agamben:linguagem-morte:5
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| + | ====== Jornada V ====== | ||
| + | //Giorgio Agamben. Il linguaggio e la morte. Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi, 1982.// | ||
| + | **Quinta jornada** | ||
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| + | * Um texto de Hegel evidencia o problema da voz de modo a lançar luz singular sobre a articulação do conceito de negatividade em seu pensamento, tratando-se dos manuscritos das lições ministradas em Jena em 1803-1804 e 1805-1806, publicados por Hoffmeister respectivamente sob os títulos Jenenser Realphilosophie I, em 1932, e Jenenser Realphilosophie II, em 1931. | ||
| + | * Após o " | ||
| + | * Citação que descreve essa noite em termos terríveis: o homem é essa noite, esse puro nada que tudo contém em sua simplicidade, | ||
| + | * O signo e sua "muda indicação" | ||
| + | * A memória, a Mnemosyne dos antigos, não consiste em particularizar formalmente intuições já presentes no elemento universal, mas em transformar a intuição sensível em fato-de-memória, | ||
| + | * Citação sobre o recordar-se: | ||
| + | * Menção a Adão, cujo primeiro ato de soberania sobre os animais foi dar-lhes nome, negando-os como seres independentes e tornando-os ideais para si. | ||
| + | * Citação final: o nome existe como linguagem, conceito existente da consciência que, mal se fixa, imediatamente cessa, existindo no elemento do ar. | ||
| + | * O nome, por existir "no ar" como negação e memória do nomeado, abole o que no signo ainda era natureza, transformando o reino das imagens em "reino dos nomes", | ||
| + | * A voz vazia do animal adquire significado infinitamente determinado em si: o puro som da voz, a vogal, diferencia-se pela articulação do órgão vocal, sendo interrompido pelas consoantes mudas, verdadeiro deter do mero ressoar, de modo que a linguagem sonora e articulada é voz da consciência porque cada som tem um significado, | ||
| + | * Questiona-se em que consiste essa articulação e o que nela é articulado: o puro som da voz animal, a vogal, interrompido e detido pelas consoantes mudas, processo de diferenciação, | ||
| + | * Retoma-se o problema da voz animal: a voz é audição ativa, puro si que se põe como universal, exprimindo dor, desejo, alegria, satisfação, | ||
| + | * Citação integral dessa passagem das lições de 1805-1806 sobre a voz como audição ativa e expressão do si tolhido na morte violenta. | ||
| + | * Por exprimir-se a si mesmo como tolhido na morte, o animal permite compreender por que a articulação da voz animal pode dar origem à linguagem humana e tornar-se voz da consciência, | ||
| + | * Somente porque a voz animal não é verdadeiramente vazia, mas contém a morte do animal, a linguagem humana, que articula e detém o puro som dessa voz, a vogal, voz da morte, pode tornar-se voz da consciência, | ||
| + | * Citação segundo a qual a natureza jamais pôde alcançar produto durável nem verdadeira existência, | ||
| + | * A linguagem humana, enquanto articulação, | ||
| + | * A linguagem significante é verdadeiramente a vida do espírito que porta a morte e nela se mantém, possuindo por isso o poder mágico que converte o negativo em ser, poder que lhe compete porque é articulação daquele traço dissipante que é a voz animal, sendo a linguagem duplamente voz e memória da morte, articulação e gramática do traço da morte. | ||
| + | * O caráter central antropogenético do contato com a morte no sistema hegeliano, conforme Kojève, evidencia a importância dessa situação da linguagem humana nas lições jenenses como articulação de uma voz animal que é, na verdade, voz da morte, abrindo-se a questão de por que esse contato íntimo entre linguagem e morte numa voz parece desaparecer no desenvolvimento posterior do pensamento hegeliano, indício encontrado no final da passagem de 1803 onde a voz é relacionada ao desejo, sendo si negativo e desejo. | ||
| + | * Na Fenomenologia do Espírito, o contato antropogenético com a morte tem seu lugar na dialética do desejo, no combate pela vida ou pela morte entre senhor e servo, desembocando no reconhecimento (Anerkennen); | ||
| + | * Citação: se a consciência não experimentou o medo absoluto (die absolute Furcht), mas apenas algum medo particular, a essência negativa lhe permaneceu exterior e sua substância não foi intimamente contagiada por ela. | ||
| + | * A consciência do servo, contagiada pelo negativo nessa experiência, | ||
| + | * Entre a dialética voz-linguagem reconstruída nas lições jenenses e a dialética entre desejo e trabalho, servo e senhor, revela-se estreita correspondência, | ||
| + | * O gozo do senhor, não mais animal e ainda não humano, não mais desejo e ainda não trabalho, mostra por um instante a articulação originária da faculdade da morte que caracteriza a consciência humana, do mesmo modo que a Voz, já não signo natural e ainda não discurso significante, | ||
| + | * Ao mostrar em sua transparência inicial essa articulação das duas faculdades, a Voz aparece como figura originária e ainda não absolvida daquela ideia absoluta que, como único objeto e conteúdo da filosofia, é exposta ao final da Ciência da Lógica como a palavra originária (das ursprüngliche Wort) que habita no puro pensamento e está sempre já dissipada em cada proferir-se. | ||
| + | * Citação final: a lógica expõe o mover-se da ideia absoluta apenas como a palavra originária, | ||
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| + | * A articulação negativa em seu estatuto originário dissipante é aquilo que Bataille, e o hegelismo francês dos discípulos de Kojève, procuraram reivindicar como possível experiência fundamental para além do horizonte da dialética hegeliana, sendo essa reivindicação do desejo, da Meinung, do gozo do senhor, em suma das figuras do Morto (das Tote), ou, como também se exprime Bataille, da negatividade sem emprego, perfeitamente legítima dado o estatuto fundamental que a elas compete no sistema hegeliano, ainda que pretender jogar essa negatividade contra o próprio sistema e fora dele seja igualmente impossível. | ||
| + | * À pretensão de quem quisesse reivindicar o gozo do senhor, Hegel teria respondido justamente com o mistério eleusino que, no início da Fenomenologia, | ||
| + | * O problema é o da voz do senhor, pois, se este consegue verdadeiramente gozar e subtrair-se ao movimento da dialética, deve ter em seu prazer uma voz animal, ou antes divina, algo que o homem jamais consegue realizar, permanecendo preso ao discurso significante, | ||
| + | * Esse problema da satisfação ocupa o centro de uma carta inédita de Kojève a Bataille, datada de 8 de abril de 1952 e conservada na Bibliothèque Nationale de Paris, da qual são reproduzidos alguns trechos, começando Kojève por advertir Bataille de que o terreno em que este se meteu ao repropor a ideia de satisfação é um terreno escorregadio (glissant), que conduz fatalmente a uma farsa. | ||
| + | * Citação de Kojève sobre o terreno escorregadio: | ||
| + | * Kojève desenvolve então sua crítica à posição de Bataille, observando que este talvez avance depressa demais, sem se preocupar em chegar a uma sabedoria ridícula, sendo necessário representar aquilo que faz coincidir a sabedoria com o objeto do riso, problema último que Kojève não crê que Bataille possa pessoalmente evitar, nunca tendo ouvido Bataille dizer nada que não fosse expressa e voluntariamente cômico ao chegar a esse ponto de resolução, | ||
| + | * Kojève afirma então que o modo mais correto de colocar o problema não é o da satisfação, | ||
| + | * Citação de Kojève: colocando a soberania do sábio ao fim da história, a identidade da satisfação e da insatisfação torna-se sensível. | ||
| + | * Em outra carta a Bataille, de 28 de julho de 1942, Kojève desenvolvia considerações de certo modo análogas a respeito do problema da mística e do silêncio, segundo as quais conseguir exprimir o silêncio verbalmente é falar sem nada dizer, havendo infinitas maneiras de fazê-lo mas sendo o resultado sempre o mesmo, quando se consegue: o nada, razão pela qual todas as místicas autênticas se equivalem, falando do nada de modo adequado, isto é, não dizendo nada; quanto ao fato de os místicos também escreverem, como o próprio Bataille faz, Kojève pensa que enquanto místicos não teriam razão para fazê-lo, mas que um místico que escreve não é apenas místico, sendo também um homem ordinário com toda a dialética do Anerkennen, razão pela qual escreve, encontrando-se por isso no livro místico, à margem do silêncio verbalizado pelo discurso desprovido de sentido, um conteúdo compreensível, | ||
| + | * Citação de Kojève sobre o silêncio e a mística, mencionando explicitamente Bataille. | ||
| + | * Bataille caracteriza aquilo que chama experiência interior em termos filosóficos, | ||
| + | * Citação de Kojève sobre potência e ato, Aristóteles, | ||
| + | * O augúrio final de Kojève, convidando a reentrar na perspectiva da sabedoria hegeliana, lembra a crítica da Meinung que abre a Fenomenologia. | ||
| + | * Citação de Kojève: deseja a Bataille passar da potência ao ato, da filosofia à sabedoria, reduzindo a nada o que é apenas nada, isto é, reduzindo ao silêncio a parte angélica de seu livro. | ||
| + | * Um pensamento que queira pensar para além do hegelismo não pode, em verdade, encontrar fundamento, contra a negatividade dialética e seu discurso, na experiência mística e, se coerente, necessariamente muda da negatividade sem emprego, devendo antes encontrar uma experiência de palavra que já não suponha nenhum fundamento negativo, vivendo-se hoje naquela franja extrema da metafísica em que esta retorna, como niilismo, até o próprio fundamento negativo, ao próprio Ab-grund, à própria infundabilidade, | ||
