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| + | ====== VALOR E TRANSCENDÊNCIA ====== | ||
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| + | 1. Toda teoria psicologista e relativista do valor, leva à negação deste último. O valor é um fenômeno da experiência vital, que não comporta explicações fora da Transcendência e da objetividade. A fenomenologia permite estabelecer que a nossa vivência íntima do valor é uma vivência da sua objetividade. Metafisicamente o valor é objetivo: a distinção entre valor e ser, tão vivamente estabelecida na filosofia mais autêntica dos valores, não poderia encontrar explicação fora da identificação do Valor e do Ser no Absoluto; além disso, o valor é objetivo porque o homem que o realiza, realiza a sua própria essência. Culturalmente os valores são objetivos, porque a própria variação da tábua dos valores de uma cultura para outra, não poderia dar-se fora da objetividade do valor: o que varia de cultura a cultura não são os valores, mas a perspectiva particular em que cada cultura se coloca diante deles. O mesmo se pode dizer da lei moral; a universalidade da lei moral não é atingida pelas aplicações variadas e opostas que se dão dela. Cada indivíduo, cada cultura tem uma vivência particular dos valores; esta aparência de pluralismo nasce, não da relatividade dos valores, mas da multiplicidade das captações parciais duma realidade total. [] | ||
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| + | Poder-se-ia opor à objetividade dos valores, o não serem eles captáveis pelo conhecimento intelectual, | ||
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| + | Mas, a intuição emocional nem sempre exclui o conhecimento intelectual; | ||
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| + | O valor é objeto daquela particular intuição espiritual que se encontra nos místicos, nos poetas e nas almas inocentes. A captação emotiva do valor, tal como a demonstraram N. Hartmann e Max Scheler, não invalida, mas antes, confirma a objetividade dos valores. | ||
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| + | 2. Suponho que a objetividade do valor implica a sua transcendência. Porém não há termo de uso mais largo e mais ambíguo que o de transcendência. Frequentemente, | ||
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| + | Quando se negaram as metafísicas tradicionais, | ||
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| + | O humanismo das teorias do valor se revela nas classificações que fazem dos mesmos. Esse humanismo penetra até as teorias metafísicas do valor. Nessas classificações, | ||
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| + | Mas o valor, ao contrário, se manifesta dotado de insistência metafísica; | ||
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| + | Suponho que o valor é uma realidade mais real que a do mundo contingente. Que é o modelo, a imagem que se identifica com o Ser Absoluto. Nega-se porém a realidade do valor quando se opõe o ser ao valor, sob fundamento de que o valor não é, mas vale; e vale como norma ideal, ou como condição de possibilidade, | ||
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| + | A teoria das relações e das distinções entre o ser e o valor só pode ser exata até o ponto em que não se confunde o ser com o atual. Parece-me que tal confusão vem de Leibniz: segundo Leibniz, o objeto da filosofia não é o ser, mas o possível, porque o possível é mais do que o ser, abrange o que é e o que pode vir a ser. Mas isto é uma concepção que confina o ser ao atual; que supõe que o possível ainda não é ser, mas apenas condição de possibilidade lógica. Ora bem, alargadas as bases desta condição de possibilidade (que também se estenderá ao a-lógico) ela se tornará o mundo dos valores; e esse mundo dos valores será visto, não como distinto, mas como separado do ser, isto é, do atual. — Esta tese poderia ser facilmente refutada pelo filósofo aristotélico sob o justo argumento de que ela se funda na ignorância de que o ser não é só o atual, mas também o possível. | ||
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| + | Suponho que uma filosofia de tipo aristotélico não está particularmente aparelhada para acolher uma teoria dos valores, porque o aristotelismo leva a identificar, | ||
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| + | Toda a teoria que não afirmar a plena realidade do valor no Absoluto incorrerá numa separação incabível entre o ser e o valor; é verdade que não falarão em separação mas em distinção; | ||
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| + | Ora bem, depois das sutis elaborações da filosofia escolástica, | ||
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| + | 3. Toda separação entre ser e valor vem da negação da transcendentalidade do ser, tal como essa transcendentalidade foi compreendida pelo realismo tradicional. Desde que a filosofia moderna negou a transcendentalidade do ser, impôs essa absurda separação entre valor e ser. Se o valor está separado do ser, o ser não é transcendental, | ||
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| + | Além disso, se o valor é irreal, não se vê como possa ser objetivo e transcendente, | ||
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| + | A separação entre ser e valor, juntamente com a confusão entre separação e distinção, | ||
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| + | Ora, se o valor não se fundar metafisicamente no Ser Absoluto, ele se torna imanente, torna-se uma projeção da subjetividade, | ||
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| + | Os grandes teóricos do valor, que foram Max Scheler e Nikolai Hartmann, (este último apesar do seu ontologismo) revelaram suficientemente que, numa teoria dos valores que queira torná-los objetivos, o indivíduo particular ou geral que os avalia não tem importância fundante. Os valores são metafísicos e meta-humanos. São princípios modelares que se fundam no Ser Absoluto e permanecem indiferentes à corrupção das cousas em que se exprimem. | ||
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| + | 4. Em suma, parece-me que as meditações axiológicas a que se têm entregue os pensadores deste século, mostraram a impossibilidade de conciliar a realidade dos valores com qualquer subjetividade antropocêntrica. A filosofia dos valores, para fundar os valores, teve que transpor os limites do racionalismo, | ||
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| + | Por isso disse Johannes Hessen: “Uma filosofia dos valores que não procurasse achar a relação que existe entre os valores e o Ser Absoluto, ou aquela realidade última a que as religiões chamam Deus, seria incompleta”. — E seria também impossível, | ||
