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| + | ====== NAÇÃO E O ROMANTISMO ====== | ||
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| + | 1. A exposição que se vai seguir foi reconstituída de notas de aulas ministradas na Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, | ||
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| + | Para expor a história do nacionalismo romântico, expomos o nacionalismo alemão, porque foi no âmbito da cultura alemã que esse nacionalismo atingiu a sua expressão mais compacta e mais homogênea. Isto se dá porque o romantismo | ||
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| + | Devemos dizer que o romantismo não se confunde com o lirismo e o sentimentalismo. É a reconstituição orgânica duma visão mágico-metafísica do homem e da natureza. Foi em função de toda a sua Weltanschauung que o romantismo promoveu novas artes e novas formas de arte; novas ciências e novas visões da ciência; a filosofia dos valores e o sentido do Valor; as novas perspectivas da história e a revitalização dos Mythos originários; | ||
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| + | 2. Por oposição a todo racionalismo e a toda Aufklärung, | ||
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| + | Na obra de Herder, Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menschheit, aparece pela primeira vez claramente esta ideia de Nação—Volk, | ||
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| + | Herder recolhe de Santo Agostinho a ideia da grande harmonia universal do plano divino, na qual todas as nações poderão fundir-se; mas à ideia da História concebida linearmente, | ||
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| + | Sem procurar outros antecedentes, | ||
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| + | A mesma orientação se afirma nas obras de filologia, propulsionadas pelo romantismo. Wilhelm von Humboldt (irmão do viajante e naturalista), | ||
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| + | 3. O método da Einfühlung — compenetração simpática — de Herder, com a ideia da originalidade de cada cultura, se reproduz na obra de Niebuhr, famoso historiador de Roma, que lançou as bases duma visão nova da Antiguidade e que nos mostra o desenvolvimento de Roma até as guerras púnicas, como um todo coerente e não como série mecânica de fatos arbitrários. A Escola Histórica encontrou um de seus pontos mais altos no exame feito por Niebuhr das lendas que envolvem a história primitiva de Roma e na comparação dessas lendas com os Eddas germânicos e a Canção de Hildebrando. | ||
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| + | Na Escola Histórica não cabia de modo algum a noção positivista de “fato” político, de “fato” social, ou de “fato” social, ou de “fato” econômico, porque o “fato” como significando o já feito, o já acabado e morto, é a negação da História vista como processual e dinâmica; os fatos são apenas símbolos de fluxos mais profundos e só valem como indicações do processo que revelam. Assim, a noção mecânica de causa e efeito (e de cultura como adição acumulativa), | ||
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| + | Se nos colocamos na perspectiva da Escola Histórica, nada nos parecerá mais digno de lástima do que a noção contratualista da perfectibilidade humana indefinida, que pretende fabricar constituições perfeitas para toda e qualquer nação, com o total desprezo de suas peculiaridades, | ||
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| + | Para uma visão de conjunto da obra de Leopold von Ranke, leia-se a conferência comemorativa pronunciada em 1936, na Academia Prussiana de Ciências, por Friedrich Meinecke, e publicada como apêndice da grande obra sobre o Historicismo e sua gênese (trad. esp. Fondo de Cultura, México, 1943). | ||
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| + | 4. Mas a veneração pelo Estado, manifestada de modo quase uniforme pelos nacionalistas românticos, | ||
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| + | O culto do Estado nos românticos não vinha de que atribuíssem ao Estado poderes arbitrários e sim de que viam no Estado a imagem do Volk, que exprime da maneira mais completa os mesmos princípios que regem as vidas individuais isoladas. O culto do Estado foi próprio inclusive dos liberais românticos. Leopold von Ranke, Henrich von Treitschke e Wilhelm von Humboldt, vivamente preocupados com a liberdade individual e com o papel da personalidade na História, consignaram no entanto ao Estado os mais plenos poderes. Os economistas, | ||
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| + | É o cosmopolitismo, | ||
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| + | A noção romântica de Estado, em suma, só pode ser compreendida a partir da noção romântica de Volk. O Volk não pode nem deve ser considerado uma entidade coletiva, no sentido de uma coleção avulsa de indivíduos; | ||
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| + | Os positivistas imaginaram que certos elementos sociais “objetivos” — como a linguagem, a moeda, as leis, os costumes — constituem um todo, feito e pronto, que o indivíduo recebe de fora para dentro ao nascer; estes elementos são vistos pelos positivistas como superiores e exteriores ao indivíduo. Os românticos pensaram, ao contrário, que a moeda, as leis, os costumes, a linguagem são intrínsecos ao indivíduo que nasce numa cultura; não constituem um todo feito, mas um conjunto de símbolos, e o que tem importância não é a moeda — em si uma cousa morta — e sim a particular maneira de usar a moeda, de falar a língua, de cumprir os ritos legais. São elementos interiores e intrínsecos ao indivíduo, que os traz desde antes do nascimento, juntamente com a cultura ancestral de que é portador. Esta tese romântica foi depois justificada, | ||
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| + | Se a língua é um patrimônio hereditário, | ||
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| + | 5. A Nação é uma totalidade fechada. Mas segundo os românticos, | ||
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| + | A língua nacional, como expressão da cultura original, é um dos temas desenvolvidos por Fichte em seus Discursos à Nação Alemã. Fichte teve, sobre o romantismo, uma influência ainda maior que a de Schelling e Hegel, com os quais compõe a trilogia de Filósofos do Idealismo Absoluto. Sua obra Reden an die deutsche Nation é de capital importância para a história do conceito de Volk, de Estado, de educação nacional e para a filosofia do nacionalismo. São 14 Discursos exclusivamente dirigidos a alemães e sem a menor intenção de valer para outros povos. Escritos e pronunciados entre 1807 e 1808, na Alemanha dividida, na Prússia destruída e reduzida a menos da metade do seu território e da sua população, | ||
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| + | O romântico inglês Blackwell havia já sustentado que a língua e o destino do povo estão intimamente ligados. Hamann havia observado que os autores do Renascimento, | ||
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| + | Tudo o que se pensa é vivo na língua original, porque entre as imagens sensíveis e as supra-sensíveis há uma perfeita correlação. Se disséssemos por exemplo a um alemão as palavras de procedência estranha Humanität, Popularität, | ||
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| + | Um grupo nacional se degrada quando adota uma língua estranha, cujas raízes estão mortas e cujas palavras exprimem entidades puramente supra-sensíveis, | ||
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| + | Na tese de Fichte, a natural evolução das línguas não se opõe a que as mesmas se conservem primitivas, ao contrário. O essencial é que a evolução proceda geneticamente, | ||
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| + | 6. O nacionalismo linguístico de Fichte traduz um sentimento comum aos românticos. Reflete-se, por exemplo, em Arndt, contemporâneo de Fichte, e considerado um dos maiores poetas do sentimento nacional; em Görres, romântico católico; em Wilhelm von Humboldt, filólogo e historiador, | ||
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| + | Assim sendo, não há nada menos internacional do que a língua e a música. As obras de arte plástica, a literatura e a música, são obras de indivíduos dotados para assumir a capacidade de exprimir a cultura de que são portadores. Schubert e Beethoven, Brahms e Wagner são compositores universais, mas são compositores especificamente alemães. Sem Wagner não poderia haver a música wagneriana; mas sem a cultura que se corporifica em Wagner, sem os motivos arquetípicos que assumem em Wagner a consciência da sua expressão, essa música não poderia ter existido. | ||
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| + | Na perspectiva romântica, só não tem fronteiras a arte que se transformou em técnica e virtuosismo, | ||
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| + | 7. Fichte, Schelling e Hegel são essencialmente os filósofos do processo dinâmico. Concebem o mundo com todos os seus fenômenos como posição, oposição e síntese provisória dos contrários. Deus, a Natureza e o Estado são partes de um processo absoluto no qual o ser, o vir-a-ser e o dever-ser se identificam. Schelling não altera essa perspectiva quando põe o Estado, não como sujeito do processo dialético, e sim como a condição desse processo. Schelling diz, na sua Philosophie der Mythologie (23.a lição), que o Estado, com sua raiz na Eternidade, é a base durável e indestrutível de toda a vida humana e de todo o desenvolvimento posterior do espírito. Ele é o que é estável e o que não comporta revoluções. No processo dinâmico, o Estado é o reflexo do que permanece; todas as reformas devem dar-se dentro dele e não contra ele; a missão do Estado é garantir ao indivíduo a máxima liberdade, uma liberdade que se exerça acima e fora do Estado e nunca no âmbito do Estado; o Estado é uma base, uma hipótese, uma ponte de passagem necessária no processo do Espírito. O Estado, como espelho da Nação, deve permanecer desenvolvendo-se, | ||
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| + | Hegel insere a Nação no processo universal dialético, como o desenvolvimento coerente de um princípio particular que exprime o Espírito Absoluto. A Nação é uma determinação particular, característica e inconfundível, | ||
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| + | Em Hegel, a Natureza e a História são exteriorizações do Espírito, que toma consciência de si, determinando-se em entidades particulares. O Espírito Absoluto é a essência da Natureza e da História, que são etapas do seu desenvolvimento. A História é o Espírito nas épocas e nas Nações. A Nação, que se identifica com o Estado que a espelha, aparece como realidade muito mais concreta que o indivíduo, porque mais universal do que este último e porque encarnação mais ampla do Espírito universal. Um Volk em Hegel se define como determinação do Absoluto incarnando-se no Estado. É uma determinação do Espírito Absoluto sob a forma do Espírito de um Povo. O Espírito do Povo é a fonte da liberdade; Hegel diz, numa passagem da Filosofia do Espírito (§ 73), que a pessoa só existe como tal pela força interna e pela necessidade que o espírito do povo lhe comunica; a pessoa só é livre no espírito do Povo. Em outra passagem (§ 257) Hegel diz que o Estado é a realidade em ato da Ideia moral objetiva; é o espírito moral como vontade substancial revelada, ciara a si mesma, que se conhece, se pensa, e realiza o que sabe por sabê-lo; o indivíduo tem sua liberdade substancial ligando-se ao Estado, como à sua essência, como fim e como produto de sua atividade. | ||
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| + | Seria absurdo então confundir o Estado com a sociedade civil, como a Revolução Francesa e os regimes individualistas confundiram. Quando o Estado é confundido com a sociedade civil e visto como instituição destinada à segurança e à proteção da propriedade e da liberdade individual — quando em suma os interesses individuais são vistos como o fim do Estado, então o Estado não passa de um contrato civil e se torna facultativo ser membro ou não de um Estado. Mas se o Estado, como afirma Hegel, é o Espírito objetivo, então o indivíduo não tem objetividade, | ||
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| + | Mas o Estado, assim visto por esses filósofos, não é o Estado burguês, o Estado mercador e o Estado de classes, e sim o Estado como reflexo da imagem divina, como forma superior da comunidade, no sentido verdadeiro de Gemeinschaft. | ||
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| + | Não só em Fichte, Hegel e Schelling, mas nos românticos em geral, inclusive nos católicos, a nacionalidade, | ||
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| + | Só no Estado se realizam todas as características do Volk, e o Volk é uma totalidade que assume e transcende o indivíduo. O destino do indivíduo se define em função duma escala de valores que emanam da cultura do seu Volk; os destinos e as realizações individuais não se compreenderiam fora dessas opções cuja essência está no Volk. O Espírito do Povo, assim como é concebido pelos românticos, | ||
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| + | O destino, ou a missão histórica de cada nacionalidade se explica em função do espírito que a produz. Cada povo que desempenhou um papel realmente histórico, executou uma parte da tarefa divina. De Hegel pode-se dizer que realmente deu forma à filosofia da História como processo: Processo global evolutivo, marcado pelo desenvolvimento, | ||
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| + | 8. Os românticos restauraram o prestígio e o poder dos mitos como força plasmadora das Nações []. Mas o Mytho, tal como é interpretado na linha romântica, não tem nada de parecido com o “mito”, no sentido vulgar de mentira e de invenção humana. O Mytho, para os românticos é a projeção da vontade divina, uma força que plasma a história e plasma a nação, longe de ser plasmada por elas. O Mytho se identifica com o primordial, com o fundamento, com o arquetípico; | ||
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| + | Nessa perspectiva, | ||
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| + | Os românticos baniram portanto todas as interpretações humanísticas segundo as quais os mitos são representações de formas políticas, sociais ou econômicas. O culto de Hölderlin pelos Mitos, por exemplo, não pode ser identificado com nenhuma espécie de humanismo, como tem sido: Antes, é o culto do não-humano, | ||
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| + | A identificação do Volk-Nation com o mito originário se manifesta já nas expressões Urvolk, Ursprache, Urquelle, Urflüssige. Este prefixo UR, sugerindo a noção da essência primordial, indica a força plasmadora do espírito original na História. A ideia de Nação se reveste de grande poder emocional, quando associada à ideia de mito originário. Torna-se uma categoria emotiva e religiosa, objeto daquela Einfühlung ou compenetração simpática de que falava Herder. | ||
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| + | Os românticos, | ||
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| + | 9. A descoberta romântica do Inconsciente enriqueceu extraordinariamente todos os campos do conhecimento e da imaginação humana. O Inconsciente é o reino esquecido aonde se recolhem todas as vivências do passado pessoal e popular. Não é um depósito de recalques, como supunha Freud, mas um princípio ativo pelo qual o passado age no presente. — No mesmo ano, (1814), apareceram a Simbólica dos sonhos de G. H. von Schubert (que, com Carus formulou a tese do Inconsciente), | ||
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| + | Ao inconsciente, | ||
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| + | A imagem da comunidade primordial, os deuses pré-cristãos, | ||
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| + | 10. Para compreender, | ||
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| + | Princípio anímico significa princípio irracional e vital; os românticos, | ||
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| + | Se, na teoria da ordem social, tomamos a palavra Espírito, não no seu sentido mais amplo, e sim no sentido de faculdade puramente racional, de faculdade científica e organizatória, | ||
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| + | E era justo afinal que os românticos pusessem como base das doutrinas do Volk, da comunidade e da Nação, este princípio anímico: É que a crença, a fé, a Weltanschauung, | ||
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| + | 11. Na percepção dos Valores, a razão se opõe ao sentimento. Desde que os românticos puseram a Nação como ente valioso, a Nação deixou de ser simplesmente uma organização político-jurídica. Tornou-se um ente vital, congênito a uma escala particular de Valores, da qual os aspectos político-jurídicos são apenas a consequência. Como sabemos, a Escola Histórica combateu energicamente a ideia dum direito natural universal, principalmente de um direito positivo universal, afirmando ao contrário as características populares de cada povo com o seu direito. Friedrich Karl von Savigny, expoente máximo da Escola Histórica do Direito, fala num Volksrecht e não num direito abstrato e internacional. O direito, segundo a Escola Histórica, é vital e orgânico, particular e intransferível; | ||
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| + | 12. O pensador inglês sir Edmund Burke, em sua luta contra a Revolução Francesa, havia publicado um ensaio, Reflections on the Revolution in France (1790), no qual sublinhava a importância da vivência histórica nacional como fundamento das instituições. Repelindo toda ideia da sociedade concebida como contrato, Burke considerava o Estado como entidade natural, como criação e reflexo de forças e valores anteriores a toda vontade premeditada. Fazia ver que o Estado é muito mais complexo do que supunham os simplórios da Revolução Francesa, pois o Estado é o conjunto de todo o patrimônio moral, espiritual e material da Nação, abraçando os vivos e os mortos, a tradição e o renovamento. Fundados em seu profundo senso histórico é que os ingleses mediam sua liberdade — não à luz de textos abstratos e constituições declarativas — e sim à luz de sua tradição. Ora, uma liberdade fundada na tradição só pode nascer de instituições que vivem historicamente, | ||
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| + | Na mesma linha, e sublinhando a tese de que as nações são essencialmente organismos históricos, | ||
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| + | 13. O Estado compreendido como organismo ou organização não é o Estado compreendido como articulação de repartições públicas e de indivíduos que governam arbitrariamente. O Estado, segundo Hegel, é um universal, é a própria substância do Volk, não havendo nenhuma divisão entre Estado e Volk, ou entre Estado, governo e Nação. | ||
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| + | Mas quando o Estado se nega como realidade universal e se individualiza em grupos de interesse ou em determinada classe, ele perde seus característicos e já não pode justificar seu direito de ação. O Estado romântico, o Estado de Fichte e Hegel, é, como já dissemos, uma totalidade orgânica, onde por isso mesmo cada órgão funciona no seu devido lugar, sob severa hierarquia e disciplina inquebrável. Não é um grupo ou uma classe, mas é toda a Nação, a Nação substancializada na sua vontade profunda, que é uma vontade do seu Espírito; não se trata da soma das opiniões, mas de uma vontade que assume a sua consciência nas elites, que por isso mesmo assumem o destino da Nação inteira. As elites autênticas são compreendidas como a fiel representação de todo o povo, como o espelho do Volk. E tal é também, diga-se de passagem, a doutrina de Vilfredo Pareto, com sua lei da circulação das elites, onde estas últimas se constituem do processo de seleção e filtragem do corpo social inteiro. As elites representam os valores ideais e os modelos ideais de vida; são a cristalização dos modelos ((VIDE: LÉXICO DE FILOSOFIA.)). | ||
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| + | Quando o indivíduo e o Estado se opõem é porque o indivíduo não vê no Estado uma vontade substancial e universal e sim uma vontade particular — tão particular como a sua — e que se contrapõe a ela. Mas quando o Estado é realmente a corporificação do Volk, ele é também a condição da liberdade individual, que se integra numa substância superior, mais universal. Nos quadros da filosofia romântica, um Estado que corporifica o Povo não se confunde em nada com o Estado como representante do povo, tal como foi concebido teoricamente pela Revolução Francesa; o Povo não é uma soma de opiniões, mas uma categoria metafísica, | ||
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| + | O conflito entre indivíduos e Estado se soluciona pela tese de que a Vontade nacional está toda inteira em cada indivíduo: E por isso, se a vontade individual se contrapõe à Vontade profunda do Estado, é o indivíduo que está extraviado de si e da sua própria liberdade. Assim Burke compreendia as liberdades inglesas, que segundo ele haviam nascido nas florestas germânicas, | ||
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| + | 14. Segundo Fichte, no âmbito do Estado, a vontade se exerce pela escolha duma determinação necessária e por uma educação que torne impossível escolher o contrário do que ordena a verdadeira vontade. Se bem compreendemos Fichte, a liberdade de querer o que não se deve é uma liberdade contraditória; | ||
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| + | 15. Muitos românticos puderam, coerentemente, | ||
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| + | Os românticos, | ||
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| + | Os românticos viam que a união da Igreja e do Império havia dado ao Império um sentido espiritual transcendente e ao Papado uma tradição de nobreza e cavalheirismo. A luta secular entre Papado e Império havia sido a ruína de ambos: o Império perdeu seu sentido ecumênico, sua significação de fulcro e centro da Cristandade. O Papado perdeu sua condição de árbitro universal da Cristandade. Deixou de ser a coroa de uma ordem hierárquica ecumênica. Da guerra entre o Papado e o Império nasceu a fragmentação da Cristandade; | ||
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| + | Muitos foram os românticos que viram, na ação conjunta do Papado e da monarquia francesa, uma guerra insidiosa e secular contra a temida unidade da Alemanha e a restauração do Sacro-Império. Todas as tentativas de Reforma religiosa e toda a Reforma luterana têm sua raiz nessa fragmentação da Cristandade, | ||
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| + | Esta reminiscência da perdida unidade era uma reminiscência da ordem ecumênica. A ordem ecumênica universal supõe a autonomia das partes e a sua adesão a princípios sucessiva e hierarquicamente superiores. O Sacro-Império foi universal e não internacional. Na sua universalidade couberam todas as peculiaridades, | ||
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| + | Entre o internacionalismo e a ideia romântica de Nação como Allheit, já vimos que a oposição é absoluta. Mas entre a Nação como Allheit e a universalidade, | ||
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| + | 16. Além disso, todos os românticos encontravam a unidade de seus pontos de vista na repugnância ao cosmopolitismo, | ||
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| + | Romântica é a obra de Ferdinand Tönnies, Gemeinschaft und Gesellschaft que desenvolve a distinção, | ||
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| + | Os românticos, | ||
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| + | Todos esses economistas dirigiram severas críticas à economia liberal de Smith-Ricardo. Mostraram por exemplo que a teoria econômica não se pode fundar no indivíduo isolado, porque o indivíduo pressupõe o Estado com sua moeda, sua economia, seu caráter nacional e suas perspectivas históricas; | ||
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| + | 17. O histórico, o cultural e o nacional são termos que se associam. A cultura nacional se lhes apresentou como força mais enérgica do que a civilização urbana para imprimir à Nação o ritmo de um desenvolvimento dotado do sentido e dos fins que a civilização já perdeu. Assim a árvore cresce tanto mais forte quanto mais profundas estão suas raízes imersas no solo natal. A ideia de Nação como totalidade, composta de partes autônomas — como a floresta é composta de árvores individuais — é uma ideia que radica na Comunidade, por oposição à sociedade; dessa ideia decorre uma filosofia social, uma sociologia e um conjunto de doutrinas econômicas que são comunitaristas, | ||
