barbuy:barbuy-ser-univoco-e-ser-analogo-ii
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| barbuy:barbuy-ser-univoco-e-ser-analogo-ii [30/12/2025 12:14] – created - external edit 127.0.0.1 | barbuy:barbuy-ser-univoco-e-ser-analogo-ii [13/04/2026 19:52] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== SER UNÍVOCO E SER ANÁLOGO II ====== | ||
| + | |||
| + | Todo panteísmo encerra, de fato, a mesma contradição interna do sistema platônico e da qual Platão, em diversas passagens se deu perfeitamente conta, a saber: De que modo pode a multiplicidade participar da unidade da Ideia? De que modo pode uma Ideia determinada, | ||
| + | |||
| + | Todos os seres serão portanto, nesta concepção, | ||
| + | |||
| + | No entanto, a forma corrente da concepção unívoca do Ser se exprime no panteísmo emanatista, segundo o qual tudo parte de Deus, como difusão e expansão da sua própria realidade, e tudo, num movimento de retorno se resolve novamente em Deus; o Ser, do qual os seres são expressões transeuntes, | ||
| + | |||
| + | Sob este aspecto, o panteísmo idealista alemão é bem mais consequente do que o panteísmo de Spinoza, para o qual a substância única se exprime realisticamente na extensão, formando a matéria do mundo — e no pensamento, formando os espíritos[]: | ||
| + | |||
| + | Resta pois a solução de considerar a realidade do mundo como um conjunto de representações ideais de um Espírito Absoluto, o qual, pensando-se a si mesmo, produz transformações sempre novas da sua realidade. Tal por exemplo o idealismo transcendental de Fichte, Schelling, Hegel e nos correntes dias o idealismo de Croce e Gentile. — Aqui, simplificando, | ||
| + | |||
| + | Em outras teorias (tal por exemplo, a de Krause), Deus e o mundo constituem uma só essência, mas o mundo é apenas uma parte da essência total. — De modo que Deus é o mundo, mas o mundo não é Deus: correlato este bem curioso da concepção pela qual a matéria é ideia, mas a ideia não é matéria. — Porque, se Deus é o mundo, mas o mundo não é Deus, então o Ser Absoluto é visto quantitativamente, | ||
| + | |||
| + | Uma negação do princípio de identidade é ainda o panteísmo do Élan Vital, na metafísica de Bergson. A filosofia bergsoniana, | ||
| + | |||
| + | Sabe-se precisamente que na doutrina tomista Deus é Ato Puro, o que exclui todo devenir, todo vir-a-ser, porque em Deus não pode haver mistura de ato e potência, o que é próprio somente dos seres criados, susceptíveis de aperfeiçoamento. — Em Deus não há composição de espécie alguma, desde que é a absoluta simplicidade, | ||
| + | |||
| + | Mas o Deus bergsoniano, | ||
| + | |||
| + | Toda esta teoria bergsoniana, | ||
| + | |||
| + | Tal é um panteísmo que, à semelhança de outros, admite um Deus que em vez de absoluta simplicidade, | ||
| + | |||
| + | Ora, toda concepção unívoca do ser, nasce de que, se o Ser é o que é, tudo quanto é devenir, ou é uma ilusão, uma negação do ser, ou então é o Ser mesmo explicitando-se no universo. Esta premissa, insinua, no panteísmo, que os seres e o Ser absoluto devem ser uma só e a mesma substância, | ||
| + | |||
| + | De fato, se ao Ser absoluto e aos seres finitos convém o atributo do ser, não é o mesmo modo de ser que se atribui indiferentemente a todos, sendo que o ser das cousas creadas é um ser limitado por uma essência imperfeita e o Ser increado subsiste na sua infinita perfeição, | ||
| + | |||
| + | Não se pode dizer que um Deus distinto do mundo é limitado pelo mundo, pois que o Ser infinito encerra em si, pelo fato de ser infinito, todas as perfeições existentes ou possíveis no mundo. Essas perfeições creadas existem em Deus de maneira superior e é pela penetração dessas perfeições creadas que a inteligência chega analogicamente ao Ser de Deus, o qual no entanto não é conhecido senão como Incógnita: In finem nostrae cognitionis Deum cognoscimus tamquam incognitum. Porque todo conhecimento discursivo é mediato e só o conhecimento intuitivo é imediato, constituído pela identificação do sujeito com o objeto, ou seja, no caso, pela comunhão mística: a qual no entanto não é objeto da ontologia. | ||
| + | |||
| + | Se Deus não contivesse em si todas as perfeições encerradas no mundo, então Deus seria, como no bergsonismo, | ||
| + | |||
| + | Quanto à concepção unívoca do panteísmo idealista, a sua contradição é flagrante: este panteísmo estabelece que o Ser absoluto é uma substância única, existente, e por outro lado é também uma Ideia Abstrata, universal, indefinida. Ora, ser abstrato e concreto ao mesmo tempo, do mesmo modo, é impossível. Porque, ou bem o Absoluto é uma ideia abstrata e nada tem de concreto, não havendo pois realidade no mundo, porque o mundo será uma soma de representações, | ||
| + | |||
| + | Ora, enquanto o Deus dos escolásticos é o Ser na sua mais absoluta plenitude, o Ser por excelência — Ens a se —, o Ato Puro, no qual são uma só e a mesma cousa a Essência e a Existência (diversamente dos outros seres em que a essência se distingue da existência atual) — ao contrário o Deus dos panteístas, | ||
| + | |||
| + | A realidade pode sair do Nada desde que um Deus a crie. Mas se esse Deus mesmo é Nada, não poderá sair dele realidade alguma. E efetivamente, | ||
| + | |||
| + | E quando acaso se admite a Consciência do Ser Absoluto, o qual evolui necessariamente, | ||
| + | |||
| + | Ora, se depois disto voltarmos ao senso comum, muito longe de nos sentirmos como a Consciência do Absoluto, ainda que em simples potência, a verdade é que nos sentimos dotados de uma existência que afirma o ser pelo existir, de uma existência contingente, | ||
| + | |||
| + | E assim, depois de tantos idealismos, que nunca tomaram conhecimento da existência real do mundo, levantou-se na filosofia contemporânea o compreensível movimento existencialista, | ||
| + | |||
| + | Mas o idealismo, destruindo a tríplice realidade substancialmente distinta, de Deus, do mundo e do ego e afirmando que Deus é o mundo e que o Ser é unívoco, ou tem que negar a Deus ou tem que negar o mundo: Porque, se afirma que Deus é o mundo, afirma a existência do mundo, mas nega a de Deus. E se afirma que o mundo é Deus, afirma a existência de Deus, mas nega a do mundo como tal, porque ao mundo faltam os atributos do Absoluto. | ||
| + | |||
| + | Além do que, se Deus é imanente ao mundo, não pode ser transcendente ao mundo: Porque, se o Ser é idêntico aos seres, não se vê de que maneira o Ser poderia ser transcendente aos seres. | ||
| + | |||
| + | Por isso também, no monismo bergsoniano, | ||
| + | |||
| + | De modo que, monismo materialista, | ||
| + | |||
| + | Ainda, se não houvesse uma correlação entre o sujeito e o objeto do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Que a situação é realmente esta, é o que se vê pela declaração de Kant, que encerra o nexo de toda a sua Razão Pura e segundo a qual: “O ser não é evidentemente um verdadeiro predicado, um conceito de alguma cousa que possa ser acrescentando ao conceito de uma cousa”. Proposição esta que significa, segundo a observação de Étienne Gilson, que não há diferença alguma entre a noção de uma cousa dada com a existência e a noção dessa cousa sem existência ((L’Essence et l’être, pág. 8)). — No desprezo completo da existência de uma realidade concreta trans-subjetiva, | ||
| + | |||
| + | Pois, o problema está em aceitar ou não a existência da realidade objetiva; aceita essa existência, | ||
| + | |||
| + | Este primado do ser sobre o conhecer, supõe uma atitude inteiramente diversa daquela em que se colocou Descartes, de quem partiu todo idealismo, com a fórmula: Cogito, ergo sum. Ao que se pode repetir a observação corrente de que eu não existo porque penso, mas penso porque existo. | ||
| + | |||
| + | O primado idealista do conhecer sobre o ser, que é o primado do sujeito sobre o objeto, com a negação muitas vezes da realidade deste último, leva necessariamente à ontologia das essências, a qual vê no ser unicamente a essência, não reconhecendo realidade alguma fora da essência, a qual por sua vez, na realidade, não se dá sem a existência. — Porque se a existência não tem sentido sem a essência, a essência também nada é sem a existência, | ||
| + | |||
| + | A noção de ser é a mais universal de todas as noções, o que se atribui a todas as cousas e o termo de toda análise. Tudo quanto se passa conosco, tudo quanto vemos, variação, mudança, tudo isto são seres, seres acidentais ou seres substanciais, | ||
| + | |||
| + | Ao contrário, uma inteligência que reconheça, antes de mais nada, que o “progresso” da filosofia não se faz como nas ciências e nas técnicas por substituição e sim por aprofundamento, | ||
| + | |||
| + | Tal uma realidade que a Inteligência capta desde o absoluto, desde o Ato Puro, descendo pela escala dos seres compostos de ato e potência, de essência e existência, | ||
| + | |||
| + | Pode-se imaginar que alguém pense o nada, mas o nada pensado é também um modo de ser: a simples ideia do nada já é uma ideia do ser e o nada só se pode afirmar com limitação; | ||
| + | |||
| + | Quando o dogma religioso afirma que o mundo foi creado do nada, nem por isso pensamos o nada absoluto, porque antes do mundo havia o Ser absoluto. Se houvesse um conceito do nada, o nada já seria ser e se eu pudesse afirmar que o nada é o nada, começaria por afirmar que o nada é. O mundo foi creado do nada, mas foi creado pelo Ser.)) | ||
| + | |||
| + | Se, pois, não pensamos fora do ser e se toda realidade e ainda tudo quanto possamos pensar como irreal é de algum modo ser, se a nossa consciência nos diz que existem seres concretos e seres abstratos, seres objetivos e seres subjetivos, se estamos imersos num mundo de seres, como fugir ao problema capital da filosofia, que é reflexão sobre o ser, sobre a natureza do que é, para restringir o campo da atividade espiritual aos puros fenômenos, aos entes in alio, quando toda atividade cognoscente se subordina ao ser na sua amplitude? Ao ser enquanto ser na metafísica, | ||
| + | |||
| + | A inteligibilidade dos seres é o que faz também a sua analogia, a sua polivalência. A noção de ser vale para todas as cousas, mas a títulos diversos, a partir do ato do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | De fato, a essentia, — ontos on — é o que faz com que uma cousa seja o que é. A essência foi pelos escolásticos denominada quidditas, o que ao mesmo tempo implica o significado de uma substância essencial, dada com a sua existência. É pela essência dada com a sua existência e não apenas pelos acidentes que uma pedra se distingue de uma árvore. E se os seres se distinguem essencialmente, | ||
| + | |||
| + | De fato, uma essência se distingue das suas propriedades e dos seus conceitos: as propriedades são seres em outrem, estão na essência e os conceitos se predicam da essência. A qualidade é o que se afirma como existente num ser e o conceito é o que a minha inteligência, | ||
| + | |||
| + | Se a realidade fosse um conceito, então o supremo resultado da sabedoria, seria a redução do mundo a uma fórmula qualquer físico-teórica (v. g. a fórmula da relatividade geral). Mas essa fórmula, — parafraseando Karl Jaspers, — está no mundo e não é o mundo; e quantas fórmulas queiramos inventar, essas fórmulas sempre estarão no mundo e nunca serão o mundo, porque o mundo não é somente essência separada da existência, | ||
| + | |||
| + | E ainda que o mundo fosse apenas essência sem existência, | ||
| + | |||
| + | Mas o ser é uma substancialidade irredutível, | ||
| + | |||
| + | Todos os seres finitos, todos os seres contingentes, | ||
| + | |||
| + | Ora, se nós somos seres finitos é justamente porque não temos a nossa existência por força da nossa essência, desde que poderíamos existir e não existir. Se a nossa existência fosse dada por força da nossa essência, então não seríamos contingentes, | ||
| + | |||
| + | Uma ontologia verdadeira haverá de entender assim a existência como um ato de perfeição da essência, retornando à experiência total da vida, tão completamente abandonada pelos idealismos, pelos materialismos e pelos racionalismos, | ||
| + | |||
| + | O universo de seres em que estamos imersos não se explicaria sem o ato creador, sem a creação contínua pela qual somos tirados extra-nihilum, | ||
| + | |||
| + | Matéria e forma, potência e ato, essência e existência, | ||
| + | |||
| + | Quando se chega à conclusão necessária de que a experiência do existir nasce duma creação extra-causas e extra-nihilum, | ||
| + | |||
| + | O divórcio entre o ser e o existir se operou pela depreciação da metafísica, | ||
| + | |||
| + | Assim a ontologia realista apresenta uma escala inversa à da ontologia das essências sem existência, | ||
| + | |||
| + | Na escala gradativa dos seres finitos, cuja existência conquista a realidade sobre o possível e sobre o nada relativo, a liberdade cresce nessa conquista e neste sentido a experiência vivente é uma experiência da liberdade e na qual a liberdade cresce na proporção em que a essência se atualiza na existência. Assim se vê porque o ser permanece através do vir-a-ser, porque o vir-a-ser é potência e o ser é ato e como a experiência vital, o fluxo contínuo, a mobilidade, supõe a estabilidade do ser, o qual se realiza permanecendo no vir-a-ser e sem o qual o vir-a-ser não teria sentido. | ||
| + | |||
| + | E eis então o extraordinário significado da experiência indizível de existir e da angústia com que nos surpreendemos a nós mesmos como seres subtraídos ao nada. Se não tivéssemos esta íntima experiência de havermos saído do nada, não se explicaria a angústia da finitude e da morte que é o terror de voltar ao nada. Porém, se somos uma negação do nada e se nós mesmos não somos a causa do ser que temos, se a matéria em nós não nos constituiria sem a forma, se esta forma substancial se revela espiritual, então o mistério que nos arrancou ao nada de existir, também não nos devolverá ao nada. Com a corrupção da matéria, porque se havia de corromper a forma que não é matéria? O milagre do existir, implicando uma causa eficiente e uma causa final é também o milagre da liberdade, que consiste em buscar a paz ou fugir à missão da vida buscando o desespero. Mas tanto o desespero não é a vocação da vida, que se a vida não fosse esperança não subsistiria; | ||
