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| + | ====== Cioran ====== | ||
| + | Emil Cioran (1911-1995) | ||
| + | //PARFAIT, Nicole. Cioran ou le défi de l’être. Paris: Desjonquères, | ||
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| + | Emil Cioran, morto em 1995, conhece há cerca de vinte anos uma notoriedade que nem o niilismo de seu pensamento nem a fatura de seus escritos permitiriam prever — e razões que vão além das filológicas ou biográficas explicam esse sucesso recente. | ||
| + | * Pensador sem complacência em perpétua busca de si mesmo, cético por natureza e por recusa das falsas evidências, | ||
| + | * Em época de crise generalizada dos valores — crise da história após o colapso do império soviético, crise dos sistemas econômicos, | ||
| + | * Ateu impenitente admirador do Tao, defensor da preguiça e por muito tempo fascinado pelo suicídio, combatente do progresso pregando um desprendimento do mundo, ele seria o moralista que nossos tempos de incerteza esperavam. | ||
| + | * A beleza de um estilo que alia suntuosidades barrocas ao mais puro classicismo seduz num tempo em que a escrita se degrada em instrumento de transmissão de conteúdos superficiais — e isso num país que, segundo Cioran, é o único onde a língua sempre gozou de caráter sagrado. | ||
| + | * A exumação recente de suas tomadas de posição políticas nos anos 1930 — seu engajamento ao lado da Guarda de Ferro numa Romênia presa a um delírio de potência — lançou suspeita sobre sua obra, à semelhança do que ocorreu com Heidegger após a redescoberta dos textos políticos de 1933 e 1934. | ||
| + | * Cioran fez declarações pró-hitlerianas e antissemitas em numerosos artigos na imprensa romena de extrema direita, bem como um messianismo nacionalista em Schimbarea la față a României (A Transfiguração da Romênia), publicado em 1936. | ||
| + | * Contrariamente a Heidegger, Cioran condenou abertamente em diversas ocasiões sua " | ||
| + | * O ódio visceral de todos os " | ||
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| + | Embora esses traços constituam aspectos do pensamento de Cioran, não fornecem uma chave que dê acesso à unidade profunda de sua obra — o próprio pensador afirma que todos os seus livros, tanto romenos quanto franceses, " | ||
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| + | Na ausência dessa chave, recorreu-se com frequência à biografia e às entrevistas concedidas pelo escritor para explicar escritos percebidos como inclassificáveis. | ||
| + | * O próprio Cioran não cessava de estabelecer pontes entre seus escritos e suas experiências — como a estreita correlação entre a experiência dolorosa da insônia e a defesa do suicídio como possibilidade essencial da existência, | ||
| + | * O procedimento biográfico tem, porém, seus limites — o eu que o autor ausculta não é o mesmo nas entrevistas e nos escritos. | ||
| + | * O eu elaborado nas entrevistas, | ||
| + | * O segundo eu transparece nos livros: trata-se de uma espécie de estado de exaltação em que Cioran se mantém, exacerbando obsessões, paixões e sofrimentos — a raiva que nasce dessa exacerbação dos humores lhe dá a força de produzir uma obra que revela, a partir da experiência de um vivido excessivo, a essência da condição humana. | ||
| + | * Essa vida dilacerada é ela própria mais o efeito de um projeto estético e metafísico participante do sentido da obra do que uma simples dado existencial. | ||
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| + | À diferença dos pensadores que viram na existência o fundamento do Ser e, portanto, da história, para Cioran a existência é o lugar de uma fissura original do Ser. | ||
| + | * Nada poderá jamais preenchê-la — na ausência de um Deus salvador como em Kierkegaard ou de qualquer transcendência fundadora de um sentido, como o Ser em Heidegger. | ||
| + | * Essa fissura, contemporânea da consciência, | ||
| + | * Esse dualismo revela um autêntico metafísico — mas que se recusa aos subterfúgios inventados pela razão para edificar uma teoria que só poderia contrariar o princípio da existência. | ||
| + | * "Não há salvação pelo pensamento", | ||
| + | * O paradoxo e a contradição de que Cioran tão frequentemente se serve não são expressão de incapacidade do pensamento — são a expressão de uma dialética essencial inscrita no coração da existência humana, onde "uma lógica inflexível" | ||
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| + | Esse espírito subversivo, esse " | ||
| + | * Diante do nada da existência, | ||
| + | * Se a primeira opção, "ao resolver tudo, não resolve nada", a segunda é o último perigo, pois compromete, além do homem, o Ser em sua totalidade. | ||
| + | * Em ausência de todo fundamento e de toda verdade absoluta, é preciso, para continuar a viver sem trair o único instinto positivo que resta — o orgulho —, compor para si um rosto, uma identidade. | ||
| + | * A tentação do demoníaco, à qual os poetas malditos caros a Cioran sucumbiram, foi para ele também a forma primeira do desafio — como revelam os livros escritos durante sua juventude romena, onde a desmedida se torna a medida da vida verdadeira. | ||
| + | * Em Le Livre des leurres, publicado em 1936, Cioran exorta o indivíduo a jorrar do coração de seu ser numa explosão fanática de ferocidade que, da energia obscura, extraia uma clareza duradoura — tal como Deus fazendo surgir a luz das trevas; liberto de seu intelecto, o homem não é mais "que efervescência, | ||
| + | * Querer agir pressupõe crer que se possa mudar o mundo — e foi essa ilusão que, somada a um amor desesperado por seu país, conduziu Cioran a tomar partido pela extrema-direita na Romênia dos anos 1930. | ||
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| + | Destruída a ilusão da história e desmascarada a da teoria, resta um outro desafio: a escrita. | ||
| + | * A decisão de escrever em língua estrangeira — o francês, e não o alemão, que dominava muito melhor — não é fortuita: corresponde à vontade de se apropriar do estrangeiro para melhor circunscrever e dominar a própria natureza. | ||
| + | * Esse desafio é análogo àquele pelo qual, segundo Hölderlin, os gregos teriam adquirido sua identidade e grandeza — o gesto trágico pelo qual, desde a aurora da civilização ocidental, o homem confere à sua vida a dimensão de um destino. | ||
| + | * "Onde cresce o perigo, cresce também o que salva", | ||
| + | * Em Cioran, essa passagem não acarreta o esquecimento — permite, ao contrário, compreender melhor os mecanismos das angústias e da frenesia que o habitam e traduzem a derelição do homem abandonado num mundo que não escolheu, sem outro recurso senão uma consciência que lhe revela, com a inevitabilidade da morte, a vaidade da esperança e, portanto, da ação. | ||
| + | * O estilo — quintessência desse " | ||
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| + | Essa busca intelectual e estética não pode, no entanto, fundar regras morais — ainda que o gosto de Cioran pela fórmula o aproxime dos moralistas franceses do século XVIII. | ||
| + | * Amoral por princípio, essa busca abre contudo uma via — fazendo, no julgamento clarividente de Gabriel Marcel, " | ||
| + | * Recusando todas as ilusões da utopia e, com elas, "essa forma normal do delírio" | ||
| + | * Se a nostalgia do absoluto, herdada do Cristianismo, | ||
| + | * " | ||
| + | * Nesse " | ||
