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| + | ====== SARTRE E HEIDEGGER ====== | ||
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| + | Se o existencialismo contemporâneo dá como estrutura do existir o estar-jogado-no-mundo, | ||
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| + | O indivíduo humano está isolado, porque já não há mais o sentido da realidade, desde que as interpretações científicas do mundo destruíram a realidade. A pressão científica do geral e do coletivo aboliu o individual e o particular: anulou a única realidade que outrora existia, desde que o indivíduo não cabe nos quadros da ciência. O indivíduo se sente projetado num vácuo indefinível, | ||
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| + | Já não é mais o espaço um todo fechado, embebido da comunhão da nossa vida pessoal; já não traz o cunho de uma cultura, nem o vinco de uma linguagem afeiçoada; morreu o espaço, quadriculado em latitudes e longitudes, sem relação com o espaço antigo. O indivíduo atual, não tendo o seu tempo, nem o seu espaço, já não pode saber o que é, nem onde está, nem se está ou se é alguma cousa. Cercado só de objetos manufaturados, | ||
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| + | Esta situação não pode deixar de ser o resultado do idealismo, da sua degenerescência denominada materialismo e da fabricação da realidade artificial pelas ciências ironicamente chamadas “da natureza”. Rejeitada a experiência irrepetível do indivíduo, construído o universo sintético, subordinado o vital a fórmulas e categorias, a existência não pode em tais circunstâncias apresentar-se senão como absurdo. A existência aparece sempre como indivíduo. O indivíduo, porém, é a negação das categorias coletivas; ele é o que não pode ser captado pelo geral das categorias e das leis científicas; | ||
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| + | Poder-se-ia supor que a reação do existencial contra o absurdo das abstrações, | ||
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| + | O existencial tinha um sentido no velho realismo greco-medieval, | ||
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| + | Kierkegaard, | ||
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| + | O protagonista da Náusea sartreana, é por um lado tout juste un individu, mas por outro sente-se como sendo a própria raiz do castanheiro que o obcessiona. Não é a comunhão com as cousas naturais, como a árvore ou a raiz do castanheiro. Para que haja comunhão do indivíduo com a natureza, é preciso que haja natureza, que a natureza tenha sentido, que o indivíduo não sobre, mas esteja exatamente no seu lugar. A natureza, porém, desapareceu do cenário das ciências, das filosofias e da vida contemporânea. A “natureza” contemporânea não é de modo algum o que foi a Physis para os gregos e a Natura para os medievais; os medievais estavam tão radicados ao vital concreto, que simplesmente estudavam a alma como parte da natureza; viam a natureza das cousas e não as “cousas” da natureza; a natureza das cousas está toda em cada cousa; mas as “cousas” da natureza são como fragmentos abstratos de uma realidade falsa. | ||
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| + | Depois do egocentrismo de Descartes, depois do criticismo e das interpretações científicas, | ||
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| + | A Náusea sartreana não se move entre cousas, mas apenas entre objetos que perderam até mesmo a acepção que a ciência lhes havia dado. Objetos que a ciência havia posto no lugar das cousas, numa certa ordem coletiva; derruída essa ordem artificial, os objetos ficaram como testemunhos da náusea e do absurdo. | ||
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| + | A conhecida experiência sartreana do absurdo, por que passou Antoine Roquentin, à sombra do castanheiro, | ||
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| + | A raiz da árvore se perdia na terra; Roquentin não se lembrava já de que era uma raiz; as palavras se haviam desvanecido e com elas o sentido das cousas; destruída a rotulagem tranquilizadora, | ||
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| + | > ”Je rêvais vaguement de me supprimer, pour anéantir au moins une de ces existences superflues. Mais ma mort même eût été de trop. De trop, mon cadavre, mon sang sur ces cailloux, entre ces plantes, au fond de ce jardin souriant. Et la chair rongé eût été de trop dans la terre qui l’eût reçue et mes os, enfin, nettoyés, écorcés, propres et nets comme des dents, eussent encore été de trop: j’étais de trop pour l’éternité”. | ||
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| + | Absurda era aquela raiz, tudo era absurdo; a existência é superfluidade, | ||
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| + | Não; essas existências são desfalecimentos e fraquezas. Esses troncos não tinham vontade de existir. Esforços inúteis. Tentativas falidas. A existência é um cheio que o homem não pode abandonar. Essa raiz, por exemplo, não tinha razão alguma para estar aí, para existir; mas teria sido impossível que não existisse. Afastando-se do jardim, sorriram-lhe as cousas; mas era impossível compreendê-las. | ||
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| + | Esta foi, em síntese, a experiência do castanheiro. Toda a aventura da Náusea é um conjunto de situações excêntricas, | ||
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| + | Roquentin gostaria de não ser ele mesmo; gostaria de ser a raiz do castanheiro; | ||
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| + | Jean-Paul Sartre foi, na sua primeira fase, a fase da Náusea, o intérprete de um drama de que o homem atual é o protagonista. Mas ele personifica, | ||
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| + | As grandes filosofias têm um conteúdo intemporal, que decorre da intuição da essência da realidade; e um conteúdo temporal que decorre das circunstâncias de uma época. Em Sartre não há senão esse conteúdo temporal, aplicável a certo tipo de seres e a certo momento. É como um reflexo, o espelho da contradição. Nega a vontade de potência e a luta pela vida; mas luta ele próprio para viver e afirma a vontade de poder, escrevendo com fins de proselismo. Todavia, tem a coragem que os outros materialistas não tiveram: a de tirar do materialismo a conclusão necessária de que o mundo é então absurdo. E só por isso, o materialismo de Sartre é o próprio fim do materialismo. O materialismo tem nas premissas uma conclusão que se tornou manifesta com Sartre. | ||
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| + | Sartre, em sua fase mais recente, parece ter perdido a capacidade de exprimir a perplexidade da existência em face de si mesma. Não é mais o autor autêntico da Náusea. L’Existencialisme est-il un humanisme parece um ensaio ginasiano, onde realmente Sartre sobra. Tentativa frustrada e malograda de conciliar a náusea com o compromisso. Effort inutile. | ||
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| + | Enquanto Sartre manipulou os temas heideggerianos em plano puramente humano, Heidegger, depois do Sein und Zeit se desenvolveu a si mesmo numa linha cósmica e poética. Nem por isso Heidegger deixa de ser o filósofo da angústia existencial, | ||
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| + | Estar no mundo não é apenas estar na terra ou no universo cósmico. O mundo c um conjunto de significados, | ||
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| + | Angústia não é medo. Medo é o sentimento que temos diante de certa realidade determinada; | ||
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| + | Esse Nada heideggeriano, | ||
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| + | Muitas críticas podem ser dirigidas a Heidegger. O existencialismo de Heidegger significa primeiramente o esquecimento do esquecimento de que a metafísica tradicional não era o esquecimento do Ser. Esquecimento do Ser não foi a metafísica tradicional, | ||
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| + | Mas, tanto é verdade que as essências metafísicas tradicionais não são uma rotulagem, que, tendo-as abolido, onde foi que o existencialismo fundou as existências? | ||
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| + | A metafísica tradicional também não pode ser considerada humanismo e antropologismo; | ||
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| + | A-letheia, desocultamento: | ||
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| + | Contudo, há entre Sartre e Heidegger, uma total diversidade. Sartre traduz a derrota, a falência, a fraqueza. Heidegger, porém, exprime a vitalidade do herói, tendido para o futuro, sereno diante da morte e disposto a salvar a grandeza final do existir humano. | ||
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| + | Já observou um estudioso do existencialismo (Enzo Paci) que, na audácia heroica, de que fala Heidegger, facilmente se adivinha a exaltação do agir e a reminiscência de Siegfried. | ||
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| + | Não é pois o existencialismo de Heidegger uma lamentação sob os muros da ruína. Acima de todas as suas contradições, | ||
