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| + | ====== FORMAS DO DESESPERO (2) ====== | ||
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| + | I — O ego é primeiramente uma síntese consciente de infinito e de finito, que se relaciona consigo mesma e cujo fim é tornar-se ela mesma, o que só pode fazer relacionando-se com Deus, que a colocou como síntese. Salvar-se é tornar-se si mesmo em suas relações com Deus. Este tornar-se si mesmo é certamente um vir-a-ser concreto, que não se pode cumprir nem só num, nem só noutro dos termos da antítese, senão se estabelece a desarmonia, o desespero, pela negação do finito, ou do infinito. O ego deve realizar em si a síntese do finito e do infinito; a evolução consiste pois em afastar-se indefinidamente em si mesmo numa infinitização, | ||
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| + | Quando esta evolução se cumpre desarmonicamente temos duas formas de desespero: | ||
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| + | O desespero do infinito ou a falta de finito: Sendo o ego síntese de finito que delimita e de infinito que ilimita, em toda vida humana que se crê infinita, ou quer sê-lo, cada instante é desespero. É um perder-se no imaginário, | ||
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| + | Certamente a orientação para Deus dota o homem de. infinito; mas esse infinito, rompido o equilíbrio, | ||
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| + | O desespero no finito ou a falta de infinito: Se, em vez de nos evaporarmos no infinito, com a perda do finito e do concreto, nos dissolvemos no finito com a perda do infinito, temos o desespero oposto. O ego se realiza como síntese de infinito e de finito e o cumprimento de um não pode ser a negação de outro. O desespero na finitude é a indigência moral, que o vulgo denomina indigência intelectual ou estética, ocupando-se de tudo, menos do que realmente importa, que é o destino do ego. É o desespero banal, que consiste em polir as arestas da personalidade, | ||
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| + | II — Como síntese de finito e de infinito, o ego é também uma síntese de necessidade e de possível, que são essenciais ao seu desenvolvimento dialético. Disto nascem duas novas formas de desespero: | ||
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| + | O desespero do possível ou a falta de necessidade: | ||
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| + | O desespero da necessidade ou a falta de possível: quando inversamente falta o possível e uma existência está confinada ao necessário, | ||
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| + | Além dos fatalistas e deterministas, | ||
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| + | III — O desespero é visto também sob a categoria da consciência, | ||
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| + | A insconsciência do desespero: Vem da inconsciência que o homem tem de ser um espírito. Para a salvação é pior que o desespero consciente, porque está separado dela por um passo a mais, um passo negativo. É verdade que, na ignorância, | ||
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| + | A consciência do desespero; conhecimento de si e desespero não se excluem, pois o desespero cresce com a consciência; | ||
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| + | O não querer ser si mesmo é uma forma passiva, dir-se-ia feminina do desespero; o desespero como que parece vir de fora, qual uma pressão do exterior. O desesperado vive a vida dos outros, não quer ser ele mesmo; ou, pior ainda, não quer nem mesmo ser um ego. Na escala mais baixa, quer ser algum outro, deseja para si um novo ego; trata-se aqui de um desespero do imediato que assume feições do cômico: imagine-se um ego, que é eterno, querer ser outro e iludir-se com a possibilidade da metamorfose. . . envolvido em boa sociedade, assumindo ares novos, olha com desgosto seu antigo ego, como se tivesse um novo, quando na realidade já não tem nenhum. É um desespero quanto ao temporal, o que não impede que o desesperado pense às vezes na vida eterna: mas o pastor o tranquiliza, | ||
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| + | Mas a paixão do ego em penetrar a própria fraqueza pode ser, no fundo, orgulho, e este desespero acabará por se condensar numa forma superior que toca os limites do desafio; ou então busca o esquecimento nas grandes empresas, na orgia dos sentidos, na devassidão. Vontade mórbida de não ser si mesmo. Se permanece taciturno, seu primeiro risco é o suicídio; mas o suicídio deixa de ser uma porta quando tal desesperado diminui o hermetismo, comunicando-se com alguém; inútil recurso, porque a confidência não atenua o desespero, antes, pode aumentá-lo nos herméticos; | ||
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| + | O desespero de querer ser si mesmo: é um desafio à eternidade, porque o querer ser si mesmo significa querer ser um Ego absolutamente idêntico a si, um Ego Absoluto, Deus. O desespero-fraqueza consiste em não querer ser si mesmo; mas se a consciência cresce e sabemos porque é que não queremos ser nós mesmos, tudo se inverte, e temos o desafio, justamente porque então o desesperado quer ser ele mesmo. O desafio não vem por intermédio da pressão ambiente, mas diretamente do ego, do fundo de si. Requer a consciência de um Ego infinito, que é a mais abstrata das formas do ego e dos seus possíveis. O desesperado dilata sua parcela de eternidade e de infinito, quer ser criador de si mesmo, fazer de seu ego o ego que ele quer tornar-se; quer desembaraçar-se de toda relação com o Poder que o criou e usurpa ao Ego Infinito a ideia da sua existência. Quer ser Deus e não pode. Não reconhecendo poder acima dele, carece de segurança interior. E, no desesperado esforço que faz por ser ele mesmo, por ser Deus, acaba por se aniquilar no seu contrário dialético, perdendo seu próprio ego, não sendo mais um ego. Sua aparente soberania está sujeita a esta contradição dialética. Perde-se na fábula e não passa de um fazedor de experiências; | ||
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| + | Há um jogo dialético que vai do ego ativo ao passivo; do não querer ao querer ser si mesmo. O desespero do temporal, o desespero-fraqueza, | ||
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| + | Após essa exposição sumária das formas do desespero, facilmente vemos que todos os seres humanos ou quase todos, salvo raras exceções, são desesperados. Façamos em torno desta conclusão algumas considerações, | ||
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| + | Tudo se passa como se Kierkegaard tivesse generalizado seu próprio desespero; foi assim também que Freud generalizou um drama particular de sua família, querendo estendê-lo a todos os homens; foi assim que Adler, reagindo contra a fraqueza, generalizou para todos o “complexo de inferioridade”. Essa vontade de não querer ser si mesmo se exprime em Kierkegaard pelo uso dos pseudônimos com que lançou seus livros; e esse desespero-desafio, | ||
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| + | Mas a profunda lição que decorre da teoria do desespero e da análise da angústia, consiste em por bem a descoberto um dos traços fundamentais do Cristianismo, | ||
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| + | Kierkegaard foi um homem só, diante da eternidade, e em face de Deus. Teve a clara consciência da sua solidão e teve a coragem de afrontá-la. Mas não confundamos a solidão diante do social, com a solidão espiritual. A solidão diante do social é uma imposição do espírito; mas a solidão espiritual é uma forma de desespero. O fato de, psicologicamente, | ||
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| + | Outro traço luterano que influiu no desespero de Kierkegaard, | ||
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| + | A solidão espiritual do indivíduo, o seu sentimento de culpa, agravam-se nas denominações religiosas que aboliram o sacramento da penitência, | ||
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| + | Numa página de seu Diario, de 1837, Kierkegaard atribui a seu pai uma necessidade nunca satisfeita de confissão: “Como seria bom ter um verdadeiro e velho confessor, a quem verdadeiramente poder abrir-se”. Com tais palavras, Kierkegaard se exprime a si mesmo, tendo tentado confessar-se em todos os seus livros; e tendo falado da necessidade de confidências nos desesperados herméticos, | ||
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| + | Um exame de consciência profundo, como é o que deve preceder a confissão, quando o penitente mergulha no mais íntimo de si mesmo, reconhecendo suas culpas, em vez de procurar escondê-las ou racionalizá-las, | ||
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| + | Kierkegaard fez de si mesmo essa análise, como nenhum psicanalista poderia ter feito; teria faltado a todo psicólogo a terrível acuidade do filósofo, a sua penetração metafísica, | ||
