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 +====== Bergson ======
 +Henri Bergson (1859-1941) //[[https://classiques.uqam.ca/classiques/bergson_henri/bergson_henri.html|Livros]]//
  
 +//Camille PERNOT//
 +
 +O bergsonismo é uma filosofia atípica em todos os aspectos — opõe-se ao kantismo que dominava a universidade francesa, afasta-se da filosofia alemã e mantém relação polêmica com as filosofias antiga e moderna, rejeitando seus conceitos e denunciando seus artifícios.
 +  * A obra de Bergson compõe-se essencialmente de quatro grandes obras: Essai sur les données immédiates de la conscience (1889), Matière et mémoire (1896), L'Évolution créatrice (1907) e Les Deux Sources de la morale et de la religion (1932), além de duas importantes coletâneas de artigos — L'Énergie spirituelle (1919) e La Pensée et le mouvant (1934).
 +  * Filósofo francês, nascido e morto em Paris, foi professor no Collège de France (1900), membro da Académie française (1914) e laureado com o prêmio Nobel de literatura (1927).
 +  * As afinidades com Berkeley, Spencer, James e com a corrente francesa de Maine de Biran a Ravaisson não são decisivas — os aparentes aproximamentos recobrem divergências reais e fundamentais.
 +  * O bergsonismo tentou o desafio de edificar uma filosofia completamente à margem do pensamento filosófico anterior e contemporâneo, rejeitando ao mesmo tempo a problemática, as teses, as noções e a linguagem desse pensamento.
 +
 +** 1. A ideia verdadeira de filosofia **
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 +A filosofia se caracteriza antes de tudo pela precisão — a explicação que ela fornece deve ser, em cada caso, exatamente adaptada ao seu objeto e não convir a nenhum outro.
 +  * A primeira condição dessa precisão absoluta é que o pensamento incida sobre a realidade ela mesma e não sobre símbolos que pretendem representá-la; a segunda é que seja de ordem qualitativa — é a qualidade, e não a quantidade, que exprime mais fielmente a originalidade de cada coisa.
 +  * A filosofia é uma disciplina concreta que acompanha a realidade da maneira mais estreita; incide essencialmente sobre fatos — é um conhecimento positivo, não uma atividade produtora de conceitos.
 +  * A filosofia rejeita assim a ideia de sistema: um sistema se quer global e se vê condenado a reconstruir a maior parte dos fatos a partir de um pequeno número de princípios e conceitos gerais — é necessariamente artificial, abstrato e vago.
 +  * A verdadeira filosofia ignora ainda os problemas angustiantes e insolúveis secretados pelo pensamento sistemático, como o da liberdade e do determinismo ou o da origem do ser — eles exprimem simplesmente o afastamento em relação à realidade.
 +  * Bergson chama a filosofia às vezes de ciência, mas prefere chamá-la metafísica positiva — metafísica ou conhecimento absoluto; positiva, ou seja, fundada em fatos e, por conseguinte, progressiva.
 +  * O bergsonismo se opõe diretamente ao kantismo: o conhecimento filosófico é limitado, mas não relativo — é um conhecimento das coisas em si.
 +  * Porque ela é positiva, a filosofia é, como a ciência, uma obra coletiva à qual cada pesquisador aporta sua contribuição — há apenas uma filosofia, constituída pela metafísica positiva e seu progresso.
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 +** 2. Pensar de outro modo **
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 +** O processo da inteligência **
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 +A experiência pura só pode ser uma experiência depurada — Bergson chama atenção incessantemente para as confusões, os artifícios e as ilusões que comportam a experiência corrente e mesmo certos tipos de experiência tidos por científicos.
 +  * A inteligência não é uma forma acabada da inteligibilidade caída do céu — ela tem uma origem: é o produto da evolução vital, a maneira de pensar própria à espécie humana.
 +  * Sua primeira significação é vital — é uma função de adaptação que permite a sobrevivência; ela é fundamentalmente prática e não teórica: uma faculdade fabricadora de objetos e ferramentas.
 +  * O objeto principal da inteligência é o sólido inorganizado; seu quadro fundamental é o espaço homogêneo infinitamente divisível; seus instrumentos por excelência são as ideias abstratas e gerais; a linguagem é seu produto e ao mesmo tempo um meio que acentua seus traços.
 +  * Mesmo em suas produções teóricas, a inteligência elabora apenas um conhecimento indireto, convencional e simbólico — seu principal produto, o conceito, reúne todos os defeitos: é uma abstração, uma generalização e, afinal, uma deformação.
 +  * À diferença de Descartes, que pede que nos afastemos dos sentidos para buscar a verdade pelo entendimento, Bergson sustenta que é preciso começar por afastar as representações da inteligência para esperar reencontrar o real.
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 +** A intuição **
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 +A inteligência não é a única forma de pensamento — existem outras faculdades de conhecimento depositadas pela evolução: o instinto e a intuição.
 +  * O instinto é como uma intuição que teria parado no caminho, e a intuição como um instinto que se teria intensificado e dilatado até tornar-se consciente e aplicável a todas as coisas.
 +  * A intuição não é uma faculdade de representação, mas um movimento para se identificar à realidade — em vez de conhecimento no sentido tradicional, trata-se de "contato", "coincidência" ou "fusão".
 +  * Ela exige um esforço espiritual intenso, pois se trata de sair de si mesmo, afastar todos os hábitos de pensamento e as noções familiares: cada ato de intuição é um começo absoluto.
 +  * "Chamamos aqui intuição a simpatia pela qual nos transportamos ao interior de um objeto para coincidir com o que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível." (La Pensée et le mouvant)
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 +** O imediato **
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 +Para Bergson, não é a maneira como se apreende o imediato que o qualifica como tal — é unicamente por seus caracteres intrínsecos que um dado pode pretender à imediatidade.
 +  * O imediato se reconhece por envolver uma inteligibilidade sui generis, sem referência a quadros prévios — é claro por si mesmo, não encerra nenhuma incoerência e possui a propriedade de iluminar tudo o que a ele se liga.
 +  * "Tudo o que se oferece diretamente aos sentidos ou à consciência, tudo o que é objeto de experiência, seja exterior seja interna, deve ser tido como real enquanto não se tiver demonstrado que é uma simples aparência." (Essai sur les données immédiates de la conscience)
 +  * O imediato bergsoniano significa: que o real é dado e não escondido; que se o alcança diretamente e não por um desvio; que consiste e se revela numa certa aparência que não requer nada além de si mesma para ser e ser inteligível.
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 +** O empirismo verdadeiro **
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 +O bergsonismo é um empirismo, mas que se distingue do empirismo vulgar e do empirismo filosófico tradicional — é um "empirismo verdadeiro", radical e integral, que define a experiência pura pela percepção de um imediato e toma essa percepção pelo ser mesmo.
 +  * Matière et mémoire apresenta uma aplicação particularmente impressionante dessa abordagem empírico-metafísica — uma de suas teses principais consiste em identificar o real ao que seria a "percepção pura": uma percepção direta, completa, universal e impessoal.
 +  * A intuição demanda um verdadeiro esforço de conversão — é rara, inevitavelmente breve e parcial, e não dispensa a inteligência: precisa dela para desenvolver seus resultados, pô-los à prova e refratá-los em conceitos que permitem comunicá-los.
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 +** 3. Um mobilismo universal e integral **
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 +Sob todos os seus aspectos, a existência é movimento ou, mais geralmente, mudança — tal é a intuição fundamental para a qual convergem todas as demais.
 +  * Isso é verdade da consciência, que não cessa de se modificar de forma irreversível; mas também do mundo exterior, do mundo vivo e da matéria aparentemente inerte, percorrida por oscilações, vibrações e ondulações de todos os tipos.
 +  * Não apenas tudo está em movimento, mas o próprio movimento não é senão mobilidade — com o imóvel jamais se fará o movente; o movimento consiste inteiramente na passagem de um ponto a outro.
 +  * A mudança não reside numa sucessão de estados distintos, mas na alteração contínua pela qual o estado anterior se transforma num estado diferente — a transição faz toda a realidade do movimento e da mudança.
 +  * O movimento é de ordem qualitativa — constituído, em cada caso, por uma síntese qualitativa particular que faz dele uma realidade singular e absoluta.
 +  * "A mudança pura [...] é coisa espiritual ou impregnada de espiritualidade." (La Pensée et le mouvant)
 +  * A mudança em geral é ela própria substância — não requer um substrato imutável; o bergsonismo é um mobilismo integral: o dinamismo é a verdade do real, o universo "um jorro ininterrupto de novidades" (L'Évolution créatrice).
 +  * Visão do mundo antiplatônica: o devir puro — o não-ser segundo Platão — constitui aqui a realidade em si, enquanto a imutabilidade e a eternidade passam por artifícios; porém, ao contrário de Heráclito, para Bergson a mudança perpétua não significa aniquilamento constante, mas continuação e criação — enriquecimento ininterrupto.
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 +** A duração **
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 +"Duração" é o nome dado por Bergson à percepção do tempo real, que ele opõe à noção comum do tempo e a seu conceito científico.
 +  * O tempo dos relógios, como o da mecânica, é uma noção abstrata, uma representação analítica obtida pela justaposição de instantes idênticos e intemporais, um conceito simbólico que traduz em termos de espaço o que é mais estranho a ele.
 +  * A duração é o tempo em sua pureza, dissociado do espaço e dos artifícios analíticos que o obscurecem — "uma sucessão que não é uma justaposição, um crescimento por dentro, o prolongamento ininterrupto do passado num presente que avança sobre o futuro." (La Pensée et le mouvant)
 +  * A duração bergsoniana é real e plural — refuta o tempo kantiano, ideal e único.
 +  * A duração revela uma nova figura das relações do uno e do múltiplo — a "multiplicidade qualitativa" —, em que unidade e pluralidade não se separam e que consiste numa sucessão de elementos heterogêneos que se interpenetram.
 +  * O real é constituído por uma diversidade de durações que se distinguem pelo grau de tensão, pela rapidez do ritmo e pela heterogeneidade mais ou menos pronunciada das variações elementares; e a filosofia consiste em ver todas as coisas sub specie durationis.
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 +** 4. Um novo espiritualismo **
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 +** O espírito, o eu, a liberdade **
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 +A duração é de essência psíquica — é a forma sob a qual a intuição percebe a vida interior; o espírito é duração e mesmo não é senão duração.
 +  * O que caracteriza o espírito em primeiro lugar não é um poder de conhecer ou de sentir, mas a mobilidade, a aptidão a tirar continuamente de si mesmo mais do que contém.
 +  * A personalidade designa o que torna cada indivíduo inimitável e ao mesmo tempo lhe permite permanecer idêntico através de suas mudanças — Bergson recorre à distinção entre dois eus: o "eu superficial", constituído de estados distintos, definidos e facilmente comunicáveis, e o "eu profundo", devir original cujo caráter contínuo faz a identidade.
 +  * A personalidade e a liberdade são as duas faces de uma mesma realidade: o ato livre não resulta de uma escolha indiferente — é o ato mais significativo, a expressão do eu inteiro; "é uma criação de si por si."
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 +** Metafísica da vida **
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 +O bergsonismo aprofundou-se de uma filosofia da consciência para se tornar principalmente uma filosofia da vida, renovando inteiramente a sua concepção.
 +  * A vida não se define como um princípio de organização interna do ser vivo, mas como evolução — transição de uma espécie a outra.
 +  * Considerada na perspectiva da evolução, a vida aparece como uma força divergente — "a história do mundo vivo não é retilínea, mas exuberante e ramificada"; a evolução não é a aplicação de um plano concertado perseguindo um fim preciso.
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 +** O élan vital **
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 +É possível e indispensável representar a vida como um único e mesmo élan, carregado de virtualidades múltiplas, que se partilhou entre direções diferentes e é a causa profunda da criação de novas espécies.
 +  * O élan vital deve ser compreendido como uma vis a tergo cujas produções extremamente variáveis não são predeterminadas e testemunham uma capacidade de criação ininterrupta.
 +  * A vida é uma tendência a agir sobre a matéria bruta — esforço para obter dela mais do que ela é suscetível de produzir por si mesma; o élan vital se define fundamentalmente como uma corrente de energia criadora oposta à matéria e dirigida para a produção de atos livres.
 +  * "As coisas se passam como se uma imensa corrente de consciência [...] tivesse atravessado a matéria para arrastá-la à organização e para fazer dela [...] um instrumento de liberdade." (L'Énergie spirituelle)
 +  * É uma supraconsciência que convém colocar na origem da vida — a consciência humana individual não é senão uma manifestação particular, limitada em amplitude e profundidade.
 +  * O élan vital torna provável a existência, em outros sistemas solares, de formas de vida radicalmente diferentes das que conhecemos; e é possível conceber uma vida sem organismo — a vida originária, contemporânea do universo.
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 +** Antropologia **
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 +O homem não é um ser à parte oriundo de uma origem sublime — como todos os outros viventes, é um produto da vida e de sua evolução, no plano moral e no físico.
 +  * A humanidade não é o objetivo da evolução, pois o élan vital não perseguia nenhum projeto preciso — pode-se, porém, considerá-la a "razão de ser" da evolução na Terra, não por sua organização física, mas por sua significação como ser moral.
 +  * A superioridade do homem se deve à de seu cérebro, que, por sua capacidade ilimitada de montar mecanismos opostos uns aos outros, permite à consciência se intensificar e escolher suas respostas, tornando-se independente dos automatismos corporais.
 +  * Como espécie, a humanidade inclina todas as suas faculdades no sentido da utilidade — é apenas em alguns indivíduos, de forma excepcional, que a evolução prossegue efetivamente: os gênios científicos e filosóficos, as grandes figuras morais, os místicos.
 +  * Cada um desses indivíduos privilegiados se reinsere na corrente evolutiva e a continua por criações absolutas; o grande místico é um verdadeiro mutante — o conjunto do movimento da vida não tem outro sentido senão o de suscitar almas de elite capazes de repor sua vontade no élan criador para continuar sua ação.
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 +** Cosmologia e teologia **
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 +A matéria é um processo negativo — "ação que se desfaz"; a realidade positiva que a matéria não faz senão degradar é necessariamente um movimento em direção inversa ao seu: uma força imaterial, correspondente a "ação que se faz" e, portanto, criadora.
 +  * "O físico é simplesmente o psíquico invertido." (L'Évolution créatrice)
 +  * A matéria tem apenas uma causa deficiente — confunde-se com a distensão da força criadora; vida e matéria têm o mesmo princípio: a vitalidade constitui a positividade enquanto a materialidade manifesta apenas a finitude.
 +  * O universo é a obra de uma consciência criadora que se materializa ao buscar se realizar — o bergsonismo é uma doutrina criacionista, mas que implica uma reformulação completa da noção tradicional de criação: o universo "não está feito, mas se faz sem cessar." (L'Évolution créatrice)
 +  * O Criador está em continuidade com sua obra — "Deus nada tem de todo feito" (L'Évolution créatrice); imamente à criação, ele é, como ela, inacabado, em devir.
 +  * Deus se identifica à supraconsciência que é a origem e o princípio da vida e de todas as coisas — e ele próprio é vida.
 +  * A experiência mística revela que Deus é um élan, esse élan uma emoção, e essa emoção o amor — "a energia criadora devendo se definir pelo amor." (Les Deux Sources de la morale et de la religion)
 +  * O grande místico é um verdadeiro mutante — e o misticismo é a meta precisa que a vida persegue, em relação à qual o resto da criação não constitui senão etapas e meios.
 +  * O bergsonismo é indissociavelmente espiritualismo e vitalismo: o espírito de onde tudo procede não é uma razão suficiente, uma vontade absoluta nem uma sabedoria infinita, mas um esforço ininterrupto para se renovar — a expressão que mais lhe conviria seria talvez a de vitalismo espiritualista ou teoria do espírito como vida.

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