éminence de l’un sur l’autre. Si Spinoza refuse toute supériorité de l’âme sur le corps, ce n’est pas pour instaurer une supériorité du corps sur l’âme, qui ne serait pas davantage intelligible. La signification pratique du parallélisme apparaît dans le renversement du principe traditionnel sur lequel se fondait la Morale comme entreprise de domination des passions par la conscience : quand le corps agissait, l’âme pâtissait, disait-on, et l’âme n’agissait pas sans que le corps ne pâtisse à son tour (règle du rapport inverse, cf. Descartes, Traité des passions, articles 1 et 2). D’après l’Ethique, | ||
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| + | Il s’agit de montrer que le corps dépasse la connaissance qu’on en a, et que la pensée ne dépasse pas moins la conscience qu’on en a. Il n’y a pas moins de choses dans l’esprit qui dépassent notre conscience que de choses dans le corps qui dépassent notre connaissance. C’est donc par un seul et même mouvement que nous arriverons, si c’est possible, à saisir la puissance du corps au-delà des conditions données de notre connaissance, | ||
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| + | C’est que la conscience est naturellement le lieu d’une illusion. Sa nature est telle qu’elle recueille des effets, mais elle ignore les causes. L’ordre des causes se définit par ceci : chaque corps dans l’étendue, | ||
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