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| + | ====== DESESPERO (1) ====== | ||
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| + | A teoria do desespero em Kierkegaard demonstra que o drama do espírito humano não tem apenas raízes psicológicas, | ||
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| + | O desespero de Kierkegaard deve ser compreendido sob a perspectiva em que ele mesmo o colocou e nunca no plano apenas psicológico. Seria fácil encontrar em sua biografia sintomas de neuroses; Sören sofreu desde o berço a influência maléfica de um pai rigoroso, pietista luterano, crente até o fanatismo e cuja personalidade se lhe apresentou primeiramente | ||
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| + | A consciência do pecado, não só do pecado original, mas do pecado particular de que ele nasceu deu-lhe a viva imagem do desespero concreto, existencial; | ||
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| + | O suicídio, como também o demonstrou Schopenhauer, | ||
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| + | A inutilidade do suicídio vem da imortalidade do homem; como disse Kierkegaard, | ||
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| + | Kierkegaard dedica um capítulo à universalidade do desespero: É que a concepção corrente do desespero fica na sua superfície e não vê que uma das formas do desespero é o aparente não estar desesperado, | ||
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| + | Se o pecado é desespero e se a vida se apresenta a Kierkegaard como desespero, a vida se lhe apresenta como pecado e temos a chave da sua análise da angústia e do desespero: ele se via como a imagem do pecado. “Há crimes que não se podem combater sem o auxílio incessante de Deus” —; disse-lhe um dia o pai — e ele, “correu ao seu quarto, a olhar-se num espelho” (Diário, 1837), como quem olha aterrado a imagem de um crime, e do próprio desespero. O pecado nele adquiriu um significado existencial e particular; mas, a maneira de combatê-lo era “o auxílio incessante de Deus”, isto é, do não-particular, | ||
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| + | Este ponto crítico pode mostrar ainda que o desespero de Kierkegaard não se originou somente de sua biografia individual, mas também da essência do protestantismo. Educado na reforma luterana, tornada ainda mais severa pelo pietismo de Spencer, Kierkegaard não seria possível fora dos quadros do protestantismo; | ||
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| + | Não tendo nenhuma proporção e nenhuma afinidade emotiva com sua mãe, Kierkegaard praticamente não teve mãe. Tudo se passou em seu espírito como se ele fosse unicamente filho e imagem de seu pai. “O pior perigo, — escreveu ele — não é que o pai seja livre-pensador, | ||
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| + | Crer, ser piedoso, mas não ter paz; voltar-se para Deus e não ser ouvido; ter fé e no entanto sofrer: este foi um problema crucial para Kierkegaard, | ||
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| + | Como pode um homem crer e não ter paz? — Um homem pode crer e não ter paz, se a paz que procura é a paz deste mundo; esta paz nunca a tiveram os santos; o que tiveram, no meio dos tormentos mais impressionantes, | ||
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| + | Para Kierkegaard não é o sofrimento, mas o desespero, um caminho de salvação; o desespero é a doença mortal, a perdição e a morte de que não se pode morrer; salvar-se é superar, extirpar o desespero: é então que o ego, orientando-se para si mesmo, querendo ser si mesmo, mergulha através de sua própria transparência no Poder que o colocou (L.I, cap. I). Ademais, a resignação e a inocência são também formas de desespero. O desespero em suma é a consciência de um destino espiritual, sem o qual ninguém se salva. E o desesperado é aquele que pode, vencendo o desespero, integrar a síntese do seu ego em Deus. | ||
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| + | Kierkegaard parece ter tido sempre presente o ensinamento evangélico que manda sobrepor a tudo a salvação da alma; salvar-se o que é? — Salvar-se poderá bem ser um realizar-se no plano da eternidade, passando pelos perigos da condição humana, que é a de uma síntese instável. O desespero é a desarmonia dos termos desta síntese (síntese dialética que certamente vem em linha reta de Hegel, mas que Kierkegaard colocou em dimensões diferentes, tirando conclusões novas). | ||
