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| + | ====== PHYSIS E NATUREZA ====== | ||
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| + | Sabe-se que as origens da filosofia se encontram na meditação sobre o mistério e a essência da Natureza. Os pré-socráticos têm sido habitualmente mal compreendidos e por vezes considerados materialistas ou cientistas embrionários que apenas anunciaram os grandes progressos da ciência que veio depois deles. Basta contudo ler os fragmentos dos pré-socráticos [] para que o sentido do seu pensamento apareça totalmente diverso do que é apresentado pelos autores comuns. Vê-se que nos pré-socráticos a Natureza é objeto de intuições cósmicas e profundas. E vê-se também a impressionante unidade do pensamento grego desde Thales até Aristóteles. Há por certo uma distinção aparente entre a filosofia como intuição cósmica do Ser, tal como se apresenta nos pré-socráticos, | ||
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| + | Mas antes de se tornar com Platão a Dialética da essência dos seres, a filosofia não procurava saber o que é que as cousas são ou no que consistem []; voltava-se antes para a Natureza enquanto mistério das origens; a filosofia se constitui tal inicialmente porque se perguntou a si mesma porque é que algo é, quando o que é poderia não ser. Sob a penumbra da poesia e do mito, os pré-socráticos viram, no que é, um reflexo da Luz e da Sombra e um mistério da Natureza. | ||
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| + | Bastaria alargar um pouco as meditações de Heidegger sobre o sentido íntimo da Physis a propósito da poesia de Hölderlin ou então bastaria procurar os fundamentos mythicos da filosofia da Physis e ver-se-ia que não é só até Anaximandro, | ||
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| + | A Physis grega é uma Natureza sagrada porque é o lugar da manifestação do Ser; o nada relativo, a Physis indefinível que se levante da visão pré-socrática da realidade, constitui como um fundo, do qual se erguem as existências, | ||
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| + | Se os gregos falavam de um Kosmos, como de um princípio de ordem, é porque supunham a preexistência do chãos, como confusão, indeterminação e noite. Se perguntavam qual é a realidade da qual o real se destaca, a Physis era essa realidade, do qual o real era determinado; | ||
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| + | A visão dos seres, como o que se desenha por um momento sobre a Noite originária da Physis, como o que a luz do inteligível faz emergir da obscuridade do Chaos, essa visão pré-socrática revive na filosofia platônica, onde a realidade aparente nasce de um jogo de luz e de sombra, como tão bem atesta a doutrina das Ideias e particularmente o mito da Caverna (Rep., L. VII). | ||
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| + | Pode pois Heidegger interpretar arbitrariamente a filosofia de Platão, quando diz que desde Anaximandro até Nietzsche a filosofia não foi mais do que um errar no meio dos entes com o esquecimento do Ser e quando declara que desde Anaximandro a filosofia grega não foi senão um pensamento de fabricação, | ||
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| + | A verdade mítica da Água em Thales, como princípio úmido do qual tudo se nutre e cresce, essa Água que leva o ser nascente no ventre materno, supõe como fecundidade, | ||
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| + | E pois que os gregos não tinham esperado ainda o espírito e a natureza e que a natureza era verdadeiramente o sagrado em que se manifesta e opera a potência divina, eles contemplavam a realidade ora na Physis, ora no Divino. Dois princípios que se fundem, se separam e se reúnem na mitologia grega, mas que nunca a abandonam. | ||
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| + | Os seres se determinam a partir do Indeterminado de que fala Anaximandro. Mas é o Fogo de Heráclito, símbolo da Luz, que cria os seres na Physis. Heráclito fala de um rio, que é a imagem de tudo quanto passa; mas não é verdade que, segundo Heráclito, não há senão o que passa; o Fogo não passa; é o Fogo que faz com que as cousas passem sem passar ele próprio; não desceremos duas vezes ao rio da Physis porque esse rio nunca será o mesmo; o rio que se destacou da noite originária é o reino movediço, onde tudo é tensão, e onde a harmonia só é possível pela conversão dos contrários; | ||
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| + | O Fogo e o rio desenvolvem o mesmo papel em Anaxímenes, | ||
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| + | A Physis é em suma o princípio de irrupção e nascimento (como diz a palavra Natura, que traduz Physis e vem de nasci). Aristóteles poderá ter chamado Physicos os primeiros filósofos. Porque, segundo ele, esses filósofos se voltaram unicamente para a Physis e não para o Logos que a ordena. Isto não quer dizer que a Physis não esteja presente com os quatro elementos que a constituem. A Physis segundo Aristóteles é coeterna ao Motor Imóvel. Ela pode tornar-se matéria-prima, | ||
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| + | A Matéria grega é uma realidade viva, Hyle significando floresta, bosque, como princípio maternal; é uma palavra que se traduz exatamente por madeira ou Matéria, que vem de mater. A Matéria é o princípio materno. É por isso que a Matéria é um todo dotado de potência germinativa e irruptiva, Aristóteles a dá como preexistente à fecundação do Logos. É como o Chaos que preexiste ao Kosmos. É aquilo de que as cousas se fazem, desenvolvendo-se na Terra, de onde irrompem os seres físicos, umedecidos pela Água, vivificados pelo Ar, iluminados e inflamados pelo Fogo. Esta Physis, esta Hyle, é banhada pela escuridão da Noite originária e pelo clarão das Ideias platônicas. Ela é, segundo Heidegger, a saída para o aberto, o que volta incessantemente a si mesmo, o que se insinua e o que se desvanece. É matriz e maternidade; | ||
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| + | Não é pois ao pensamento tradicional que se possa mover a acusação de haver oposto o homem vivo à natureza morta; os filósofos tradicionais não conceberam a matéria qual a mecânica do inerte, nem o espírito como negação do corpo. Nunca procuraram a origem do mundo no que se chama atualmente “matéria”. Acreditavam no corpo esses filósofos para os quais o fenômeno revelava a Physis sob o rasgo da luz eterna. Acreditavam no corpo e na terra, porque estavam ligados ao que é concreto; não haviam feito da realidade um conjunto de relações abstratas. A filosofia tradicional era Metafísica e não Ontologia. | ||
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| + | A Physis grega é um cenário onde se desenrola a tragédia divina, saindo da obscuridade sem forma. É o ponto em que o jogo da sombra e da luz torna inteligíveis os fenômenos, sob a projeção do que Platão denominava o realmente real. A filosofia grega era uma estética da visão, do theorein aristotélico, | ||
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| + | A Natureza antiga não tem relação alguma com o que denominamos hoje mundo. O mundo é para nós entidade “física”, | ||
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| + | A Physis responde aos princípios de matéria e forma que estão presentes nos pré-socráticos sob os nomes de Chaos e Kosmos, Indeterminado e Fogo, Calor e Frio, Infernal e Divino. O homem, justamente por estar situado nesse ponto de intersecção do infernal e do divino, é a sede de uma luta dos contrários, | ||
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| + | A Natureza não morreu no realismo aristotélico, | ||
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| + | A Natureza ficou vazia de sentido, juntamente com essas filosofias modernas que esterilizaram o conteúdo do fenômeno; a morte do fenômeno e a manipulação da Natureza são fatos inseparáveis. | ||
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| + | O phenômeno perdeu todo sentido desde que, por um lado, foi transformado numa projeção do sujeito — sujeito individual, geral ou absoluto, não importa — e desde que o espaço e o tempo foram vistos como projeções da sensibilidade individual ou do espírito absoluto. | ||
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| + | A Natureza foi outrora como a corporalidade e a expressão do divino; os lugares e os tempos eram lugares e tempos naturais. Cada lugar do espaço era ele próprio, com a marca do seu gênio. Havia a paisagem natal e o Mundus com a sua vizinhança; | ||
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| + | Ora bem, no tempo reduzido à cronometria e no espaço reduzido à uniformidade, | ||
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| + | A Natureza se tornou então, ou bem esse fenômeno que nós próprios criamos do fundo da nossa subjetividade, | ||
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| + | Por outro lado, não há nada mais falso do que dizer que estamos num plano em que não há senão o homem. É fácil dizer que toda a filosofia depois de Anaximandro não foi senão humanismo e antropologismo; | ||
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| + | É exato que nesta época de profundas crises há uma espécie de ressurreição e de nostalgia do realismo. Mas a questão que se põe é saber se é possível retornar ao realismo sem retornar à realidade. Retornar não significa voltar ao que já foi. Retornar significa cumprir o desejo doloroso — a nostalgia — de se reencontrar a si mesmo e reencontrar o que é seu; reencontrar-se no seu lugar próprio e no seu tempo vivido, onde haja uma imanência e uma transcendência que não possam atingir nem as técnicas, nem as ciências do superficial. | ||
