agamben:linguagem-morte:3
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| + | ====== Jornada III ====== | ||
| + | //Giorgio Agamben. Il linguaggio e la morte. Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi, 1982.// | ||
| + | **Terceiro dia** | ||
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| + | * Da e diese (assim como there e this em inglês, hic advérbio de lugar e hic pronome demonstrativo em latim, mas também como ci e questo em italiano) são morfologicamente e etimologicamente conectados, ambos remetendo a uma raiz que tem em grego a forma τό e em gótico a forma pa, pertencendo, | ||
| + | * na reflexão sobre as partes do discurso (μέρη της λέξεως, | ||
| + | * Aristóteles, | ||
| + | * os estoicos, primeiros a reconhecer, entre os σύνδεσμοι, | ||
| + | * não se sabe se a definição do gramático Tirânio, que chama os pronomes σημειώσεις, | ||
| + | * No curso de seu desenvolvimento, | ||
| + | * abrindo-se a Gramática de Dionísio Trácio, vê-se que a definição do nome e sua distinção em nome próprio (ιδίως λεγόμενον) ou comum (κοινώς λεγόμενον) pode, de um lado, ser ligada à definição aristotélica no Περί έρμηνείας, | ||
| + | * O entrelaçamento de categorias gramaticais e categorias lógicas, que aparece aqui já realizado, não é, contudo, um nexo casual que possa ser desatado tal como, em certo ponto, parece ter sido atado, mas, antes, como haviam intuído os gramáticos antigos ao atribuir a Platão e a Aristóteles a origem da gramática, categorias gramaticais e categorias lógicas, reflexão gramatical e reflexão lógica implicam-se originalmente uma à outra e são, portanto, inseparáveis. | ||
| + | * o programa heideggeriano de uma " | ||
| + | * Um evento decisivo, nessa perspectiva, | ||
| + | * se o nome era a parte do discurso correspondente às categorias aristotélicas da substância (segunda) e da qualidade (ποιόν) — isto é, na terminologia gramatical latina, a parte do discurso que designa substantiam cum qualitate, uma substância determinada de certo modo —, o pronome situa-se, em relação a ele, ainda mais além, em certo sentido nos limites das possibilidades da linguagem, pois significa substantiam sine qualitate, a pura essência em si, antes e além de qualquer determinação qualitativa | ||
| + | * Desse modo, a dimensão de significado do pronome vinha, de algum modo, a coincidir com aquela esfera do puro ser que a lógica e a teologia medievais identificavam como dimensão de significado dos chamados trascendentia: | ||
| + | * esses termos (cuja lista coincide aproximadamente com os πολλαχως λεγάμενα aristotélicos, | ||
| + | * assim, o primeiro dos trascendentia, | ||
| + | * quanto aos demais trascendentia, | ||
| + | * A proximidade do pronome com a esfera dos trascendentia — fundamental para a articulação dos maiores problemas teológicos — recebe, contudo, no pensamento medieval, uma determinação essencial justamente através do desenvolvimento do conceito de demonstratio, | ||
| + | * pronomen — lê-se em um texto gramatical do século XIII — est pars orationis significans per modum substantiae specificabilis per alterum unumquodque... quicumque hoc pronomen ego, vel tu, vel ille, vel quodcumque aliud audit, aliquid permanens apprehendit, | ||
| + | * A demonstração (ou, no caso do pronome relativo, a relação) cumpre e preenche o significado do pronome, sendo por isso " | ||
| + | * por isso, se faltam os atos indicativos, | ||
| + | * É nessa perspectiva histórica que se pode olhar, neste ponto, para a estreita implicação entre pronome — o " | ||
| + | * Pergunta-se, | ||
| + | * O pensamento lógico-gramatical medieval — assim, por exemplo, a Grammatica speculativa de Tomás de Erfurt, que está na base da Habilitationsschrift de Heidegger sobre Duns Escoto — distingue aqui duas espécies de demonstratio: | ||
| + | * segundo Tomás de Erfurt, este é também o modus significandi do nome próprio: ut si dicam, demonstrato Joanne, iste fuit Joannes, hic unum demonstratur et aliud in numeros significatur | ||
| + | * Pergunta-se de onde provém esse aliud, essa alteridade que está em jogo na demonstratio ad intellectum, | ||
| + | * um gramático do século XIII (Thurot, p. 175) chega a representar, | ||
| + | * a indicação que está em jogo no pronome consiste, aqui, na união de dois modos de significação, | ||
| + | * Na intuição da natureza complexa da indicação e de sua referência necessária a uma dimensão de linguagem, o pensamento medieval toma consciência da problematicidade da passagem entre significar e mostrar que ocorre no pronome, mas não consegue dar-lhe solução, cabendo à linguística moderna realizar o passo decisivo nessa direção (o que, contudo, só foi possível porque, entre o pensamento lógico-gramatical da Idade Média e o nascimento da moderna ciência da linguagem, situa-se o desenvolvimento da filosofia moderna que, de Descartes a Kant até Husserl, é, em boa parte, uma reflexão sobre o estatuto do pronome Eu). | ||
| + | * A linguística moderna classifica os pronomes entre os " | ||
| + | * pergunta Benveniste qual é a " | ||
| + | * Apenas através desse remetimento faz sentido falar de deixis e de " | ||
| + | * não serve de nada definir esses termos e os demonstrativos em geral através da deixis, como se costuma fazer, se não se acrescenta que a deixis é contemporânea da instância de discurso que porta o indicador de pessoa, sendo dessa referência que o demonstrativo extrai seu caráter sempre único e particular, que é a unidade da instância de discurso a que se refere; o essencial é, portanto, a relação entre o indicador (de pessoa, de lugar, de tempo, de objeto mostrado etc.) e a presente instância de discurso, e, assim que não se tem mais em vista, através da mesma expressão, essa relação do indicador com a instância única que o manifesta, a língua recorre a uma série de termos distintos que correspondem simetricamente aos primeiros, mas que se referem não mais à instância de discurso, e sim aos objetos reais e aos tempos e lugares " | ||
| + | * Nessa perspectiva, | ||
| + | * Num ensaio de um ano posterior ao de Benveniste, Jakobson, retomando em parte a definição do linguista francês, classifica os pronomes entre os shifters, isto é, entre aquelas unidades gramaticais especiais, contidas em todo código, que não podem ser definidas fora de uma referência à mensagem, desenvolvendo a distinção de Peirce entre o símbolo (associado ao objeto que representa por uma regra convencional) e o índice (que se encontra numa relação existencial com o objeto que representa), | ||
| + | * um exemplo evidente é o pronome pessoal: eu designa a pessoa que enuncia " | ||
| + | * Aqui, como em Benveniste, atribui-se aos shifters a função de articular a passagem entre significação e indicação, | ||
| + | * Se isso é verdadeiro, aquilo que a reflexão lógico-gramatical da Idade Média apenas intuíra (na ideia da centralidade do actus loquentis e da prolatio vocis para o significado do pronome) está aqui claramente formulado: o significado próprio dos pronomes — enquanto shifters e indicadores da enunciação — é inseparável de um remetimento à instância de discurso, não sendo a articulação — o shifting — que eles operam do não linguístico (a indicação sensível) ao linguístico, | ||
| + | * a deixis, a indicação — em que desde a Antiguidade foi identificado seu caráter peculiar — não mostra simplesmente um objeto inominado, mas, antes de tudo, a própria instância do discurso, o seu ter-lugar, sendo o lugar indicado pela demonstratio, | ||
| + | * Procura-se precisar melhor a esfera de significado que se abre nesse remetimento à instância de discurso, definindo-a Benveniste através do conceito de " | ||
| + | * a enunciação — escreve ele — é a colocação em funcionamento da língua através de um ato individual de utilização, | ||
| + | * é preciso atentar à condição específica da enunciação: | ||
| + | * A esfera da enunciação compreende, portanto, aquilo que, em todo ato de fala, refere-se exclusivamente a seu ter-lugar, à sua instância, independentemente e antes daquilo que, nele, é dito e significado, | ||
| + | * A ciência da linguagem capta essa dimensão como aquela em que ocorre a entrada em funcionamento da linguagem, a conversão da língua em fala, mas, na história da filosofia ocidental, essa dimensão se chama, há mais de dois mil anos, ser, ουσία. | ||
| + | * aquilo que sempre já se mostra em todo ato de fala (ανάγκη γάρ έν τω έκαστου λόγω τον της ουσίας ένυπάρχειν; | ||
| + | * a dimensão de significado da palavra " | ||
| + | * apenas porque a linguagem permite, através dos shifters, fazer referência à própria instância, algo como o ser e o mundo se abrem ao pensamento | ||
| + | * A transcendência do ser e do mundo — que a lógica medieval captava no significado dos trascendentia e que Heidegger identifica como estrutura fundamental do ser-no-mundo — é a transcendência do evento de linguagem em relação àquilo que, nesse evento, é dito e significado, | ||
| + | * Isso permite compreender com maior rigor o sentido daquela diferença ontológica que com razão Heidegger reivindica como fundamento sempre esquecido da metafísica, | ||
| + | * a transcendência do ser em relação ao ente, do mundo em relação à coisa, é, antes de tudo, transcendência do evento de linguagem em relação à palavra, e os shifters — as pequenas palavras isto, aqui, eu, agora, através das quais, na Fenomenologia do Espírito, a certeza sensível crê poder apreender imediatamente sua própria Meinung — estão sempre já tomados nessa transcendência, | ||
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| + | * O entrelaçamento entre reflexão gramatical e reflexão teológica é, no pensamento medieval, tão estreito que o tratamento do problema do Ser supremo não pode ser compreendido sem referência a categorias gramaticais, | ||
| + | * Essa implicação tem seu lugar eletivo no problema do nome de Deus ou, mais geralmente, naquilo que os teólogos definem como problema da " | ||
| + | * segundo as teorias gramaticais, | ||
| + | * Nas Regulae theologicae de Alano de Lille, a predicação de um nome à substância divina é descrita como um " | ||
| + | * todo nome, dado a partir da forma, dito a partir da forma, decai da forma; sendo todo nome, segundo sua primeira instituição, | ||
| + | * Se o nome — referido à substância divina, que é pura substância e "forma formatíssima" | ||
| + | * sempre que por um pronome demonstrativo se fala de Deus, decai-se da demonstração, | ||
| + | * Contudo, a função ostensiva do pronome é aqui mantida através do recurso àquela experiência particular da palavra que é a fé, pensada como lugar de uma indicação que não é nem sensível nem intelectual, | ||
| + | * É importante observar que a fé se define, aqui, como uma dimensão particular de significado, | ||
| + | * Nessa perspectiva, | ||
| + | * são Tomás define, em passagem decisiva, a dimensão de significado desse nome como aquela em que não se nomeia nenhum ser determinado, | ||
| + | * quando se procede em direção a Deus pela via da negação, primeiro nega-se dele os atributos corporais, depois também os intelectuais tal como se encontram nas criaturas, como a bondade e a sabedoria, e então resta apenas em nosso intelecto o fato de que Deus é, e nada mais, como numa certa confusão; por fim retira-se dele também esse próprio ser, tal como ele é nas criaturas, e resta então como numa treva de ignorância, | ||
| + | * Nas últimas palavras dessa passagem, também a dimensão universalíssima de significado do nome "qui est" é ultrapassada, | ||
| + | * Para compreender a dimensão de significado aqui em questão, para além da vagueza que se costuma atribuir à teologia mística (que é, antes, uma gramática particular, mas perfeitamente coerente), é preciso ter presente que, nesse limite extremo do pensamento ontológico, | ||
| + | * são Tomás escreve a respeito desse nome que ainda mais próprio é o Tetragrammaton, | ||
| + | * Em hebraico, como em toda língua semítica, escreviam-se apenas as consoantes, sendo o nome de Deus transcrito pelo tetragrama IHVH (iod, hé, waw, hé), desconhecendo-se as vogais que entravam em sua pronúncia, porque, ao menos nos últimos séculos de sua existência nacional, era rigorosamente proibido aos israelitas pronunciar o nome de Deus. | ||
| + | * nos rituais usava-se o nome Adonai, Senhor, certamente já antes da tradução dos Setenta, que sempre traz Κύριος, | ||
| + | * Segundo uma antiga interpretação mística — já atestada em Mestre Eckhart — o nome de quatro letras foi identificado com o nome qui est (ou qui sum). | ||
| + | * deve-se notar que Rabi Moisés, tratando desta palavra sum qui sum (Livro I, cap. 65), parece querer que esse seja o próprio nome tetragrammaton, | ||
| + | * O que aqui se pensa como suprema experiência mística do ser e como nome perfeito de Deus (a " | ||
